quarta-feira, 10 de julho de 2013

QUESTÕES DE ESTÉTICA DA LITERATURA (61)


Eugene Sue

Continuação das considerações que o Dr. Vítor Manuel de Aguiar e Silva vem desenvolvendo a respeito das diferenças entre literatura e paraliteratura.

Pág. 129 - "Esta 'inversão de ótica' (a transição da literatura para a paraliteratura - fenômeno diacrônico) constitui um fenómeno verificável em todas as literaturas, mas torna-se indispensável clarificar os seus fundamentos, a sua dinâmica e as suas consequências. Em primeiro lugar, é necessário não confundir este fenómeno - transição de uma obra do domínio da literatura para o domínio da paraliteratura - com o fenómeno da desqualificação ou degradação do valor atribuído à obra de certos escritores que, incensados na sua época, lidos por um numeroso público, laureados academicamente, figurando nos livros escolares seus contemporâneos como modelos literários e linguísticos, vêm a cair, passado algum tempo após sua morte, no esquecimento geral, sem público leitor que justifique a reedição dos seus textos, julgados pelos manuais de história literária como autores de segunda ou terceira categoria, gradualmente segregados das antologias literárias organizadas para o ensino.
Este fenómeno, com motivações intrinsecamente estético-literárias e motivações socioculturais - factores estes nunca dissociáveis e sempre sujeitos a variações diacrónicas -, tem a sua contrapartida na redescoberta, na reabilitação e na revaloração de alguns escritores esquecidos, menosprezados ou até exautorados pelo público da sua própria época e que podem adquirir, para leitores de épocas subsequentes, particular valor e grande importância tanto no plano estético como no plano sociocultural. A passagem de uma obra do âmbito da literatura para o âmbito da paraliteratura representa sempre uma desqualificação estética - e falar de 'paraliteratura' em vez de 'infraliteratura' ou 'subliteratura' não modifica substancialmente os dados do problema -, mas a secundarização post mortem da obra de um escritor hiperbolicamente valorada durante a sua vida não representa necessariamente a sua reclassificação no domínio da paraliteratura. Se assim acontecesse, ter-se-ia de fazer equivaler 'literatura' a 'grande literatura' e seria forçoso excluir da literatura, relegando-as para o campo da paraliteratura, as obras de muitos autores minores. Pelo contrário, estendemos que, num plano teorético e analítico, a diferenciação entre o estético e o não-estético não pressupõe a problemática do valor estético e que, consequentemente, a (pág. 130) distinção entre literatura e não-literatura não é função do valor literário. Um texto inscreve-se no âmbito da literatura, porque, sob o ponto de vista semiótico - compreendendo, portanto, o parâmetro semântico, o parâmetro sintáctico e o parâmetro pragmático -, ele é produzido, é estruturado e é recebido de determinado modo, independentemente de lhe ser atribuído elevado, mediano ou ínfimo valor estético; um texto inscreve-se no âmbito da paraliteratura, não porque possua reduzido ou nulo valor estético - carência de que compartilha com textos literários -, mas porque apresenta caracteres semióticos, nos planos semântico, sintáctico e pragmático, que o diferenciam do texto literário.
O texto paraliterário depende do mesmo sistema semiótico, considerado como mecanismo pancrônico, de que depende o texto literário e nele actuam os mesmos códigos, considerados como entidades semióticas abstractas e transculturais, que actuam num texto literário. Num romance de Paul Féval ou num melodrama de Pixérécourt funcionam, como num romance de
Flaubert ou num drama de Musset, códigos estilísticos, códigos técnico-compositivos, códigos semântico-pragmáticos. Mas os signos, as normas e as convenções, a capacidade e o sentido modelizantes destes códigos são heterogéneos num e noutro domínio, porque são heterogéneas tanto as relações intra-sistémicas dos citados códigos, as suas relações com a tradição literária, isto é, com a memória do sistema semiótico em que se integram, como as suas relações intersistémicas e extra-sistémicas, isto é, as suas relações com outros fenómenos culturais, de natureza histórica e sociológica, e com fenómenos não-culturais."

(CONTINUA)

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