Havia questões familiares envolvidas em nossa decisão de fugir de São Paulo. Familiares algumas, sanitárias outras. A Capital já era, então (1987), uma cidade estressante. Trânsito, rumor, poluição, violência. A qualidade de vida despencava para patamares inaceitáveis. Vistas ardendo, sistema respiratório comprometido, o medo permanente. Era fácil intuir que se tratava de um processo irreversível.
Um dia, depois de um incidente de trânsito, finalmente
decidimos: Aqui não se vive mais. Xingado sem ter culpa, jurei que passaria por
cima daquele carro ali ao lado para esmagar sua ocupante. Há ofensas que não
podem ser aceitas sem revide, talvez com alguma violência. Era o que eu pensava
até o trânsito fluir novamente. Parti para cima sem muita agilidade porque meu
carro era velho. Durante dez quilômetros a avenida 23 de Maio assistiu à nossa
corrida imaginando tratar-se de alguma competição. Perdi de vista minha vítima
e estacionei numa rua sossegada. Braços e pernas tremiam, meu coração dava
pancadas nas paredes do meu peito, os olhos ardiam. Alguns minutos mais tarde a
civilização começou a retornar. Foi para isso que vivi até hoje, que me
preparei, que estudei? Virei fera? A ideia chegou trovejando nas asas de um
relâmpago: aqui não fico mais.
Foi quando entrou a família. Pais, tios e primos de minha esposa moravam (e moram) em Ribeirão Preto. Mas já era uma cidade com rumor constante, problemas de trânsito, alguma poluição e bastante violência. Ora, estar ao alcance da família não significava morar em Ribeirão.
Meu ofício pedia silêncio, poucos apelos locais, isolamento.
Visitamos algumas cidades do entorno ribeirão-pretano e um dia, em Serrana,
batemos palmas em um portão para pedir algumas informações. Em cinco minutos,
estávamos na cozinha de uma família desconhecida, tomando café, comendo bolo e
olhando um álbum de fotografias.
Para quem não cumprimentava os vizinhos de apartamento,
aquele gesto de uma pessoa simples era a porta de um mundo desconhecido, era a
promessa de uma vida tranquila, sossegada, a vida que vínhamos procurando. Não
precisamos de outro sinal para nossa escolha. Poucos dias depois nossa mudança
entrava na cidade, como quem entra em casa. Isso foi no dia 6 de fevereiro de
1987.
Um quarto de século. Hoje ninguém mais convida para tomar
café com bolo, as competições de som automotivo infernizam as madrugadas, os
caminhões vendendo chuchu não cessam de passar anunciando aos berros suas
mercadorias, roubos e assaltos tornaram-se fatos corriqueiros.
É fácil intuir que se trata de um processo irreversível. 
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