quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

CARTAS DO INTERIOR

PLANEJADO PRA NÃO DAR CERTO

Há coisas que parecem ter nascido para o Brasil, e se assim não foi, as elites brasileiras foram lá buscar. E nós as recebemos convencidos de que deus é brasileiro.

Não é assim que pensamos? Um país abençoado por deus. Imaginem se não fosse. O fato é que em nenhum lugar do mundo caem tantos raios como caem aqui no Brasil. E os estragos que causam não nos preocupam muito. Enfim, raio é um fenômeno da natureza e quem manda na natureza é o superior que está acima de todos nós.

Em lugar nenhum do mundo rompem-se barragens com intervalo de três anos como aqui na pátria amada. Áreas imensas cobertas de lama, terra imprestável por dezenas de anos para a agricultura. Mas existe um consolo: temos 8.500 mil quilômetros quadrados de território. Somos uma potência em território. Não são dois rompimentos de barragens que jogarão em nosso território dejetos que possam causar preocupação. Nossos rios são suficientemente competentes para arrastar qualquer resto de mina para o oceano.

Chegando lá, bem, chegando lá o problema não é mais nosso.

Nós tínhamos, lotado no Rio de Janeiro, um museu histórico e científico, instituição que vinha do Brasil colônia, com peças raríssimas, insubstituíveis. Pois bem, mas quem seria o mau administrador que alocaria verbas para a manutenção daquele colosso que, na realidade, só poderia interessar a
esses intelectualóides que só pensam em gastar, em viver grudados nas tetas do Estado? Era um caso de morte anunciada? Assim, no curto prazo, não acredito que fosse. Mas se considerarmos nossa história, digamos, desde a proclamação do Marechal, sim, o Manuel Deodoro da Fonseca, até os dias atuais, então vamos descobrir que em todo este tempo os pais da pátria nunca se preocuparam em
planejar este país contra as catástrofes que nos perseguem há tanto tempo. Não é fora de propósito afirmar que no longo prazo estamos planejados para nada dar certo.

Não, não quero falar das elites políticas e econômicas do país. Isso não me apraz.

Pelo menos no momento. Esses, coitados, talvez nem tenham noção de quem nos jogou nos braços de um destino catastrófico.

O Brasil é um país trágico. A inelutabilidade de seu destino é apenas um dos indicadores da tragicidade.

Se você, caro leitor, está entre aqueles que me acusam de estar muito amargo hoje, você tem toda razão. Mas como não amargar depois de Brumadinho, e imaginar as dificuldades por que vão passar os sobreviventes? As voltas e revoltas com a justiça brasileira, que manda e ninguém obedece. O pessoal de Mariana até hoje está esperando que se cumpra a lei.

Um comentário:

  1. Maldita hora quando disseram que o Brasil é o país do futuro, Menalton. Somos um povo sem consciência política e social. Elegemos o retrocesso e os interesses da minúscula elite. Estranho, mas por estas bandas há prazer no sofrimento, nas injustiças. A urna comprova.

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