Esta coluna reúne crônicas de Menalton Braff. À sombra das sibipirunas
Hoje meu sono promete ser muito bom. Leve, não porque esteja muito próximo da vigília, mas porque devo sonhar com aquela brisa azul que me lambe a face, faceira, e foge nas alegres cores de seu par de asas quase transparentes.
Continuo fazendo heroicamente minha caminhada diária sempre que posso e sei que posso menos do que seria necessário. Uma hora batidinha no relógio. O homem já foi à Lua e até hoje não inventou uma pílula que substitua essas caminhadas! Espero que o Dr. Alcyr Barbin Filho, meu cardiologista e algoz, pois foi ele quem me prescreveu esta tortura, não seja muito afeiçoado a crônicas. Ele não me imagina um rebelde. Hoje eu podia e fui caminhar. À sombra das sibipirunas, como já avisei lá no alto. E as sibipirunas me protegiam do restinho de sol existente.
Tinha percorrido pouco mais da metade de meu trajeto quando vi. Lá estava o menino de shortinho e sem camisa, com a franja espessa a esconder-lhe os olhos. Ele tinha o braço direito um pouco levantado, e na mão, no polegar de sua mão, uma cigarra, que ele mostrava com orgulho a dois amigos. Uma cigarra dessas grandes, maior do que a mão dele. Então ele alçou a mão direita como se estivesse dando um impulso, e a cigarra abriu suas asas imensas e sumiu na copa de uma árvore. Uma sibipiruna com uns restos de flores amarelas. Os três meninos pularam de alegria, gritando e batendo palmas.
Se a cigarra voltou para o polegar do menino, se não voltou, não sei. Nem importa saber. Porque quando não se sabe, se tem o direito de imaginar. E o que sei é que houve um momento em que uma