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sexta-feira, 29 de março de 2019

CONTOS CORRENTES

  ESSA COISA TOLA DE RENASCER                      

(Dênisson Padilha Filho*)


Você sabe que não vai chegar no prazo. A carga que está levando precisa chegar ao porto no máximo em doze horas. As rodovias estão cheias; todos se arrastam à sua frente, querem chegar, mas pelo ritmo parece que não.

Esse deserto. Nasceu pra ser assim, uma grande mesa de sacrifícios, talvez, de onde tudo foge, onde só restam lagartos, cobras e gaviões. Esse deserto nasceu pra ser isso, você pensa, e quando chove é assim, uma tempestade. Devaneios. Agora, na margem esquerda, uma carreta tombada, dezesseis rodas pro ar, isso atrasa tudo. Polícia rodoviária tentando fazer a serpente andar em ordem. Alívio. O motor geme de novo no asfalto. Você olha em redor, sua câmara de tédio; mas, onde mais se sentiria em casa? Se desliga o motor por uma semana, sua mulher e os dois filhos lembram-no, por a mais b, que seu lugar é a estrada. Maldição, você pensa.

Os santos do painel não gostam que você fale assim. Poderia ser pior, eles lhe dizem sempre. Se sua carreta para no acostamento agora com alguma bronca no motor, você tá frito; poderia ser pior, os santos repetem. Você olha os relâmpagos prateando tudo, e tudo o que deseja é parar e dormir feito gente normal, feito um caminhoneiro maduro e metódico. Mas as coisas nunca foram assim, ou pelo menos não se dão assim quando você toma aquela mistura inocente de seis gotas de Benzitrat, uma dose de conhaque e uma caneca grande de café. Você dirige com os olhos congelados por quinze horas, depois desaba por um tempo equivalente e perde as melhores horas da estrada. Põe tudo a perder. As nuvens se formam, a tempestade cai e você não pode mais se dar o luxo de escolher, tem que rodar. Aí, as coisas vêm todas de novo em seus olhos.