Conto inédito
Quatro anos depois
Ontem, depois de quatro anos, resolvi visitar meu túmulo.
Era noite e o cemitério, com seus ricos jazigos alternados com pobres
sepulturas rasas, não me assustaram, apesar da hora. E do silêncio perturbado
apenas pelas asas do vento roçando o alto dos ciprestes. Preferi uma visita
noturna, na esperança de não ser atrapalhado por ninguém: funcionários e
sobreviventes. As aleias de saibro grosso estavam desertas e fracamente
iluminadas por uns raios meio azulados, o luar.
Por sorte meus passos são silenciosos, e isso me evitava o
cuidado com a possibilidade de acordar alguém, de sorte que pude caminhar
tranquilo, olhando os nomes gravados nas lápides, alguns conhecidos, que me
faziam lembrar fatos de minha vida. Uns tantos túmulos me encheram de inveja,
pelo zelo dos familiares: isso era respeito à memória de seus mortos. Outros,
não. Percebi, no desleixo em que estavam mergulhados, o alívio com a partida do
ente querido. Seu olvido.