Volte aqui, ela me dizia apontando com o lápis uma passagem
na partitura que não
tinha saído boa. Eu voltava com a paciência que é permitido
exigir de uma criança, enquanto ela
suspirava. Muitas vezes a surpreendia com os olhos parados na barra do infinito
e suspirando ruidosamente. Nestes momentos, a picardia infantil inventava
brincadeiras, como tocar alguma coisa diferente do que mandava o Método. Às
vezes ela percebia a brincadeira e suspirando exigia que voltássemos ao
exercício. Às vezes, raras vezes, pois quase sempre continuava com os olhos
parados em uma lembrança, uma preocupação que eu não poderia imaginar qual
fosse.
Naquele tempo eu não sabia ainda o que é suspiro.
Sem conhecimento da vida, eu chegava em casa pedindo para
trocar de professora, porque Dona Carminha não parava de gemer. Naquele tempo
eu não sabia ainda o que é suspiro, coisa que só mais tarde aprendi, como se
diz, a ferro e fogo e na própria carne.
Hoje, desconfiado de
que as palavras andaram me escondendo suas entranhas por muito tempo, fui atrás
do Michaelis. E lá encontrei, para “suspiro”, entre outras acepções: 1) Pequeno
orifício para extração de um líquido em pequena quantidade. 2) Pequeno bolo com
clara de ovo batida, açúcar e amêndoas ou nozes moídas. 3) Respiradouro. 4)
Respiração forte e mais prolongada que a ordinária, provocada por alguma
paixão, como amor, saudade, tristeza etc., e entrecortada com estremecimento.
Claro, era isso mesmo. Principalmente entrecortada com
estremecimento.
Não troquei de professora nos três anos seguintes. Pouco
aprendi de piano e muito menos do amor, pois naquele tempo ainda achava que
suspiro e gemido eram a mesma coisa. Ainda acho, mas já percebo diferentes razões
para gemidos e, quanto aos suspiros, já sei que são invariavelmente o resultado
de alguma opressão do peito, alguma dor difusa, não localizada.
Uma tarde de sol preguiçoso e tímido, a lição foi
interrompida pelo choro sacudido de Dona Carminha. Voltei para casa assustado.
Coisa misteriosa, aquela, um adulto chorando. Minha professora não devia ter
passado dos dezoito anos, mas só não achava que fosse uma velha porque não
tinha cabelos brancos. Voltei assustado e sem ter dado a lição do dia. No jantar,
relatei com detalhes (o lenço, a baba, a mancha de umidade na blusa) a cena a
que assistira à tarde. Me pareceu que ficaram todos consternados e condoídos,
repetindo: “Coitada de Dona Carminha, abandonada pelo noivo.”
Pouco tempo depois,
acho que numa tarde de sol tão preguiçoso e tímido quanto a tarde em que ela,
em vez de suspirar, resolveu chorar, recebeu-me com muita alegria e disse-me
entre sorrisos que era nossa última aula. Ela estava de partida. Não entendi
muito bem o que se passava, mas fiquei, por obra de um instinto que toda
criança tem, muito contente. Não teria mais de aturar seus gemidos.
Não faz muitos anos, tive notícias de Dona Carminha por
intermédio de um primo seu que encontrei por acaso em um Simpósio. Foi morar no
Rio de Janeiro, teve três filhos e amou o marido até o último dia de sua vida.
Fiquei contente, com a notícia, pois já diferencio suspiros de gemidos, e
aquele malquerer infantil sempre me doeu um pouco pela vida a fora. E o
primeiro noivo?, perguntei. Ninguém mais soube de seu destino.
Lá pelo meio do mês passado, mobilizaram-se todos os
redatores do país para falar de namorados e de amor. Principalmente em
propagandas comerciais. Numa delas tropecei mais uma vez com a idéia da
eternidade do primeiro amor. Então me lembrei de Dona Carminha.

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