O velho
hortelão
Aí vem a moça da creche caminhando
por entre os canteiros, a criança pela mão. Ela não sabe de quantas asas se
forma um anjo, mas consegue ser mais leve que o ar. A criança, quando se tornou
meu neto, jamais imaginaria que viria a ser meu filho, minha última família. O
Sol descamba por trás da moça da creche tirando reflexos vivos de seus cabelos
angelicais. A criança dá pulos para que suas pernas não sejam molestadas pelas
folhas rechonchudas de couve. Elas duas, a moça da creche e a criança, que meu
filho e minha nora me deixaram como filho meu, estão vindo na minha direção,
vêm descendo pelos caminhos estreitos que dividem os canteiros.
A nuvem alivia meus olhos cansados
de sol. É uma nuvem gorda e lenta que me transmite uma sensação de
tranquilidade, porque é silenciosa e densa, e não tem pressa de chegar a lugar
algum. Ela sabe que sua vida é efêmera, que a qualquer momento, mesmo um
momento inesperado, deverá cumprir seu destino inelutável desmanchando-se em
chuva sobre as hortas. A criança parece diminuir de tamanho e suas pernas se
adelgaçam ao passar pelos canteiros de cenoura, sem necessidade de pulos para
se livrar das folhas.
