| Bernard Mouralis |
Pág. 125 - "Finalmente, temos a considerar a designação de "contra-literatura", proposta há poucos anos por Bernard Mouralis, em obra atrás citada. Esta designação abrange, segundo declara o próprio autor, duas séries bem diferenciadas de factos: por um lado, uma actividade teórica e a correspondente prática de escrita que contestam e questionam a 'Literatura' ('novo' teatro, 'novo' romance, 'nova' crítica, etc.); por outro, a produção literária, relevante sob o ponto de vista estatístico, a que se atribui uma posição marginal, como demonstram designações como 'infraliteratura', 'paraliteratura', 'literatura de massas', etc.
Se nos é permitida uma imagem topológica, diríamos que Mouralis concebe a literatura como uma área nuclear, delimitada sob os pontos de vista axiológico, institucional, sistemático e histórico-sociológico, perturbada no (pág. 126) equilíbrio dos seus valores, de modos distintos, em dois pólos opostos: por um lado, as manifestações literárias de vanguarda ('novo' teatro, 'novo' romance, 'nova' crítica, etc.); por outro, as manifestações literárias classificadas por outros autores como 'infraliteratura', 'paraliteratura', etc.
Para além de afirmações ambíguas e inexactas sobre a literatura como instituição e como sistema, o conceito de 'contraliteratura' proposto por Mouralis afigura-se-nos inconsistente em três pontos fundamentais.
Primeiramente, a sua extensão abrange fenómenos intensionalmente tão heterogéneos e contraditórios como a 'vanguarda' literária e a 'paraliteratura'. Paradoxalmente, após a página inicial da sua obra, Mouralis esquece as manifestações literárias de 'vanguarda' nessa mesma página inscritas no âmbito da 'contraliteratura', atendo-se apenas ao estudo da segunda série de factos acima mencionada. Mas, se na referida página inicial aquela segunda série de factos é identificada com um certo 'sector da produção literária', designado habitualmente por 'infraliteratura', 'paraliteratura', etc., no desenvolvimento da obra o conceito de 'contraliteratura' é tornado extensivo a textos muito heterogéneos que não são inclusíveis naquele 'sector da produção literária' - textos administrativos, pequenos anúncios, títulos e prosas de jornais, prospectos de qualquer natureza, etc. - e até a impressos a que, em rigor, não cabe sequer a designação de textos - catálogos de grandes armazéns, horários dos caminhos de ferro, etc.
Segundo, no seu conceito de 'contraliteratura' cabe a literatura oral, colocada em plano equivalente, sob o ponto de vista sistémico e funcional, ao da 'infraliteratura' ou 'paraliteratura' (melodrama, romance popular, romance policial, etc.). Ora, trata-se de uma confusão grave, porque a literatura oral, como veremos, apresenta caracteres semióticos que a diferenciam em relação a toda a literatura escrita e não apenas em relação à 'literatura' a que Mouralis opõe a 'contraliteratura'."
(CONTINUA)

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