sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

CONTOS CORRENTES


ATO DE PIEDADE CRISTÃ

(Hugo Rodrigues)


Há certos dias aziagos dos quais não podemos - mesmo querendo - nos livrar e aquele, desgraçadamente, foi um deles. Tinha amanhecido de mau humor e não sabia exatamente qual a razão. Sentado à mesa de um colega no escritório, eu estava "enrolando", evitando ir para a rua batalhar um pedido. Fazia relatório de visitas imaginárias, arrumava as novas tabelas de preços, o mostruário, a pasta, atendia telefonemas, só a fim de não sair. A lavadeira não levou a roupa da semana e eu tive que me valer de um velho terno de casimira azul marinho, bem conservado, todo forrado, quente para danar, da época em que eu trabalhara em São Paulo. O dia estava nublado, céu plúmbeo, abafado. Nem uma folha se mexia nas árvores! No escritório, o ar condicionado era um convite irresistível, ainda mais com cafezinho, papo e tudo o mais! A cota do mês já estava coberta, agora era desfrutar! Ninguém é de ferro! E com o desânimo em que me encontrava, carregar uma pesada pasta pela rua, enfrentar fila, elevador, ônibus, visitar cliente, convencê-lo a comprar, como haveria de? Hoje não carrego pasta para senhor nenhum! Estava decidido e pronto!

O telefone tocou e eu atendi. Do outro lado do fio, um amigo que há muito não via, embora trabalhasse para nossa firma. Era quem cuidava da manutenção dos nossos equipamentos, instalados nos clientes, sob regime de comodato. Uma espécie de empreiteiro, mas muito ligado a todos nós.


- Meu sogro morreu - informava ele.

- E onde será o velório?

- Não tem velório não! Vai direto para o cemitério. Ele estava separado da família há muito tempo. 

Alcoólatra. Vivia dia e noite no bar! Perdeu família, emprego e entregou-se por completo à bebida. Ontem foi seu último porre. Teve um ataque. Delirium tremens. Alguém o levou para o Santa Isabel, ala de indigência e é de lá que vai sair o enterro. Já paguei o serviço funerário e gostaria que o pessoal aí do escritório acompanhasse. Será às 16:00 h e vai para o Campo Santo. Não vá faltar. Conto com você.

- Ei, pessoal! Escuta aqui! Atenção, pô! Assim não dá!

Com as mãos em concha na boca, parei todo mundo com meus gritos. Expliquei, então, o ocorrido e pedi, a todos e a cada um, solidariedade ao companheiro, num ato de piedade cristã.

- Não posso, bicho. - Não dá. - A mulher está esperando menino a qualquer momento. - Você sabe, né? Não gosto de enterro. - Estou com um ferimento aqui e aqueles ares... - O que não é visto não é desejado, sabe?

As mais disparatadas desculpas, até que um gaiato sugeriu que eu representaria todo o grupo, pois estava com um traje bem a propósito!

- É mesmo!!! Aplausos!

Tudo bem. Como eu não estava para trabalho, acompanhar alguém até sua morada definitiva ia bem para terminar aquele dia aporrinhado e de mormaço insuportável.

Saltei do ônibus no sopé da Ladeira de Nazaré. Na porta do necrotério, o carro funerário e um ônibus. Entrei. A viúva, a filha e um caixão vazio sobre a mesa de pedra.

- Meus pêsames! Coitado! Foi melhor assim! Onde está o corpo? Eu falava, cansado e suado, tudo de uma  vez com a esposa de meu amigo, filha do falecido. - Cadê seu marido?

- Foi lá em cima, avisar que o caixão já chegou.

Saí pela porta dos fundos e comecei a subir a extensa escadaria de pedras, a céu descoberto, que cortava a encosta arborizada, que leva ao Hospital, lindo e antigo, construído no cocuruto do morro. Ainda bem não chegara à metade do caminho, vi dois crioulos, vestidos de branco, descendo a escadaria, carregando o corpo dentro de um lençol de casal, como se fora numa rede! Meu amigo vinha logo atrás e solícito, querendo ajudar, pegou uma das pontas superiores do lençol e aí aconteceu! O negrão da parte inferior dos degraus perdeu o equilíbrio e o corpo sob rigidez cadavérica escorregou e caiu, como sabonete escapole de mão molhada!

Duro como uma tora de madeira, mãos sobre o peito, elegantemente trajado, o sogro de meu amigo veio rolando, às vezes pulando, em minha direção! Num átimo de segundo - lembro-me ainda - raciocinei: sair da frente, não tinha como! Um barranco de cada lado, formando estreito corredor! Vou pular por cima, na hora H! Não, é melhor descer correndo! Ainda bem não tinha de todo me virado para descer em desabalada carreira, fui atropelado e, ao cair, me atraquei com o defunto e rolamos  escadaria abaixo, até bater de encontro à parede do prédio onde estava o caixão.

Todos, filha, viúva, os 2 enfermeiros, os 2 motoristas e meu amigo, acorreram, céleres, para pegar o falecido, ajeitá-lo e colocá-lo onde ele deveria estar quando lá cheguei. E eu lá, deitado, todo ralado, roupa suja! Felizmente não sofri qualquer fratura. Leve escoriação. Testa e palmas das mãos. Levantei-me zonzo e procurei me recompor. A esta altura os homens já haviam colocado o caixão, com o dono dentro, no carro funerário.

- E agora? Para que ônibus? Não tem ninguém mesmo! Despacha o ônibus. Não está pago? Vai todo mundo no carro. Quatro pessoas apenas! Ele nunca teve amigos!

Era a viúva. Sugerindo não; ordenando. Sentei-me no banco traseiro do Fusca junto a ela, própria imagem da indiferença e do tédio. Entendi a razão do alcoolismo. Meu amigo dirigia, com a esposa ao lado, seguindo o carro de penachos negros.

- Quem é que vai carregar o homem? Só nós dois? Minha preocupação era procedente, porque no Campo Santo, pela topografia, sei lá, não tem carrinho para aquele fim.

- Eu dou uma gorjeia e os coveiros ajudam - me tranqüilizava o amigo.

E lá fomos nós, cemitério adentro, os dois coveiros nas alças dos pés e nós dois nas da cabeça, justo o lado mais pesado e de onde escorria um líquido que exalava um mau cheiro horrível. Na queda, provavelmente, o crânio do conduzido fraturara.

Sabia que o Campo Santo era grande, mas não tanto! De paletó e gravata, sol das 16:00 h da velha Salvador ainda tinindo, escorrendo suor por todos os cantos, descendo rampas e mais rampas, através da alas de centenas de túmulos, sedento, cansado, gritei:

- Parem! Não agüento mais! Vamos trocar! Agora vou na frente!

- O dono do defunto é quem pega na cabeça!

- Eu não sou dono de merda nenhuma! Minha nervosa resposta ao insolente coveiro não deve ter irritado os poucos parentes que acompanhavam aquele funeral, pois não houve qualquer reação. Paramos e arriamos o caixão no estreito arruado, entre túmulos, sobre o piso de pedras poliédricas e trocamos as posições.

- É ali, onde está aquela escada, na última gaveta! A indicação fora do coveiro que ia comigo à frente. Num esforço supremo, consegui galgar, degrau após degrau, o pequeno patamar superior da escada de madeira que não cabia as quatro pessoas, e descansei, esfalfado, a ponta do caixão no beiço do carneiro. Meu amigo e o outro coveiro que vinham logo atrás, braços levantados, apoiando e empurrando o caixão para a frente, esforçavam-se, debalde,  para colocá-lo dentro da gaveta e não conseguiam, pois, notei, uma saliência o impedia de deslizar. Com um leve toque na alça, suspendi um pouco o caixão e ele entrou de vez, de supetão, com os quatro homens se desequilibrando. Um deles me espremeu contra a parede. Tentei me segurar na borda do carneiro e não consegui.. Caindo para o lado vazio procurava, desesperadamente, me segurar no que encontrasse, buscando um apoio para não cair de ponta cabeça no chão; vasos de flores naturais, retratos, coroas metálicas, os escambáus. Arrastei tudo! Estatelado no chão, todo roto, suado, envergonhado, coberto de flores murchas, retratos diversos, não tive uma mão qualquer estendida para me ajudar a levantar.

Capengando, sujo, todo amarrotado, sangrando, saí sem esperar a colocação da tampa de concreto que selaria com cimento e cal o túmulo daquele cara que eu não conheci em vida e tive o desprazer de abraçá-lo depois de morto!

Chega! Enterro agora para mim, só o meu!

2 comentários:

  1. Obrigada Sylvia, por seu carinho, em publicar os contos ďe Hugo. Beijos

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  2. Conto espetacular.! Subitamente me veio a cabeça que tal relato daria para prontagonizar uma película cômica; que apesar da situação, o desenrolar da narrativa nos leva aos risos.

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