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sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

UM CONTO PARA SEU FIM DE SEMANA

CONTO INÉDITO: Este conto foi escrito durante o Natal. Escrevê-lo foi a minha celebração. A celebração na qual me encontro.         

 

O velho hortelão


Aí vem a moça da creche caminhando por entre os canteiros, a criança pela mão. Ela não sabe de quantas asas se forma um anjo, mas consegue ser mais leve que o ar. A criança, quando se tornou meu neto, jamais imaginaria que viria a ser meu filho, minha última família. O Sol descamba por trás da moça da creche tirando reflexos vivos de seus cabelos angelicais. A criança dá pulos para que suas pernas não sejam molestadas pelas folhas rechonchudas de couve. Elas duas, a moça da creche e a criança, que meu filho e minha nora me deixaram como filho meu, estão vindo na minha direção, vêm descendo pelos caminhos estreitos que dividem os canteiros.

A nuvem alivia meus olhos cansados de sol. É uma nuvem gorda e lenta que me transmite uma sensação de tranquilidade, porque é silenciosa e densa, e não tem pressa de chegar a lugar algum. Ela sabe que sua vida é efêmera, que a qualquer momento, mesmo um momento inesperado, deverá cumprir seu destino inelutável desmanchando-se em chuva sobre as hortas. A criança parece diminuir de tamanho e suas pernas se adelgaçam ao passar pelos canteiros de cenoura, sem necessidade de pulos para se livrar das folhas.