ATO DE PIEDADE CRISTÃ
(Hugo Rodrigues)
Há certos dias
aziagos dos quais não podemos - mesmo querendo - nos livrar e aquele,
desgraçadamente, foi um deles. Tinha amanhecido de mau humor e não sabia
exatamente qual a razão. Sentado à mesa de um colega no escritório, eu estava
"enrolando", evitando ir para a rua batalhar um pedido. Fazia
relatório de visitas imaginárias, arrumava as novas tabelas de preços, o
mostruário, a pasta, atendia telefonemas, só a fim de não sair. A lavadeira não
levou a roupa da semana e eu tive que me valer de um velho terno de casimira
azul marinho, bem conservado, todo forrado, quente para danar, da época em que
eu trabalhara em São Paulo. O dia estava nublado, céu plúmbeo, abafado. Nem uma
folha se mexia nas árvores! No escritório, o ar condicionado era um convite irresistível,
ainda mais com cafezinho, papo e tudo o mais! A cota do mês já estava coberta,
agora era desfrutar! Ninguém é de ferro! E com o desânimo em que me encontrava,
carregar uma pesada pasta pela rua, enfrentar fila, elevador, ônibus, visitar
cliente, convencê-lo a comprar, como haveria de? Hoje não carrego pasta para
senhor nenhum! Estava decidido e pronto!
O
telefone tocou e eu atendi. Do outro lado do fio, um amigo que há muito não
via, embora trabalhasse para nossa firma. Era quem cuidava da manutenção dos
nossos equipamentos, instalados nos clientes, sob regime de comodato. Uma
espécie de empreiteiro, mas muito ligado a todos nós.
-
Meu sogro morreu - informava ele.
-
E onde será o velório?
-
Não tem velório não! Vai direto para o cemitério. Ele estava separado da
família há muito tempo.
Alcoólatra. Vivia dia e noite no bar! Perdeu família,
emprego e entregou-se por completo à bebida. Ontem foi seu último porre. Teve
um ataque. Delirium tremens. Alguém o levou para o Santa Isabel, ala de
indigência e é de lá que vai sair o enterro. Já paguei o serviço funerário e
gostaria que o pessoal aí do escritório acompanhasse. Será às 16:00 h e vai
para o Campo Santo. Não vá faltar. Conto com você.
-
Ei, pessoal! Escuta aqui! Atenção, pô! Assim não dá!
Com
as mãos em concha na boca, parei todo mundo com meus gritos. Expliquei, então,
o ocorrido e pedi, a todos e a cada um, solidariedade ao companheiro, num ato
de piedade cristã.
-
Não posso, bicho. - Não dá. - A mulher está esperando menino a qualquer
momento. - Você sabe, né? Não gosto de enterro. - Estou com um ferimento aqui e
aqueles ares... - O que não é visto não é desejado, sabe?
As mais disparatadas desculpas, até que um gaiato sugeriu que eu representaria
todo o grupo, pois estava com um traje bem a propósito!
-
É mesmo!!! Aplausos!
Tudo
bem. Como eu não estava para trabalho, acompanhar alguém até sua morada
definitiva ia bem para terminar aquele dia aporrinhado e de mormaço
insuportável.
Saltei
do ônibus no sopé da Ladeira de Nazaré. Na porta do necrotério, o carro
funerário e um ônibus. Entrei. A viúva, a filha e um caixão vazio sobre a mesa
de pedra.
-
Meus pêsames! Coitado! Foi melhor assim! Onde está o corpo? Eu falava, cansado
e suado, tudo de uma vez com a esposa de
meu amigo, filha do falecido. - Cadê seu marido?
-
Foi lá em cima, avisar que o caixão já chegou.
Saí
pela porta dos fundos e comecei a subir a extensa escadaria de pedras, a céu
descoberto, que cortava a encosta arborizada, que leva ao Hospital, lindo e
antigo, construído no cocuruto do morro. Ainda bem não chegara à metade do
caminho, vi dois crioulos, vestidos de branco, descendo a escadaria, carregando
o corpo dentro de um lençol de casal, como se fora numa rede! Meu amigo vinha
logo atrás e solícito, querendo ajudar, pegou uma das pontas superiores do
lençol e aí aconteceu! O negrão da parte inferior dos degraus perdeu o
equilíbrio e o corpo sob rigidez cadavérica escorregou e caiu, como sabonete
escapole de mão molhada!
Duro
como uma tora de madeira, mãos sobre o peito, elegantemente trajado, o sogro de
meu amigo veio rolando, às vezes pulando, em minha direção! Num átimo de
segundo - lembro-me ainda - raciocinei: sair da frente, não tinha como! Um
barranco de cada lado, formando estreito corredor! Vou pular por cima, na hora
H! Não, é melhor descer correndo! Ainda bem não tinha de todo me virado para
descer em desabalada carreira, fui atropelado e, ao cair, me atraquei com o
defunto e rolamos escadaria abaixo, até
bater de encontro à parede do prédio onde estava o caixão.
Todos,
filha, viúva, os 2 enfermeiros, os 2 motoristas e meu amigo, acorreram,
céleres, para pegar o falecido, ajeitá-lo e colocá-lo onde ele deveria estar
quando lá cheguei. E eu lá, deitado, todo ralado, roupa suja! Felizmente não
sofri qualquer fratura. Leve escoriação. Testa e palmas das mãos. Levantei-me
zonzo e procurei me recompor. A esta altura os homens já haviam colocado o
caixão, com o dono dentro, no carro funerário.
-
E agora? Para que ônibus? Não tem ninguém mesmo! Despacha o ônibus. Não está
pago? Vai todo mundo no carro. Quatro pessoas apenas! Ele nunca teve amigos!
Era
a viúva. Sugerindo não; ordenando. Sentei-me no banco traseiro do Fusca junto a
ela, própria imagem da indiferença e do tédio. Entendi a razão do alcoolismo.
Meu amigo dirigia, com a esposa ao lado, seguindo o carro de penachos negros.
-
Quem é que vai carregar o homem? Só nós dois? Minha preocupação era procedente,
porque no Campo Santo, pela topografia, sei lá, não tem carrinho para aquele fim.
-
Eu dou uma gorjeia e os coveiros ajudam - me tranqüilizava o amigo.
E
lá fomos nós, cemitério adentro, os dois coveiros nas alças dos pés e nós dois
nas da cabeça, justo o lado mais pesado e de onde escorria um líquido que
exalava um mau cheiro horrível. Na queda, provavelmente, o crânio do conduzido
fraturara.
Sabia
que o Campo Santo era grande, mas não tanto! De paletó e gravata, sol das 16:00
h da velha Salvador ainda tinindo, escorrendo suor por todos os cantos,
descendo rampas e mais rampas, através da alas de centenas de túmulos, sedento,
cansado, gritei:
-
Parem! Não agüento mais! Vamos trocar! Agora vou na frente!
-
O dono do defunto é quem pega na cabeça!
-
Eu não sou dono de merda nenhuma! Minha nervosa resposta ao insolente coveiro
não deve ter irritado os poucos parentes que acompanhavam aquele funeral, pois
não houve qualquer reação. Paramos e arriamos o caixão no estreito arruado,
entre túmulos, sobre o piso de pedras poliédricas e trocamos as posições.
-
É ali, onde está aquela escada, na última gaveta! A indicação fora do coveiro
que ia comigo à frente. Num esforço supremo, consegui galgar, degrau após
degrau, o pequeno patamar superior da escada de madeira que não cabia as quatro
pessoas, e descansei, esfalfado, a ponta do caixão no beiço do carneiro. Meu
amigo e o outro coveiro que vinham logo atrás, braços levantados, apoiando e
empurrando o caixão para a frente, esforçavam-se, debalde, para colocá-lo dentro da gaveta e não
conseguiam, pois, notei, uma saliência o impedia de deslizar. Com um leve toque
na alça, suspendi um pouco o caixão e ele entrou de vez, de supetão, com os
quatro homens se desequilibrando. Um deles me espremeu contra a parede. Tentei
me segurar na borda do carneiro e não consegui.. Caindo para o lado vazio procurava,
desesperadamente, me segurar no que encontrasse, buscando um apoio para não
cair de ponta cabeça no chão; vasos de flores naturais, retratos, coroas
metálicas, os escambáus. Arrastei tudo! Estatelado no chão, todo roto, suado,
envergonhado, coberto de flores murchas, retratos diversos, não tive uma mão
qualquer estendida para me ajudar a levantar.
Capengando,
sujo, todo amarrotado, sangrando, saí sem esperar a colocação da tampa de
concreto que selaria com cimento e cal o túmulo daquele cara que eu não conheci
em vida e tive o desprazer de abraçá-lo depois de morto!
Chega!
Enterro agora para mim, só o meu!
Obrigada Sylvia, por seu carinho, em publicar os contos ďe Hugo. Beijos
ResponderExcluirConto espetacular.! Subitamente me veio a cabeça que tal relato daria para prontagonizar uma película cômica; que apesar da situação, o desenrolar da narrativa nos leva aos risos.
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