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terça-feira, 10 de julho de 2012

DÚVIDA CRUEL | CARTA CAPITAL

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Tenho vivido um estado de angústia permanente de uns tempos para cá. Antes o assunto não entrava nas minhas cogitações, que são, geralmente, umas cogitações muito simples, que consigo resolver sem grande esforço mental. Sabia, de forma bastante vaga, tratar-se de um ano eleitoral, mas isso, até certo ponto, não me dizia respeito. Não sou contra as eleições, que os deuses todos do Olimpo me livrem dessa falha. Mas no momento tinha outras preocupações, todas de naturezas bem diversas, e a eleição ficava parecendo-me uma coisa muito remota.
Então aconteceu. O jornal veio parar na minha escrivaninha e estampava, em sua terceira página, a fotografia de seis candidatos à chefia do executivo municipal. Reparei bem nas fotografias aqueles rostos de feições agradáveis a inspirar a nossa confiança. Pronto: acabou o meu sossego. Qual deles escolher? Todos eles bem nascidos e bem lavados, pessoas da mais alta respeitabilidade cada um deles. Eis a origem da angústia em que tenho vivido.

Conheço os seis candidatos, mas não via em que um poderia ser melhor do que o outro, e isso me impedia de fazer uma escolha consciente, para o exercício sagrado da cidadania. Plagiando o bruxo do Cosme Velho, moro longe e saio pouco. Uma vez, numa homenagem de alunos, me deram de presente um tatu de madeira que balança a cabeça. Mantenho esse tatu sobre minha escrivaninha até hoje. Não saio muito da toca.