sexta-feira, 20 de julho de 2012

O DIFÍCIL APRENDIZADO


Lá pelos treze anos, pouco mais ou menos, terminei de escrever um "romance". Não conhecia nenhum escritor, não conhecia ninguém que conhecesse um escritor. Mas o meu "romance" estava pronto e latejando no meu pensamento. O mundo ficaria menor sem sua publicação.
O prédio da Livraria da Globo ficava ali, na Rua da Praia, que algumas pessoas, em Porto Alegre, teimam em chamar de rua dos Andradas. Os Andradas nunca estiveram por lá, e a praia há décadas  tinha sido ocupada, se não me engano, por um cadeião. Mas como rato de livraria, eu conhecia bem o prédio, perto da Casa Massom, onde se costumava comprar relógios.
Não confundir os globos. A emissora de TV nasceu muito mais tarde: a televisão, naquele tempo, era apenas notícia de rádio e jornal.
Ah, sim, e eu sabia que a Editora Globo ficava no mesmo prédio da livraria.

Um dia não me contive mais - peguei meus três cadernos, a que dava o pomposo título de "O rapto de Muriat", meu "romance", entrei no elevador e fui parar numa sala onde, atrás de um balcão, um sujeito magro, meio calvo e olhar de espantar meninos bobos, finalmente perguntou o que eu queria lá.
Alguém pode imaginar o orgulho com que depositei os três cadernos sobre o balcão e disse que eram os originais de um romance? O sujeito olhou, folheou, e estralando a ponta da língua, mandou que o menino crescesse e aparecesse. Que não era assim. Manuscrito, nem pensar.
Voltei meio murcho pra casa e, sorumbático, derreado em algum canto, esperei pela chegada de meu pai. Antes de qualquer cumprimento, lhe pedi que me comprasse uma máquina de escrever.
O "Raptado de Muriat" perdeu-se na poeira de muitas mudanças, e só muito mais tarde ganhei minha primeira máquina datilográfica, que um dia tive de abandonar. Meu primeiro livro só foi publicado com originais arrancados do computador.

4 comentários:

  1. Oi, Menalton... O que aconteceu com vc, creio ser a desilusão de muitos adolescentes que têm seus livros engavetados esperando alguém que lhe mostre o caminho e que o oriente, e acima de tudo, lhe dê credibilidade.
    Tento à medida do possível descobrir este talentos e mostrar-lhes o caminho. Já há alguns esperando por você.

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  2. Irene, minha parceira, sempre que tenho oportunidade procuro ajudar.

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  3. Menalton! Sua história me fez lembrar da minha história. Também entre os treze e os catorze anos escrevi meu primeiro livro. Era uma história infantil sobre sacis. Minha cidade não tinha editora... Só gráfica! Fui até o dono e fiz o orçamento. Precisaria de 20 patrocinadores, consegui apenas um e desisti do sonho de publicar... Isso foi antes de 1980. Meu primeiro livro foi publicado em 2007, quase trinta anos depois! Trinta anos e muitos outros sonhos engavetados! Abraços!

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  4. Menalton, que delícia poder ver que não sou só eu que tenho cadernos e mais cadernos com meus escritos em casa...eu pedi uma máquina de escrever com nove anos, porque disse que seria escritora... minha alma já sabia o que queria, mesmo que a dona do corpo não soubesse, tanto quanto você aos treze!
    Estes senhores que nos botam medo aparecem em diversos disfarçes para aqueles que querem criar, mas eles não vencem, pois os heróis dessa historinha somos nós!

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