sexta-feira, 21 de junho de 2013

UM CONTO PARA SEU FIM DE SEMANA

Conto inédito:
Nossas perdas
Entre a multidão de nossos instintos, me ensinaram, existe o instinto da paternidade. O que não me ensinaram, e que aprendi esfolado pela experiência, é que, como qualquer outro, ele pode se desgastar até desaparecer. Em mim, o que ainda persiste desse instinto é apenas o que me restou na memória.

E uma das coisas que a memória não me recusa é a existência de uma irmãzinha da qual me apropriei como filha. A idade em que andava, então, isso a memória não me diz, mas me imagino lá pelos quatro, cinco anos.

Ninguém se aproximava da Lili sem me provocar um ciúme exacerbado, às vezes minha fúria paterna. A chupeta, sua mamadeira, o sono da Lili eram todas questões que me davam um sentido à vida.

Ela parecia crescer mais rapidamente do que eu, e isso era um desconforto pouco mais que desprezível. Eu já não conseguia caminhar carregando-a em meus braços, em compensação ela já engatinhava e logo depois começou a ficar plantada sobre seus pezinhos, as pernas um pouco abertas, o corpo hesitante, meio bamba. Em breve, profetizava minha mãe, ela vai dar os primeiros passos.

A viagem que fizemos foi por necessidade, pelo menos era o que eu podia entender do que afirmava meu pai, aquele homem enorme, um deus infalível. Além de necessária, foi uma viagem longa. Trem, ônibus, navio, e terminamos em carreta de bois. Quanto durou a viagem? Envolvido com os cuidados que me merecia a Lili, estive desatento para detalhes sem importância como a duração. O exercício do meu instinto da paternidade não podia medir-se pelo sol e pelas estrelas, muito menos pelos ponteiros de um relógio.  

No trecho final da viagem, duas horas em uma carreta puxada por duas juntas de bois, atravessamos algumas pancadas de chuva que, na verdade, nada mediam, e fiz de tudo para que Lili não sofresse a agressividade do sol ou a aspereza do vento. Da chuva eu a protegi com meu próprio corpo. Mas parece que de nada adiantaram meus cuidados. Antes da chegada ao destino já avisei minha mãe, A Lili parece que está muito quente.

E estava. As costas das mãos, de todas por ali disponíveis, mediram a temperatura da testa da Lili, sem que eu me opusesse, gritando que era minha. O semblante dos adultos e de meus irmãos mais velhos foi tal que me senti preocupado, talvez temeroso. Minha paternidade tinha lá seus limites de competência, além dos quais eu aceitava a interferência dos adultos e mesmo de meus irmãos mais velhos.

Mal chegamos à casa de um tio desconhecido, anoitecendo, a Lili começou a gemer. As mulheres ferveram folhas medicinais, os homens fumaram cigarros na varanda, falando baixo, meus irmãos sumiram na companhia de uns primos, também desconhecidos, enfurnando-se em currais e paióis. Não havia mais berço na casa e ficamos, a Lili e eu, em uma cama improvisada para meus pais sobre o soalho da sala. Cada vez que ela gemia, meu corpo repelava, numa contração dolorida. E ela gemia com muita frequência.


Bem mais tarde, quando meus irmãos e seus companheiros atenderam ao chamado para o jantar foi que pela primeira vez conferi os agasalhos da Lili, puxei o cobertor até seu pescoço e fui até a cozinha comer alguma coisa. Com pressa.


Na volta, descobri que minha irmã chorava. Muito baixinho, mas chorava. Só eu sabia que ela estava chorando. Os olhos fechados, e chorava. Chamei minha mãe, que trouxe consigo a cunhada com canecas de infusões milagrosas. Daqui a pouco ela vai estar boa. Eu passava por momentos de esperança e chegava a ver a melhora no rosto da Lili. Veio o sono, vieram as pessoas com seus imensos bocejos, minha mãe ajeitou uns panos ao pé de sua cama, onde adormeci apesar do choro, por ser um choro muito débil.


Amanhecia nas frestas da janela quando acordei com os gritos de minha mãe, que me atravessaram o corpo como corrente elétrica. Não houve tempo para qualquer dúvida: a percepção já veio prenhe de conhecimento.


Saí pela porta da cozinha, atravessei o campo, ganhei a estrada e caminhei. Caminhei muito, pois queria encontrar o fim do mundo. Queria entrar numa dimensão diferente onde tudo fosse mentira. Finalmente, cansado, deitei no barro da estrada, os braços abertos e o sol querendo enxugar minhas lágrimas. Era a mentira, que me faltava, mas mesmo os sonhos não mentem.


Bem mais tarde, todas as lágrimas gastas, a voz rouca, me levantei, pois era preciso voltar para aquela casa de tios desconhecidos. Foi no caminho de volta que descobri: nunca mais quero ser pai.       



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