
LAÍS MODELLI
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, DE RIBEIRÃO
PRETO
"'Menalton
o quê?' era o título de uma matéria que publicaram sobre o Jabuti que
ganhei", relembra, dando risadas, Menalton Braff. "Não escrevo para
ser premiado, mas sem ele não estaria aqui. Estaria na plateia."
Assim, o
escritor resume um pouco a importância do prêmio em palestra que ele deu nesta
terça-feira (11) durante a Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto (313 km de
SP).
Braff ganhou
o Jabuti como livro do ano de 2000 com "À Sombra do Cipreste",
publicado um ano antes por um editora de Ribeirão -- o escritor mora na vizinha
Serrana.
Ele reconhece
a importância dos prêmios em relação à cobertura da imprensa. "Existe uma
barreira de silêncio para os autores que não recebem atenção da mídia."
Para o
escritor, a dificuldade em se publicar um livro no país é simples. "Livro
encalhado é livro sem mídia. O Brasil não tem leitores e as editoras não querem
falir." Segundo ele, mesmo com um Jabuti, ainda não é totalmente fácil
publicar.
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| Foto: Edson Silva/FolhaPress |
Depois, foi
finalista de vários prêmios, como o São Paulo de Literatura, por "A
Muralha de Adriano", obra de 2008 que também recebeu menção honrosa do
Casa de las Américas.
Nascido em
Taquara (RS), cursava economia na UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do
Sul), quando aconteceu o golpe de 1964. Mudou-se para São Paulo na década de
1970 para fugir da ditadura.
Seu último
livro, "O Casarão da Rua do Rosário", retrata 40 anos de vida de uma
família que passa por episódios do século passado, como o regime militar e a
virada dos anos 2000.
ANOS DE
CHUMBO
Um homem da
plateia, levanta a mão e pede para o escritor contar os oito anos que passou
recluso após o golpe. Meio sem jeito com a lembrança ressuscitada pelo
espectador, Menalton apresenta o amigo.
"Para
quem não conhece, esse homem é o Nando, escritor, ex-futebolista e irmão do
Zico. Meu amigo", revela, quebrando o gelo. Fernando Antunes Coimbra, o
ex-jogador foi perseguido durante o regime militar (1964-85), história
retratada no livro "Futebol e Ditadura - o primeiro jogador anistiado do
Brasil".
Feita a
apresentação, Menalton, como bom contista que é, atendeu o pedido do amigo.
"No golpe de 64, estava na universidade, em Porto Alegre. Nós, estudantes,
nos organizamos para combater a ditadura", relembra.
"Fui
condenado à revelia porque eu consegui fugir [do cenário da
universidade]". Depois de ser alertado por amigos que estava sendo
perseguido pelo regime, o escritor resolveu se mudar do Rio Grande do Sul para
São Paulo. "Nesse mar, eles [militares] não vão me encontrar,
pensei."
Para não ser
encontrado por "eles", Menalton conta que passou oito anos escondido,
sem usar o nome em lugares públicos e mudando de endereço. "Foram anos de
muito sofrimento, medo e sustos". "Morei até em barraco, no frio, no
meio do nada, tendo que acender fogueira do lado da cama para conseguir
dormir", lembra.
Nando levanta
a mão mais uma vez e pergunta se a ditadura interferiu na carreira do escritor.
"Retardou o meu processo, pois tive que me apagar como pessoa por oito
anos".
Durante esse
período, concluiu os estudos e, como escritor, só estreou com publicação de
livros na década de 80.
"Mas li
muito, já que não podia fazer nada. Li 30 e tantos volumes do "A Comédia
Humana", de Balzac", brinca. Completa afirmando que sua cultura
literária veio desse período de reclusão.
Sobre "O
Casarão da Rua do Rosário", ele relata: "Tem um trecho em que a
polícia invade uma casa e prende os pais na frente dos três filhos. O pai pede
para os filhos não chorarem, que ele voltará, mas ele nunca mais volta,
some".
Esse
episódio, segundo o escritor, rendeu críticas negativas ao livro. "Alguém
vai negar que isso já aconteceu no Brasil? E teve crítico que me chamou de
maniqueísta", declara.
Para
Menalton, a crítica literária nacional não vai bem. "O último crítico
nesse país morreu em Curitiba. Era Wilson Martins [1921-2010]", afirmou,
referindo-se ao colunista de jornais como "O Globo" e "O Estado
de S. Paulo".
INFLUÊNCIAS
"Fui
quase que a vida todo sartriano. Acho que Jean-Paul Sartre [1905-1980] foi o
poeta da minha geração", conta. De uns tempos para cá, o autor diz estar
mais niilista. "Estou aprendendo com as leituras de [Friedrich] Nietzsche
[1844-1900] que sofrimento e prazer não andam separados. Que escrever é prazer
e sofrimento ao mesmo tempo."
Filósofos à
parte, Menalton não esconde que a sua paixão literária é Machado de Assis
(1939-1908). "Existem autores que leio e penso que eu queria ter escrito
aquele livro! Eu odeio Machado de Assis porque sinto isso com todos os livros
dele", diz.
O escritor
ressalta que a genialidade de Machado está na linguagem viva da sua obra.
"Tem um autor que diz que cada geração adorou Machado por razões
diferentes. Isso é ser um clássico", afirma.
Clarice
Lispector (1920-1977) é outras de suas paixões. "Gosto dela pelo
estranhamento que ela cria em você. Ela é um canhão: te atinge a cabeça toda
hora."
PESO DO
JABUTI
"Não
escrevo para ganhar prêmios. A maioria dos que eu concorro, perco",
responde Menalton quando perguntado se um Jabuti interferiu na sua produção nos
anos que se seguiram. "Um Jabuti não alterou em nada aquilo que me
proponho a fazer como arte."
E o que é a
arte literatura? "É a desautomatização da humanidade. Não é caminhar, é
dançar."

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