Tirei a primeira tábua com cuidado e espiei pra dentro: escuridão. Quando tirei a segunda, meu irmão deu uma iluminada rápida lá dentro e achei que vi algum momento. Não era nada. Só as sombras que se morevem. Por fim, tirei a terceira tábua, escancarando a porta. Ficamos n[ós quatro espiando ao mesmo tempo. foi então que vi: lá no fundo, trêmulo, com os dois olhinhos muito assustados, eu vi o Gambito e acho que entrei na cabecinha dele, porque senti exatamente o que ele estava sentindo. Vendo pelo lado dele, nós quatro éramos quatro monstrons enormes, com olhos do tamanho de laranjas e cabeças maiores do que melancias. Uns monstros. E ele tremia de pavor, encolhido num canto sem ter para onde fugir. Ele só esperava nosso ataque fulminante, então decerto abriria as asinhas, o bico e se debateria um pouco, pois não tinha outra coisa a fazer.
Eu estava quase chorando quando pedi ao Maurício:
- Desliga essa droga! Vamos fechar isto aqui e deixar o Gambito em paz.
Eu vi o pavor nos olhinhos dele.
O meu pedido foi tão sério que ninguém reclamou. Meus primos, os dois, confirmaram que era, sim, era um filhote de saracura.

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