SINAL FECHADO
(Lelia Maria Romero)
Rua Estados Unidos, quarta feira, final da manhã. Nada de novo para quem dirige, motoqueiros, taxistas, carroças e homens que nos fecham. Este que passou rápido, além da minha brecada, ouviu também um buzinasso. De nada adiantou a manobra já que o sinal da Nove de Julho foi do amarelo ao vermelho. Babaca, insano, inútil e... placa de Belo Horizonte! Mineiro o afoito! De óculos escuros, camisa jeans, me olhou pelo retrovisor.
_ Não vai chegar mais cedo não! Vai ficar aí paradão
como eu!
E dá-lhe esperar o sinal, que demora demais pra desafogar o trânsito da Nove de Julho, já sei! Subi o volume do rádio e lá vêm os vendedores: panos de prato, balinhas, porta celular. Pelúcia para o dia dos namorados, guarda-chuvas nos dias de chuva e para as mães e para todos, flores. Flores mil, flores do campo que murcham logo e rosas que não abrem. O mineiro chamou um deles. Claro! O apressado levará um mimo de última hora, desses de rua mesmo, de vendedor de sinal.
No woman no cry, mudo de estação e ouço Bob Marley. Conheci essa música na voz de Gil, no colégio Equipe, num show que havia sido proibido. Tarde de sábado, céu nublado, pátio lotado, todos
sentados no chão. Cantou em português, em inglês, se comoveu como eu, e fez leve pausa. Linda letra, a voz, o ar frio no rosto, de mãos dadas, enrolados num xale repetindo o refrão. Um helicóptero faz sobrevoo e Gil deixa o palco improvisado. Silêncio. Meu namorado olha pra trás e verifica se
estávamos longe da saída, se o portão era largo como parecia, se estaria aberto como no início.

