segunda-feira, 29 de outubro de 2012

MACUNAÍMA (8)

Na postagem anterior, Macunaíma subjuga Ci, a Mãe do Mato, e se torna Imperador, com uma vida mansa como deus dá.


Pág. 29 - "Porém nos dias de muito pajuari bebido, Ci encontrava o Imperador do Mato-Virgem largado por aí num porre mãe. Iam brincar e o herói esquecia no meio.
- Então, herói!

- Então o quê!


- Você não continua?

- Continua o quê!

- Pois, meus pecados, a gente está brincando e vai você pára no meio!"
Pág. 30 - "- Ai! que preguiça...
Macunaíma mal esboçava de tão chumbado. E procurando um macio nos cabelos da companheira adormecia feliz."

Ci colhia galhos de urtiga com que animava o seu e o sexo do Imperador.

"(...) E os dois brincavam que mais brincavam num deboche de ardor prodigioso."
(...)
"Macunaíma dava um safanão na rede atirando Ci longe. Ela acordava feito fúria e crescia pra cima dele. Brincavam assim. E agora despertados inteiramente pelo gozo inventavam artes novas de brincar.
Nem bem seis meses passaram e a Mãe do Mato pariu um filho encarnado. Isso, vieram famosas mulatas da Bahia, do Recife, do Rio Grande do Norte e da Paraíba, e deram pra Mãe do Mato um laçarote rubro cor de mal, porque agora ela era mestra do cordão encarnado em todos os Pastoris de Natal. (...) Macunaíma ficou de repouso o mês de preceito porém se recusou a jejuar. O pequerrucho tinha cabeça chata e Macunaíma inda a achatava mais batendo nelas todos os dias e falando pro guri:
- Meu filho, cresce depressa pra você ir pra São Paulo ganhar muito dinheiro.
Todas as icamiabas queriam bem o menino encarnado e no primeiro banho dele puseram todas as jóias da tribo pra que o pequeno fosse rico sempre. Mandaram buscar na Bolívia uma tesosura e enfiaram ela aberta debaixo do cabeceiro porque sinão Tutu Marambá vinha, chupava o umbigo do piá e o dedão do pé de Ci. Tutu Marambá veio, topou com a tesoura e se enganou: chupou o olho dela e foi-se embora satisfeito. Todos agora só matutavam no pecurrucho. Mandaram buscar pra ele em São Paulo os famosos sapatinhos de lã tricotados por dona Ana Francisca de Almeida Leite Morais e em Pernambuco as rendas Rosa dos Alpes, Flor de Guabiroba e Por Ti Padeço tecidas pelas mãos de dona Joaquina Leitão mais conhecida pelo nome de Quinquina Cacunda. (...) Mas uma feita jucurutu pousou na maloca do imperador e soltou o regougo agourento. Macunaíma tremeu assustado ewspantou os mosquitos e caiu no pajuari por demais pra ver si espantava o medo também. Bebeu e dormiu noite inteira. Então chegou a Cobra Preta e tanto que chupou o único peito vivo de Ci que não deixou nem o apojo. E como Jiguê não conseguira moçar nenhuma das icamiabas o curumim sem ama chupou o peito da mãe no outro dia, chupou mais, deu um suspiro envenenado e morreu."

O curumim é enterrado com todas as honras e truques para afugentar boitatá e outros males.

Pág. 32 - "Terminada a função a companheira de Mac unaíma toda enfeitada ainda, tirou do colar uma muiraquitã famosa, deu-a pro companheiro e subiu pro céu por um cipó. É lá que Ci vive agora nos trinques passeando, liberta das formigas, toda enfeitada ainda, toda enfeitada de luz, virada numa estrela. É a Beta do Centauro.
No outro dia quando Macunaíma foi visitar o túmulo do filho viu que nascera do corpo uma plantinha. Trataram dela com muito cuidado e foi o guaraná. Com as frutinhas piladas dessa planta é que a gente cura muita doença e se refresca durante os calorões de Vei, a Sol."

Mário de Andrade classificou seu livro de rapsódia, e com alguma razão. Em nossa opinião, contudo, e de acordo com a terminologia atual, ele poderia ser classificado como novela. Há uma sequêndcia de ações que são apenas justapostas, tendo como único fio condutor o herói.
Observe-se ainda as expressões: "porre mãe", "meus pecados", "vai você para no meio", todas elas de extração urbana provavelmente paulistana da época.
No parágrafo que se inicia por "Nem bem seis meses", existem vários exemplos de aproveitamento de culturas diversas do Brasil para o tecido da história. Um deles, que é até hoje um chiste paulista, é sobre a "explicação" da cabeça chata do nordestino. As lendas sobre cobras chupando o peito de mulher parida são de todo o território nacional.

(CONTINUA)




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