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segunda-feira, 30 de novembro de 2020

MENALTON CONQUISTA O PRÊMIO MACHADO DE ASSIS

O romance "Além do Rio dos Sinos", lançado este ano pela Editora Reformatório,  deu ao escritor Menalton Braff o prêmio Machado de Assis, concedido pela Fundação Biblioteca Nacional ao vencedor da categoria romance. 

"Além do Rio dos Sinos" é o 26º livro de Menalton Braff e conta a história de uma família do Rio Grande do Sul que foi morar no alto de um morro, no Vale do Rio dos Sinos, abandonados, quase sem contato com o mundo.

O Prêmio Literário Biblioteca Nacional é um dos mais importantes do país e foi criado em 1994 e premia anualmente, autores, tradutores e projetistas gráficos brasileiros. Outros sete prêmios foram concedidos nas categorias contos, poesias, traduções, ensaios sociais e literários e obras voltadas às literaturas infantil e juvenil. Conheça os outros vencedores:

I. CATEGORIA CONTO – PRÊMIO CLARICE LISPECTOR  - "Redemoinho em dia quente", de Jarid Arraes; Editora Alfaguara.

II. CATEGORIA ENSAIO LITERÁRIO – PRÊMIO MÁRIO DE ANDRADE - " Agudezas seiscentistas e outros ensaios", de João Adolfo Hansen; Cilaine Alves Cunha e Mayra Laudanna (orgs.); Editora da Universidade de São Paulo.

III. CATEGORIA ENSAIO SOCIAL – PRÊMIO SÉRGIO BUARQUE DE HOLANDA - "De quem é o comando?: O desafio de governar uma prisão no Brasil", de Eduardo Matos de Alencar; Editora Record.

IV. CATEGORIA LITERATURA INFANTIL– PRÊMIO SYLVIA ORTHOF - "Lá dentro tem coisa, 
de Adriana Falcão; Editora Salamandra.


V. CATEGORIA LITERATURA JUVENIL – PRÊMIO GLÓRIA PONDÉ - "Um lençol de infinitos fios", de Susana Ramos Ventura; Editora Gaivota.

VI. CATEGORIA POESIA – PRÊMIO ALPHONSUS DE GUIMARAENS - "179.Resistência", 
de Maria Fernanda Elias Maglio; Editora Patuá.

VII. CATEGORIA ROMANCE – PRÊMIO MACHADO DE ASSIS - "Além do Rio dos Sinos", 
de Menalton Braff; 
Editora Reformatório.

VIII. CATEGORIA TRADUÇÃO – PRÊMIO PAULO RÓNAI - "As flores do mal, de Charles Baudelaire", traduzida por Júlio Castañon Guimarães; Editora Penguin Classics Companhia das Letras.

Para mais informações, acesse o site da Biblioteca Nacional

sábado, 14 de novembro de 2020

RETALHOS 2020 - CASTELOS DE PAPEL

RETALHOS 2020 é uma série de vídeos gravados por Menalton Braff para apresentar os seus 26 livros já publicados (existem inúmeros outros ainda inéditos). A obra que Menalton apresenta hoje é "Castelos de papel", lançado em 2002, pela Nova Fronteira.

sábado, 7 de novembro de 2020

RETALHOS 2020 - A MURALHA DE ADRIANO

 RETALHOS 2020 é uma série de vídeos gravados por Menalton Braff para apresentar os seus 26 livros já publicados (existem inúmeros outros ainda inéditos). A obra que Menalton apresenta hoje é "A muralha de Adriano", lançado em 2007, pela Bertrand Brasil.



domingo, 1 de novembro de 2020

FRASE

Esta coluna posta, a cada domingo, uma frase de um personagem da literatura. A que escolhemos para este domingo é do livro  "Que enchente me carrega?"


domingo, 18 de outubro de 2020

FRASE

 Esta coluna posta, a cada domingo, uma frase de um personagem da literatura. A que escolhemos para este domingo é de Bernardo, personagem do romance  "O casarão da Rua do Rosário", de Menalton Braff. 





domingo, 13 de setembro de 2020

FRASE

  A coluna FRASE ganhou uma nova perspectiva. As frases não são mais de autores e sim de personagens da literatura. A que escolhemos para este domingo é o personagem Bernardo, do romance O CASARÃO DA RUA DO ROSÁRIO, de Menalton Braff.




sábado, 12 de setembro de 2020

RETALHOS 2020 - NOITE ADENTRO

RETALHOS 2020 é uma série de vídeos gravados por Menalton Braff para apresentar os seus 26 livros já publicados (existem inúmeros outros ainda inéditos). A obra que Menalton apresenta hoje é o terceiro volume da trilogia Tempus Fugit, lançado pela Global Editora, em 2014. 






quinta-feira, 10 de setembro de 2020

"TOCATA E FUGA A QUATRO VOZES"

Já dissemos aqui no blog que o 27º livro de Menalton Braff, "Tocata e fuga a quatro vozes", está no

prelo, pela Editora Reformatório. Dissemos, também, que se trata de um romance cujo protagonista é um viciado em drogas encarcerado. E acrescentamos que, desta vez, Menalton resolveu experimentar novas técnicas.

Hoje fomos um pouco mais longe: trouxemos um texto, escrito pelo próprio Menalton, que conta como esse livro surgiu.   

Tocata e fuga a quatro vozes


Em 2015 fui surpreendido por um convite inusitado: visitar um presídio de Readaptação para a vida em sociedade – um regime bem diferente do que sempre imaginei ser o ambiente nas penitenciárias. Um grupo de vinte e dois detentos, pertencentes a um grupo de leitura, havia lido Que enchente me carrega? e queriam conversar com o autor, que souberam ser da região.

A recepção foi alegre, com os funcionários e o Diretor muito receptivos, uma mesa com salgadinhos e refrigerantes, tudo isso enquanto os detentos passavam conversando e rindo para a biblioteca. Biblioteca, sim. Em um canto observei as mesas de leitura, porque as cadeiras estavam colocadas em fileiras ao rés das paredes e ocupadas pela turma toda com seus uniformes. O Diretor me pediu que não fotografasse os rostos. Eles não deveriam ser identificados em uma rede social.

Por mais de uma hora falei sobre o romance, sua gênese, sua estrutura, a técnica narrativa empregada (predominância do fluxo de consciência). Então começamos a trocar perguntas e respostas. Ficai impressionado com o nível de compreensão que eles tiveram de fatos do romance que muita gente aqui fora nem sonhou em entender. Um dos casos, apenas como exemplo, foi o sumiço da Clotilde, que o Firmino ora pensa que fugiu, ora pensa que a assassinou e a enterrou no fundo do quintal. Mesmo essa confusão tinha ficado clara para eles como o princípio da perda do pensamento lógico do protagonista.

Bem, ficamos mais uma hora eles perguntando e eu respondendo. Depois disso, conversei com vários dos detentos, que me procuraram para falar de suas vidas pregressas e de suas expectativas a respeito do futuro.

Saí de lá tão impressionado que não demorou muito para que antes de pegar no sono eu começasse a criar situações, personagens, espaços, razões e tudo mais de que se tece um romance.

Mas me deu vontade de criar uma estrutura até então não utilizada e foi o que fiz. Fragmentos que se sucedem, alternância de quatro narradores com frases que invadem os textos dos diversos narradores.

Enfim, uma experiência da qual saí satisfeito e acho que o romance merece ser publicado.

O título, como não poderia deixar de ser, remete à ideia da estrutura do romance que tem alguma coisa da fuga musical. E fuga é pensamento muito frequente entre os detentos, por isso Tocata e fuga a quatro vozes.

sábado, 5 de setembro de 2020

RETALHOS 2020 - POUSO DO SOSSEGO

 RETALHOS 2020 é uma série de vídeos gravados por Menalton Braff para apresentar os seus 26 livros já publicados (existem inúmeros outros ainda inéditos). A obra que Menalton apresenta hoje é o segundo volume da trilogia Tempus Fugit, lançado pela Global Editora, em 2014. 







quinta-feira, 3 de setembro de 2020

"Tocata e fuga a quatro vozes"


O 27º livro de Menalton Braff , "Tocata e fuga a quatro vozes", já está no prelo, pela Editora Reformatório. Trata-se de um romance que tem como protagonista um viciado em drogas encarcerado. Mas, desta vez, Menalton resolveu experimentar novas técnicas.

O lançamento está previsto para o primeiro trimestre do ano que vem. 

Breve teremos novas informações sobre o livro, inclusive, quem sabe, uma pequena degustação. Só para vocês sentirem o gostinho enquanto esperam.  

quinta-feira, 30 de julho de 2020

"NA TEIA DO SOL" É TEMA DE DISSERTAÇÃO NA UNB

A dissertação é de 2019, mas só descobrimos agora. Sob o título "Regimes de si em “Na teia do sol”, de Menalton Braff", Andressa Estrela Lima faz uma reflexão sobre a literatura brasileira contemporânea que trata da ditadura militar no Brasil, tomando como objeto o livro "Na Teia do Sol".

Para quem não conhece, o romance de Menalton Braff, lançado em edição impressa pela Planeta do Brasil, em 2004, e pela Primavera, em  tem como protagonista um militante político que se disfarça de agricultor, esperando que a repressão diminua para retomar sua vida anterior.

A dissertação foi orientada pelo professor doutor Paulo César Thomaz, e defendida na Universidade de Brasília, na área de concentração "Literatura e práticas soiais", dentro da linha de pesquisa "Representação na literatura brasileira contemporânea".

Postamos, a seguir, um fragmento do capítulo de Introdução:

"Na teia do sol

A obra Na teia do sol, de Menalton Braff, é a elaboração do relato da vivência do militante de esquerda André, codinome Tito, personagem principal, durante o período ditatorial brasileiro, explorando as consequências deste regime no interior do protagonista. Quando ele é forçado a partir para a mobilidade, primeiramente fica em um apartamento de um centro urbano não especificado, e, com a ajuda de Guma, vai para o refúgio na chácara disfarçado de horticultor. Desde então, ele nos conta todas as suas aflições e angústias por ter sido obrigado a abandonar tudo e todos. 

A forma do enredo em primeira pessoa, sem parágrafos, aproxima a narrativa da experiência fragmentária que propõe o autor, uma vez que ele utiliza o fluxo de consciência que articula tanto a continuidade como a descontinuidade na conjuntura romanesca. Formada de personagens como a amiga Solange, a namorada Teresa, o amigo Vilmar, o militante disfarçado de chacareiro Velho, o camarada Guma, o texto se encadeia entre episódios de exposição à morte, à tortura e aos abusos que acometem não só a Tito, como aos demais companheiros. O ápice da narrativa se dá quando a personagem chega ao extremo de sua condição no isolamento, quando perde completamente a comunicação com outras pessoas.

As possibilidades de o protagonista sair da chácara são remotas pelo terror de voltar a ser capturado e torturado. Ele vive todo o tempo do romance cercado pelo medo, pois teme que a qualquer hora possa ser descoberto. A dor da vida interrompida e das atrocidades que viu, soube, vivenciou e silenciou, fazem Tito ficar aprisionado no terreno campestre e dentro de si. Não há desfecho, assim como não há começo específico, pois, a condição do romance é ser fragmentária, assim como o pensamento de quem a relata. Quem dá o tom da narrativa é a violência sentida e descrita por André, que se apresenta tanto no âmbito psicológico como físico.

Em entrevista concedida ao programa de televisão Entrelinhas, ao ser questionado pela relação existente entre a experiência vivida no período ditatorial e a obra Na teia do sol, Braff (2009) afirma que os fatos da obra não se aplicam à sua vida, mas o emocional, como o medo e o ódio da clandestinidade, esteve presente em sua experiência. De acordo com a pesquisadora Eurídice Figueiredo, em A literatura como arquivo da ditadura brasileira (2017), esta condição nos faz refletir sobre a relação autor e obra presente nas literaturas que abordam a ditadura: o fato de ter um fundo biográfico ou autobiográfico não quer dizer que é simples. Para escrever autobiografia, como para escrever um romance, é preciso pensar na arte da composição narrativa e isso só se consegue com artifício, portanto, não se pode imaginar a restituição de “toda a verdade” do acontecimento, porque o acontecimento pertence ao domínio do vivido e a escrita literária pertence ao domínio da linguagem. (FIGUEIREDO, 2017, p. 123, grifo nosso).

O autor, neste caso, parte da matéria biográfica para reelaborá-la ficcionalmente no artifício do romance. A sua metodologia romanesca se faz por meio da fragmentação, da imprecisão do narrador personagem que expõe os fatos como se o pensamento estivesse estampado nas páginas do livro. Como diz o próprio escritor: “Caótico como nossa própria mente” (BRAFF, 2009). Ademais, a configuração não se relaciona ao contar diretamente, mas finge parecer o funcionamento do cérebro, como um mergulho na própria mente de André.

Essa técnica se denomina fluxo de consciência. A personagem central se refugia em seu interior, subvertendo o tempo, ou seja, sendo guiado pela enchente de pensamentos. Também é válido ressaltar que no livro se utiliza um estilo do fluxo de consciência que é o monólogo interior direto, isto é, sem presença do narrador para orquestrar o vivido. A partir da tese elaborada pela professora Natali Fabiana da Costa e Silva (2015), intitulada Os hábitos da memória nos conflitos dos protagonistas de Menalton Braff em Que enchente me carrega? (2000) e Bolero de Ravel (2010), vemos que:

Na esteira desses escritores, Braff descortina ao leitor a crise por que passam seus narradores e, assim, traduz o aspecto conflituoso de suas mentes por meio das obsessivas memórias que lhes assaltam e se imiscuem às reflexões e às ações da enunciação, [...] desvelando, antes de mais nada, mentes atormentadas e, em consequência, o recuo em direção ao eu. (COSTA E SILVA, 2015, p. 15, grifo nosso).

Esse recuo em direção ao eu propicia nos textos mencionados a presença da ruína, da atmosfera decadente, da solidão por meio de pensamentos repetitivos, incertezas e angústias. As camadas da mente estão representadas, dado que há elementos da consciência e inconsciência nas recordações. Além disso, ao considerarmos os aspectos narrativos existentes nas obras de Braff, uma estratégia constante é a assiduidade de memórias cíclicas, pois, a partir de Costa e Silva (2015), percebemos o retorno de determinado pensamento nos romances:

Consideramos que a estruturação dos romances por meio das repetições é dotada de inegável intencionalidade estética, estabelecendo, assim, a maneira singular do narrador braffiano. Este, ao narrar o próprio processo de degradação social e mental, cria, a partir das repetições, a imagem do seu desencaixe no mundo, procedimento que intitulamos de processo de esfacelamento da personagem. (COSTA E SILVA, 2015, p. 9, grifo do autor).

Essa mesma estratégia do narrador, como vimos, se faz presente em Na teia do sol. A narrativa apresenta essa recorrência de pensamento em sua estrutura para demostrar o nível de perturbação no qual o protagonista está inserido, bem como a impossibilidade de formular algo com raciocínio linear devido ao estado de choque em que as personagens são dispostas.

O contexto literário dos anos 2000, com o qual a obra dialoga, engloba narrativas variadas como Dois Irmãos (2000), de Milton Hatoum, Coração aos pulos (2001), de Carlos Herculano Lopes, O pintor de retratos (2001) de Luiz Antonio de Assis Brasil, Arquitetura do Arco-Íris (2004), de Cíntia Moscovich, Cinzas do Norte (2005), de Milton Hatoum, Um defeito de cor (2006), de Ana Maria Gonçalves. Esses romances falam sobre suicídio, ditadura militar, morte, relações familiares distorcidas, conflitos de identidade, mobilidade e escravidão no Brasil. Parte desses assuntos também aparecem na obra de Braff. Porém, a temática da ditadura militar em algumas dessas obras aparece de forma tangencial."

sábado, 27 de junho de 2020

RETALHOS 2020 - QUE ENCHENTE ME CARREGA?


Estamos retomando a série RETALHOS, agora em novo formato. Nesta série, Menalton apresenta cada um de seus livros e nos dá de presente a leitura de um fragmento escolhido por ele.

Os vídeos serão postados semanalmente, aos sábados. Não percam!



           

terça-feira, 16 de junho de 2020

NOVO ROMANCE GANHA RESENHA NO BLOG ACRÓPOLE REVISITADA


Acesse a publicação original

TODOS ELES ENTRARAM, SEM COMBINAR, NUM RITMO DE TREINO PARA A VIDA

(Luigi Ricciardi)
Lugares ermos, com pouca conexão com o mundo exterior, são, quase sempre, um bom espaço para grandes romances. O desbravar, de terras inóspitas, também. Junte a tudo isso uma grande carga de cultura popular em uma narrativa bem construída praticamente do começo ao fim. O resultado é Além do Rio dos Sinos, novo romance de Menalton Braff que saiu há pouco pela Reformatório, em mais um belo trabalho de capa e edição.
            O protagonista, durante boa parte do livro, é Nicanor, um homem de poucas palavras que desde a tenra idade precisa trabalhar na terra para tirar seu sustento. Mora em um morro no Vale do Rio dos Sinos, um lugar distante dos grandes centros e até mesmo de pequenos vilarejos. A solidão parece ser a única companheira desse homem.
            No início do romance, Nicanor é ainda apenas um rapaz que se viu sozinho no morro em que mora após a morte do pai. A memória já começa a se perder, o rosto dos familiares mortos são apenas sombras na sua cabeça. Um por um foram todos morrendo, a mãe, o irmão, a irmão. Agora o pai. Nicanor está sozinho e precisa aprender rápido a tirar leite de pedras daquele lugar inóspito onde mora.
            Pensando em negociar a terra com um investidor, acordo que acaba nunca acontecendo, Nicanor vai ao cartório do vilarejo mais próximo. Aproveita o momento e passa ali o final de semana, conhecendo assim Jesualdo, um rapaz, oposto dele, de conversa fácil e animada. A partir desse encontro a vida do protagonista vai mudar, pois com o estreitamento da amizade, ele conhece Marialva e Florinda, as duas irmãs do amigo, mulheres que marcarão sua vida.
            Entremeada à história da juventude de Nicanor vemos também sua história de casado. Capítulo sim, capítulo não, vemos o protagonista, agora com sua esposa Florinda e seus filhos, voltando a morar no morro de sua propriedade. Deduz-se que Nicanor havia deixado o morro e alguma coisa muito ruim aconteceu para que ele voltasse para aquele fim de mundo.
            Falando em fim de mundo, o espaço da narrativa é um lugar ao qual chegam, de maneira esparsa, notícias do país. Sabe-se que o país entrara em guerra, depois que o presidente se matou, depois que há militares no poder. Nesse meio tempo, pouca coisa chega da cidade grande para o Morro da Caipora, a não ser personagens que ali viveram suas vidas e voltam para visitar a protagonista da última parte do livro: Florinda.
            Essa também é uma das grandes personagens do livro. Em um momento histórico no qual só cabia às mulheres a obediência e subserviência, Florinda, contrariando a família, escolhe seu próprio destino. Luta, nesse meio opressor, para manter sua dignidade e pela sobrevivência em meio a tantos espinhos.
            Uma das forças do romance é retratar o cotidiano desses personagens, a lida diária com a terra, desde a aragem, colheita, que é pouca, passando pelo trato com os animais, ordenha, exploração das redondezas, a refeição modesta que beira a fome. O livro também retrata muito bem as relações pessoais, comportamentos da gente do interior, as leis não assinadas mas cumpridas.
            A vida desses personagens é cheia de infortúnios, restando apenas a esperança de que aquela difícil terra possa dar a eles sustento para que não morram de fome. Outra esperança, que toca pouco a pouco os filhos de Nicanor e Florinda, é deixar aquela terra para ter finalmente uma vida digna longe daquele lugar que parece até amaldiçoado.
            Além do Rio dos Sinos é um livro sobre a passagem do tempo, sobre memória, sobre pobreza, traição, fidelidade e esperança. Fala de tantas outras coisas que é difícil enumerar. Rico e convidativo à leitura, o romance mostra um pedaço diferente do Brasil, mas semelhante a tantos outros lugares esquecidos onde a dureza chega bem antes da alegria e da fartura.
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TÍTULO: Além do Rio dos Sinos
AUTOR: Menalton Braff
EDITORA: Reformatório
GÊNERO: Romance
ANO: 2020
PÁGINAS: 280
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TRECHOS:
“Mais para o fundo, para perto do pé do morro, ele viu a cabeça de algumas sepulturas. Era o cemitério dos outros, os que não frequentavam a igreja, onde toda sua família estava enterrada. Primeiro de todos, pelo menos que se lembrava, a terra tinha engolido a Tininha. Não conseguia mais se lembrar da imagem da irmã. Também, ele era muito novo quando ela se foi”.
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“Dez, doze meses sem o pai, a memória deste começava a desmanchar-se, principalmente a memória dos dois mais novos. Começaram então a comportar-se como se um Nicanor jamais tivesse existido. Todos eles entraram, sem combinar, num ritmo de treino para a vida, que faz parte do instinto de sobrevivência. Além do mais, luto nenhum é eterno, e perda, por maior que seja, não sendo da vida, em algum tempo é preenchida com alguma compensação. A tristeza cansa e pede trégua, é impossível chorar vinte e quatro horas todos os dias”.

domingo, 14 de junho de 2020

FRASE

A coluna FRASE ganhou uma nova perspectiva. As frases não são mais de autores e sim de personagens da literatura. A que escolhemos para este domingo é do narrador do romance "Além do Rio dos Sinos", o mais novo livro de Menalton Braff. 




sábado, 13 de junho de 2020

"ALÉM DO RIO DOS SINOS" RECOMENDADO PELO "RASCUNHO"

O mais novo romance de Menalfon Braff, "Além do Rio dos Sinos", lançado em março pela Editora Reformatório, acaba de ser resenhado pelo jornal literário "Rascunho", na coluna "Rascunho Recomenda":

"Com mais de 35 anos de vida literária, Menalton Braff volta ao romance após a publicação de Amor passageiro (Contos, 2018). Além do Rio dos Sinos acompanha a vida de Nicanor e Florinda - duas figuras que sofrem com as dificuldades de se viver em um terreno hostil e repleto de adversidades, no Rio Grande do Sul, sendo a principal delas o embate entre os moradores do morro (infértil, solitário) contra os da várzea, que promete uma sobrevivência mais amena, com suas terras férteis e a possibilidade de se ganhar a vida com as próprias mãos. Entre o período da Segunda Guerra Mundial e a Ditadura Militar, a narrativa - em dois tempos - se desdobra em uma espécie de crônica familiar, explorando a jornada dura de um casal que deseja se libertar das amarras de um Brasil obscuro e ignorado pelos que habitam grandes cidades, tentando dar o melhor aos filhos e lidando constantemente com a natureza e os animais."

O jornal Rascunho é uma publicação voltada para a Literatura, que reúne ensaios, resenhas, entrevistas, textos de ficção (contos, poesias, crônicas e trechos de romances) e ilustrações. Foi criado em 2.000, em Curitiba, pelo jornalista e escritor Rogério Pereira, e entre seus colunistas fixos, estão autores como Affonso Romano de Sant’Anna, Alberto Mussa, José Castelo, Fernando Monteiro, João Cezar de Castro Rocha, Luiz Bras e Raimundo Carrero. Sua versão impressa é distribuída para todo o Brasil.

sábado, 30 de maio de 2020

'ALÉM DO RIO DOS SINOS' NO JORNAL "ESTADO DE MINAS"

Novo romance de Menalton Braff aborda as agruras da vida rural

Autor foi o vencedor do prêmio Jabuti em 2000 (pelo livro À sombra do cipreste) e já escreveu outros 25 títulos
Um casal e uma penca de filho sobem o morro. Porque chove, a tarefa não é fácil, estão numa carreta puxada por um par de bois. No alto do morro, em outro tempo, o rapaz precisa enterrar o pai e decidir a vida. Pequenos proprietários de uma terra ruim e pedregosa, são habitantes de uma encosta no povoado de Pedra Azul.


O contraste entre morro e várzea será narrativamente refletido na alternância entre tempos, o sujeito que volta casado e com filhos e o jovem que um dia decide sair dali para se aventurar, além do rio que parece demarcar a passagem de um território a outro e que dá nome ao livro. São a mesma pessoa, em diferentes tempos, o mesmo Nicanor e o outro, mais velho, com diferentes decisões a tomar.


É a partir dessa bifurcação que o plano de Além do rio dos sinos começa a estabelecer o projeto narrativo de Menalton Braff, vencedor do prêmio Jabuti em 2000 (pelo livro À sombra do cipreste) e autor de outros 25 títulos, incluso este mais recente. 

Trata-se de um Brasil antigo, mas não muito, às vésperas da Segunda Guerra Mundial. As notícias de fora, quando chegam, servem para ajudar o leitor a se situar no tempo histórico. Num nível mais reduzido, o tempo da narrativa, a alternância é que dá o tom entre o jovem, que perdeu o pai e cogita vender as terras, e Nicanor, que volta para ela casado e com quatro filhos. 


Para vender as terras, é necessário primeiro resolver as burocracias para registro de terras e por isso Nicanor desce o morro e vai até a sede do distrito. É tempo de relembrar da família, os irmãos mortos, depois a mãe, por fim o pai, tudo misturado com a memória da infância. “Por que eu?”, ele se perguntava. “Com que finalidade continuei vivo? Só eu! Um gosto amargo na boca podia significar raiva por ter permanecido o restolho de uma família, os Teixeira do alto do morro, ou júbilo e orgulho por continuar resistindo, apesar de só.” Continuar a existência parece uma premissa cuja força se sobrepõe.


No cartório, vai ter que esperar até segunda-feira para resolver todos os trâmites. Em vez de voltar para o morro, decide ficar lá por baixo, onde vai ter um baile no sábado. Arruma hospedaria e percebe que o mundo está de alguma maneira se abrindo diante de seus olhos. Enquanto isso, a família – Florinda e os meninos – sente o cansaço da longa subida, desanimada pelo chuvisco e, no caso da mulher, com o agravante do mau humor. Ela não quer estar ali, é contra a vontade que aceitou a decisão desse retorno, que para ela não quer dizer muita coisa.


Enquanto aguarda o baile, Nicanor conhece outro rapaz, Jesualdo, que lhe dá dicas de como se comportar na hora de convidar uma moça para a dança e lhe chama a atenção para a égua, que está no cio. Oferece um cavalo de estirpe para cruzar com a égua, de graça. No dia seguinte ao baile, vão até a fazenda da família de Jesualdo. Então Nicanor conhece o pai e as irmãs, Marialva, que parece bem interessada nele, e a mais nova, Florinda.


Toda vez que olha para Marialva, recebe um olhar e um sorriso em retribuição. “Aquilo como uma reação química com pressa de querer bem: uma síntese.” Um namoro se engata. No outro plano, a viagem que culminará na subida prossegue, Nicanor, a mulher Florinda, os quatro filhos. A alternância da narrativa tem propósito claro, despertar no leitor curiosidade para saber o que aconteceu entre o interesse pela irmã mais velha e o casamento seguido de quatro filhos com a mais nova. 

O namoro com Marialva se desenvolve com encontros quinzenais, até virar noivado. Sempre que vai até a fazenda da namorada, passa a noite num galpão. Um dia, comparece ao aniversário de 17 anos da cunhada, momento para uma grande reunião familiar. À noite, a jovem Florinda invade sua cama e o inevitável acontece. A revelação nos meses seguintes da gravidez se dá junto com a decisão de uma viravolta familiar. Agora será preciso se casar com a mais nova, mas a ruptura com os irmãos, Marialva e Jesualdo, é inevitável: a amargura de ambos não concede perdão. Antero, o pai, lhes empresta uma fazenda logo ao lado para que toquem a vida. Alguma dignidade será mantida, ele supõe. Algum restauro da ordem. 


Por fim, Marialva também se casa, a vida parece seguir, os filhos chegam para aumentar a família, as coisas se conformam em novas configurações, apesar de tudo. Modesto é o mais velho. Depois Breno, Ernesto, uma escada, quase uma escala. O velho Antero morre, o que deixa margem para que o rancor de Jesualdo mostre a nova face, nem sempre os novos modelos são benéficos.


Ele passa a praticar atentados contra a propriedade da família da irmã, depois de se oferecer para comprar a terra e ser recusado. Por fim, nasce Zuleide, a caçula. Tiros contra a casa, fogo em pastagens, a execução de um cachorro. A decisão vem então. Nicanor quer voltar para o Morro do Caipora, ainda sua propriedade. Florinda não quer, mas termina submetida. 

A nova fase da vida da família, no alto do morro, não é simples. A terra é árida, o trabalho vasto. Quando Nicanor negocia mais uma vez a venda do morro, agora é Florinda quem recusa. Ela não queria subir o morro, mas agora está decidida a nunca mais descer. Como o casamento é em comunhão de bens, a recusa dela implica que a terra não será mesmo vendida, mas o conflito entre eles abre uma nova frente. Amuados, com dificuldade de comunicação, agarram-se às próprias crenças e silêncios. Um dia, quando Nicanor vai até a cidade, descobre que Marialva ficou viúva. Volta em casa, faz a mala, vai embora. Nem conversa direito. Sai de cena como personagem de uma peça teatral.

Aqui há outro ponto de inflexão. Porque em vez de seguir a trajetória de Nicanor, que parecia personagem central para a narrativa, o que acontece é que o foco permanece na sobrevivência a duras penas da família desmembrada. Florinda e os quatro filhos. Ou três, porque Ernesto morre depois de uma febre. A família convive com a precariedade e a perspectiva de que as coisas não vão melhorar, antes o contrário. Florinda educa como pode, à noite, os filhos, o que significa pouco e mal. A vida, no entanto, como acontece, prossegue do jeito que dá. Do mundo exterior, as notícias às vezes comparecem. Mudaram a capital. Falam em trazer luz para o povoado, os meninos crescem.

Modesto vai primeiro, para uma cidade, cumprir a obrigação com o Exército, mas quando volta é para dizer que não volta, que pretende ficar lá embaixo, na cidade, onde arrumou trabalho num frigorífico, e pretende preparar a descida para os outros. Mas Florinda diz que dali não sai. Se isola, resiste. Os outros insistem com ela que aquilo ali já deu, mas ela não quer conversa. 

As atribulações da sobrevivência persistem, a precariedade se alastra. Breno se vai. Volta para arrastar as duas à festa de noivado de Modesto, onde ficam sabendo que agora existem militares no poder. Depois é a vez de Zuleide, a partida mais dolorida. Florinda então fica só. “Tão sozinha, ela pensa, que chega a ser livre.” Breno retorna para insistir com ela mais uma vez. Pode morar com qualquer um dos filhos, pode escolher. Todos a receberão, se quiser. Mas ela recusa. Fincou raízes e se agarra a elas. 

A solidão e a resiliência, que parecem ser os grandes temas deste livro, tornam-se manchadas apenas pela aparência de que ninguém tem controle sobre o próprio destino ou, se decide ter, paga um preço que é por demais elevado e leva até a ruína inevitável. Parece existir uma força maior, da história, que se contrapõe às forças internas, a nível pessoal. Postos em contraste, o sujeito não é tão dono da própria história, uma vez que está submetido a impactos maiores, às rodas de um comportamento social, de uma rotina que não foi criada por ele, mas a que é preciso se submeter. E por um sentido de resistência que não se sabe bem a quê, resistir pela impossibilidade de reagir a novos cenários, a diferentes situações. A resistência do empedernido. 

Causa certa estranheza esse abandono de um personagem, Nicanor, a meio do caminho, até que o leitor se vê forçado a entender que não é o personagem a força-motriz, mas o enredo das vidas redundantes, da miséria resiliente, das voltas e viravoltas que na verdade desembocam na mesma estrada, da qual, no fundo, ninguém se desvia muito. Menalton Braff desta vez escreveu um romance de desesperança que se disfarça em força. 

* Paulo Paniago é professor na Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília

Trecho do livro


“Finalmente Modesto espera uma pausa no assunto e se encoraja. 

- Mãe, não quero que a senhora sofra com a notícia. A senhora promete? 

- Que notícia, Modesto? – sua voz treme e trai a ansiedade, talvez medo. 

- A senhora promete?

- Promete o quê, Modesto?

- Que não vai sofrer.

- Deixa de ser bobo, menino. Então como é que posso prometer alguma coisa se nem sei o que tu vai dizer.

Ele paira o olhar sobre a mesa sem ver, pensa um instante e se abre.

- É o seguinte: nesta viagem, do meu lado sentou um homem que me perguntou de onde eu era, e expliquei que tinha nascido aqui, na Pedra Azul, mas que agora trabalhava num frigorífico na cidade. Ele disse que conhecia muita gente em Pedra Azul e perguntou quem era meu pai. Contei assim mais ou menos, que há muitos anos ele tinha desaparecido e a gente nunca mais teve notícia dele. Porém, ele insistiu e eu disse o nome do pai. Então ele me olhou com cara de assustado e disse, mas esse homem é meu amigo. Ele vive com a viúva Marialva, em Jacutinga. 

Tremem os lábios de Florinda, e por eles passam palavras inaudíveis. Seus olhos despacham chispas de ódio na direção do filho por ter trazido tal notícia. Segue-se um longo silêncio que deixa entrarem pela janela aberta os ruídos da noite que, por causa do frio e do vento, não são muitos.”
“Saber por ter notícia é também um modo de saber. Mas um saber que afeta menos, pois formado por palavras, e as palavras são sempre muito voláteis. Deixam menos marcas. E há sempre a possibilidade de que a situação não esteja bem definida, oscilando entre nem tanto ou ainda mais. Às vezes pode nem ser verdade. Era só um modo de falar, uma impressão que não se confirma. Pelo menos, quando necessária, cresce tal esperança. Não passou tudo de um engano, ou era apenas uma mentira, porque as palavras, quem as governa? 



Jesualdo seguiu para casa no trote do cavalo. Voltou ao lado oposto da colina, onde estivera, atravessou uma roça de mandioca, entrou pela estrada do capão na direção do campo. Não sentia o lombo do animal, não comandava sua direção, não via nada do entorno. Ele tinha visto: Nicanor arava uma terra que não era sua, com bois e arado que não eram seus, e sim do sogro. E a imagem, mesmo que borrada pela distância, não saía mais de seus olhos, uma afronta, o descalabro. 
Agora eu vi, ninguém me contou, e Jesualdo seguia aquele pensamento sacudido pelo trote do cavalo. Agora eu vi. E sua raiva, que nos últimos meses vinha arrefecendo, trancou-se em sua garganta para poder crescer até quase o insuportável.”

Além do rio dos sinos: romance
De Menalton Braff
Reformatório
280 páginas
R$ 44 

domingo, 10 de maio de 2020

FRASE

Em 2020, a coluna FRASE ganhou uma nova perspectiva. Agora, as frases não são mais de autores e sim de personagens da literatura. A que escolhemos para este domingo é do narrador do romance "Além do Rio dos Sinos", o mais novo livro de Menalton Braff. 





sábado, 9 de maio de 2020

VALE A PENA VER DE NOVO

Menalton Braff fala sobre seu romance BOLERO DE RAVEL, em vídeo gravado pela Global Editora. Para quem não viu e para os que gostariam de assistir novamente.


       

domingo, 19 de abril de 2020

FRASE

Em 2020, a coluna FRASE ganhou uma nova perspectiva. Agora, as frases não são mais de autores e sim de personagens da literatura. A que escolhemos para este domingo é do personagem Armando, do romance "Moça com chapéu de palha", de Menalton Braff.


terça-feira, 14 de abril de 2020

MENALTON DÁ VOZ À SUA ESCRITA

A pedido de um leitor, o escritor Menalton Braff decidiu gravar um trecho de seu próprio romance, "Além do Rio dos Sinos", que acaba de ser lançado pela Editora Reformatório.