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Quanta gente conheço que não
pode tirar o uniforme!
Era
autodidata, o bruxo do Cosme Velho, mas como entendia da alma humana! Para usar
a linguagem da era da tecnologia, ele tinha um entendimento de alta resolução
do ser humano. É de se admirar que tivesse uma visão niilista, pessimista, da
existência?
Tenho-me
lembrado, ultimamente, com muita frequência de Machado de Assis. Sobretudo de
seu conto “O Espelho”. As coisas acontecem em nossa volta e, como no conto do
Monteiro Lobato, a realidade copia a ficção.
Alguns
dos leitores, infelizmente, não conhecem Machado de Assis, muito menos o conto
aludido. Não é inútil, portanto, um resumo. O ideal, é claro, seria a leitura
do conto, pois o conto é seu discurso, mas supondo que isso vá demorar a
acontecer, ou que não aconteça jamais, não vejo outro recurso senão o resumo.
O
narrador do conto, o protagonista Jacobina, desenvolve, em conversa com seus
amigos, a teoria de que todos nós temos duas almas: uma interior e outra
exterior. Como comprovação de sua teoria, conta a história de um jovem oficial
do exército imperial brasileiro. (Técnica conhecida como mise en abyme). Em
toda sua família, ninguém, até então, galgara tão alto a escala social. O jovem
oficial é o orgulho e a esperança de redenção dos parentes. Só tira o uniforme
para dormir.
Um
dia, por razões fortuitas, encontra-se inteiramente sozinho em uma casa de
fazenda, onde fora visitar sua tia, e de onde, depois de uma viagem forçada da
família, até os escravos somem. Resolve, para não sujar seu rico uniforme,
vestir uma roupa comum. Ao passar pela frente do espelho, leva um susto enorme:
sua imagem não está lá. Não tem para quem apelar, não consegue imaginar o que
acontece. Angustiado, com medo, resolve partir daquela casa maldita, em que
deixara de existir.
Vai
ao quarto e veste apressadamente o uniforme para a viagem. Grande surpresa,
quando passa novamente pela frente do espelho: sua imagem está perfeita,
irretocável. Sem saber como, ele recupera sua alma exterior.
Machado
tinha como uma de suas características mais fortes revelar a realidade por
baixo das aparências e resolveu de forma narrativa a exposição desse, que é um
dos grandes vícios do ser humano.

Esse conto, sem dúvida, é um dos melhores do Machado de Assis. O Bruxo foi um dos poucos escritores que soube explorar tão bem essa questão do ser e parecer em nossa defeituosa humanidade.
ResponderExcluirEsse tema, aliás, em época de futuros prefeitos e vereadores, ganha uma consistência ainda maior. Ah, a citação quase despretensiosa entre parêntese sobre "Mise en abyme" revela uma outra questão de seus textos, Menalton: a arte de ensinar. Vindo aqui, o leitor ganha reflexão, convite à pesquisa e, consequentemente, o conhecimento.
Em meio a tanta poluição cancerígena ao senso crítico que há na internet, seu blog surge, entre outros, como cura.
Generosidade sua, Vitor, mas aceito a observação de que pretendo construir um blog que, do ponto de vista da literatura, seja útil para os leitores.
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