terça-feira, 30 de outubro de 2012

QUESTÕES DE ESTÉTICA DA LITERATURA (34)

Hierarquia de Hjelmslev
Pág. 79 - 2.6. Heterogeneidade da semiose estética


"Uma experiência como a anterior comprova a pertinência da teoria proposta por alguns semioticistas sobre a natureza típica e explicitamente heterogénea das mensagens artísticas. Como Emilio Garroni demonstra, não existe nenhuma linguagem específico-simples ou homogénea, nem existe, consequentemente, 'una manifestazione semiotica quale che sia, artistica o no, verbale o no, che possa essere considerata - nella sua (pág. 80) totalitá concreta - pura o omogenea.'
Qualquer mensagem, mesmo altamente especializada ou formalizada, resulta sempre da interacção de modelos semióticos heterogéneos, podendo ser decomposta e analisada segundo vários níveis, cada um dos quais dependente de códigos diversos. A homogeneidade de uma determinada manifestação semiótica procede apenas de uma construção analítica formal aplicada ao estudo dessa manifestação ou do respectivo modelo semiótico. É assim, por exemplo, que o modelo semiótico linguístico se apresenta como homogéneo não pelo facto de a própria linguagem verbal ser homogénea, 'ma - come fu chiarissimo a Saussure e sopratuto a Hjelmslev - dal fato che noi lo studiamo per ipotesi sotto un profilo formale omogeneo.'

Enquanto, porém, nas mensagens não-estéticas se dissimula, se debilita e se marginaliza essa heterogeneidade, privilegiando-se um modelo semiótico e colocando-se como que entre parênteses os outros modelos, nas mensagens estéticas a heterogeneidade semiótica realiza-se e afirma-se explicitamente, apresentando-se investidos de notória relevância os múltiplos códigos - embora não necessariamente todos eles - que regulam (pág. 81) e condicionam a constituição da mensagem. Toda a linguagem artística, por conseguinte, é típica e explicitamente heterogénea, já que resulta da combinação, da interacção sistémica de múltiplos códigos. A sua especificidade deve ser assim substancialmente definida a partir das inter-relações combinatórias de vários códigos, se bem que, como Chritian Metz observou, existia outro nível de manifestação dessa especificidade, pois que alguns códigos são específicos de uma determinada linguagem ou de um determinado grupo de linguagens (o que de modo nenhum, aliás, contradita o princípio de que todas as linguagens artísticas são típica e explicitamente heterogéneas)."

3 comentários:

  1. Obrigada por partilhar esse instigante texto conosco.
    A seu ver, um autor está sempre consciente do conjunto de códigos implicitos em sua obra?
    Rosangela.

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  2. Não, Rosangela. Existe uma coisa que se chama de intuição poética e o autor nem sempre está consciente do que faz. O que também não significa que domine muitos dos códigos que utiliza. Por exemplo: um autor pode estar mergulhado no código moral a ponto de não perceber que aquilo que está dizendo depende desse código. Isto é, já lhe parece que o mundo é assim e não percebe que poderia ser diferente. Quando o autor pensa que isto que diz é apenas um modo de dizer, uma coisa natural, nem sempre está consciente que foi apenas uma questão de escolha. Isso pode acontecer com qualquer dos códigos.

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  3. Perdão: não significa que não domine muitos dos códigos...

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