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segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

CARTA CAPITAL | MERA COINCIDÊNCIA

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O hábito diário de ler jornais começava a me entorpecer o espírito crítico, tal a recorrência com que se encontram neles certas notícias. A leitura dos clássicos, então, não é apenas um périplo em busca do prazer, mas um antídoto para o torpor. E foi assim que cheguei ao Padre Antônio Vieira.

Sei que nem todos têm a obrigação de conhecer esse padre, ele é muito antigo. Tenho alguns amigos que o conhecem, como é o caso do José Pedro Antunes, professor do Departamento de Letras da UNESP de Araraquara, e do Deonísio da Silva, hoje vice-reitor da Universidade Estácio de Sá, do Rio de Janeiro. Mas eles, é claro, têm a obrigação de conhecer. Para quem não conhece, deve-se alertar que esse padre, o Vieira, nasceu em Lisboa, em 1608, e foi criado em Salvador-BA. Depois de ter incomodado poderosos por cá e por lá, onde havia nascido, veio morrer no ano de 1697 na que ele considerava sua segunda pátria.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

UMA ALEGORIA

SERMÃO DE SANTO ANTÔNIO AOS PEIXES. proferido pelo Padre Antônio Vieira em São Luís do Maranhão, no dia 13 de junho de 1654.

Fragmento:
IV
Antes, porém, que vos vades, assim como ouvistes os vossos louvores, ouvi também agora as vossas repreensões. Servir-vos-ão de confusão, já que não seja de emenda. A primeira cousa que me desedifica, peixes, de vós, é que vos comeis uns aos outros. Grande escândalo é este, mas a circunstância o faz ainda maior. Não só vos comeis uns aos outros, senão que os grandes comem os pequenos. Se fora pelo contrário, era menos mal. Se os pequenos comeram os grandes, bastara um grande para muitos pequenos; mas como os grandes comem os pequenos, não bastam cem pequenos, nem mil, para um só grande. Olhai como estranha isto Santo Agostinho: Homines pravis, praeversisque cupiditatibus facti sunt, sicut pisces invicem se devorantes: Os homens com suas más e perversas cobiças, vêm a ser como os peixes, que se comem uns aos outros. Tão alheia cousa é, não só da razão, mas da mesma natureza, que sendo todos criados no mesmo elemento, todos cidadãos da mesma pátria e todos finalmente irmãos, vivais de vos comer! Santo Agostinho, que pregava aos homens, para encarecer a fealdade deste escândalo, mostrou-lho nos peixes; e eu, que prego aos peixes, para que vejais quão feio e abominável é, quero que o vejais nos homens.