Alguém, não posso revelar o nome, várias vezes já me disse
que meus contos são muito mal-humorados. Bem assim: mal-humorados. Não disse,
como poderia ter dito, que alguns deles são amargos, pessimistas, até azedos.
Não mal-humorados.
Bem, andei uns tempos meio acabrunhado com a fácil e açodada
classificação. Enfim, tentei escrever um conto bem esculachado, mas de bom
humor. E é isso que aí vai:
O proto-colo
O prédio da Prefeitura, construído sobre um outeiro, vigiava
vinte e quatro horas por dia pelo sono da cidade. Era um edifício moderno,
imponente, de linhas entre arrojadas e tímidas. Bem diferente desses vetustos
edifícios públicos que andam por aí, enredados em arabescos, carcomidos pelo
tempo, espiando acanhados por pequenos buracos a que davam o nome de janelas.
Esse não, todo envidraçado, sem colunas dóricas ou jônicas, nem sacada tinha
para o aparecimento público; aliás, coisa que vai saindo de moda, porque aos
poucos se torna sinônimo de apedrejamento.
Mal abriram-se as portas de vidro em caixilhos de bronze
polido, Adão entrou. O esplendor do saguão, com mármores de Carrara e lustres
de cristal da Boêmia, assustou o visitante. Como saber se não estava entrando
no palácio de Júpiter, no Olimpo, ou na folha de parreira – misto de agenda e
bermuda – e certificou-se de que estava no lugar certo. Os olhos ainda um pouco
ofuscados pelo brilho do interior, localizou, sob um letreiro a néon, a
recepcionista.

