Por
sorte meus passos são silenciosos, e isso me evitava o cuidado com a possibilidade
de acordar alguém, de sorte que pude caminhar tranquilo, olhando os nomes gravados
nas lápides, alguns conhecidos, que me faziam lembrar fatos de minha vida. Uns
tantos túmulos me encheram de inveja, pelo zelo dos familiares: isso era
respeito à memória de seus mortos. Outros, não. Percebi, no desleixo em que
estavam mergulhados, o alívio com a partida do ente querido. Seu olvido.
Minha
silenciosa viagem trouxe-me inúmeras recordações: amigos que haviam partido
antes de mim, e as aventuras que compartilhamos; um professor, morto em idade
avançada, que declarava com toda a honestidade não gostar de mim; um vizinho
com quem tive de brigar por causa do volume excessivo de seu aparelho de som.
Coisas da vida, pensei, ninguém se livra delas.
Enquanto
caminhava, parando, olhando e lembrando, por aqueles longos corredores, não me
dava conta de que tudo era feito para retardar a chegada a meu túmulo. Postergava
o momento. Eu queria vê-lo e ao mesmo tempo tinha medo do que veria.
O
lugar em que me enterraram fica em um dos extremos mais retirados do cemitério.
E é incrível que o tenham conseguido, pois suicidas não podem jazer (quase
disse “conviver”) na companhia daqueles que tiveram morte cristã. E o único
cemitério da cidade é este onde estou sepultado, o cemitério da Igreja. Não sei
quais foram os argumentos utilizados, as mentiras piedosas com que convenceram
o padre de que meu corpo não poderia viajar até a cidade mais próxima em que
houvesse um campo santo administrado pela prefeitura.
Só
a desesperança em sua dimensão absoluta, ia pensando, pode explicar o desejo do
fim. Pois foi o meu caso. Elevei o amor por minha mulher à condição de supremo
bem, a única razão por que continuar a vida. E isso ela ouviu em confissão que
lhe fiz uma noite antes de apagar a luz. Mas ela, assombrada, apenas me encarou
por alguns segundos, sem nada dizer. A madrugada, entrando pela janela, me
entrou pelos olhos abertos. Naquela noite percebi que meu amor não encontrava em
Fricka a ressonância necessária para que a vida se justificasse. Para mim, que
a amei com cada uma de minhas células e com uma intensidade que me deixava no
limiar da loucura, tornou-se insuportável a convicção de que havia algum
segredo em sua vida impedindo-a de me amar.
Só
me faltava a certeza, e de minha mulher, de sua boca, jamais conseguiria as palavras
que me apaziguassem. Por isso passei a observar os detalhes de seu comportamento.
Nada me escapava: seus olhares, os gestos, seus passos, os afagos que me
dispensava. Vasculhei seu passado, quis conhecer seus colegas de escola,
passava noites imaginando traições. Então achei que seus olhos se evadiam de
mim, suas mãos, muitas vezes úmidas e frias, outras vezes quentes e secas no
afago que me parecia cada vez mais distraído. Ou urgente.
Com
a passagem dos meses, a observação atenta me cansou. E o cansaço me deu a certeza
de que precisava.
E
foi assim que fui parar logo ali, a vinte passos, à sombra daquelas árvores.
Por
fim, me vi em frente a um túmulo em cuja lápide meu nome se destacava. Com minhas
datas e uma foto oval em que identifiquei meu rosto antigo. Um olhar triste tinha
sido captado pela máquina em uma das últimas fotos que me tiraram. Uns olhos
que naquela época já conduziam a uma alma que se arrastava de angústia. Era o
sentimento da solidão, do amor sem ressonância.
Me
aproximei o suficiente para ver que o lugar onde jazia meu corpo era talvez o
mais bem cuidado de todo aquele cemitério. Mármore e granito, vasos com flores
artificiais, como eram permitidos, palavras em alto relevo folheadas a ouro,
objetos de bronze brunido. Tudo perfeito, impecável, exatamente como eu havia
imaginado não estar.
Sentado
no ombro da sepultura, gastei as horas de que não tinha mais necessidade. Eu
queria entender. Era preciso que entendesse.
Não sei se dormi. Minha noção de tempo anda bastante prejudicada. Mas
foi grande o susto quando, sol alto, aproximou-se um vulto totalmente envolto
em roupas pretas. Só quando o susto tornou-se surpresa foi que identifiquei
Fricka debaixo daqueles panos escuros. Mais magra, mais pálida. Cheguei a me
levantar num princípio idiota de fuga: ela não poderia me ver.
Minha
viúva lavou as pedras, arrumou a posição das flores nos vasos, bruniu as peças
de bronze, então se ajoelhou suspirando ao lado da campa e assim permaneceu por
algum tempo. Por fim, levantou-se, enxugou uma lágrima e despediu-se, Até
amanhã, meu infeliz amado.
Então
me afastei rapidamente, uma seta envenenada atravessada em meu pensamento: Que
horror é a eternidade.

isto é com que a alma precisa ser regada! um delírio de conto!
ResponderExcluir