Mais um conto inédito:
O Aeroporto
Quando acordou e viu que todos os
passageiros desciam levando suas bagagens de mão, Airton pegou sua mochila e
também desceu. Na escada já sentia no rosto o vento frio, cujas rajadas mexiam
com seus cabelos. Olhou o prédio largo e alto do aeroporto, examinou com
atenção uma imensa placa metálica e concluiu que se tratava provavelmente do
nome, ou do próprio aeroporto ou da cidade aonde chegaram. Os sinais gráficos
quase gigantescos da placa, entretanto, não lhe diziam nada. Mas não parou, seguindo
o caminho trilhado pelos outros passageiros.
A maioria encaminhou-se para a
sala das esteiras, onde as malas seriam distribuídas. Na porta de correr,
Airton parou indeciso. Não se lembrava de haver trazido bagagem além de sua
mochila. Por isso continuou até o imenso saguão, esperando encontrar algo ou
alguém que lhe desse alguma pista do lugar em que se encontrava. Guichês de
chek in, bares, uma livraria. E muita gente com cara de seres comuns,
caminhando apressadamente na ida como na volta, a cabeça erguida e a mão
amassando a orelha com um celular. Todos eles falando ao mesmo tempo sem se
importarem de incomodar ou de serem incomodados. As palavras, se é que eram
palavras, eram tão estranhas quanto os sinais gráficos percebidos na chegada.
Ninguém ria.
Airton descobriu uma cadeira vaga
ao lado de uma mesinha à espera de cliente. Ah, sim, sua mochila não era muito
leve, e as pernas latejavam destreinadas em andar a volta, sem rumo, como numa
dança cujo destino é o mesmo objetivo: dançar. Apressou-se a tirar uma ficha,
como via outros passageiros fazerem. Percebeu claramente que o caixa se dirigia
a ele, por causa de um olhar dirigido a sua testa, e não entendeu o que lhe
dizia, mas supôs. Apontou para o balcão de vidro e disse em sua língua que queria
um daqueles ali. Com o dedo indicou a quantidade e o caixa, surpreso, olhou
para cima. Novamente teve de supor, sem entender o preço. Abriu a carteira e
mostrou ao homem com cara de pessoa comum, mas que não portava um celular, uma
cédula, uma das de maior valor que tinha. O homem, que além de cara de pessoa
comum, aparentava idade avançada, começou a rir. Ria e dizia alguma coisa
impossível de ser língua de gente. Em pouco tempo a cena já tinha atraído umas
dez pessoas que falavam, riam e apontavam para sua cédula e seu valor.
Mas Airton já estava com fome.
Tentou uma segunda lanchonete, de
onde sentia o cheiro de carne assada a subir da chapa. Não teve público, como
na primeira tentativa, todavia o resultado não foi diferente. A mulher que
tomava conta do caixa parecia dizer alguma coisa que Airtom supunha ser o
preço, e sacudia a cabeça com um sorriso bondoso nos olhos um pouco espremidos
e nos lábios invadindo suas bochechas. Novamente não foi servido.
Foi até o fim do saguão, deixando
para trás duas escadas rolantes e os painéis cobertos de sinais gráficos
luminosos e de várias cores, supostamente letreiros com indicações de voos,
destinos e horários de que tanto necessitava para se localizar, mas cujos
significados não alcançava. No fim do saguão, pelo menos, encontrou uma cadeira
onde descansar.
Quem não reconhece num aeroporto
uma aeromoça?, Airtom se perguntou ao mesmo tempo em que se jogava à frente de
uma jovem com o cabelo em coque, saia e blusa do mesmo tecido e cor, e, na
cabeça, um casquete decorado por duas asas de uma ave metálica. Espantada, a
moça parou e ficou mirando atenta aquele homem à sua frente. Airtom falava três
línguas, uma nacional e duas de uso praticamente universal. A aeromoça
continuava espantada e seus olhos muito abertos eram dois pontos de
interrogação.
Duas horas de descanso, Airtom
teve uma ideia e se culpou por até então não ter pensado nisto: Levar sua
passagem até algum guichê, onde fatalmente receberia alguma informação. Ao
levantar-se e ajeitar a mochila nas costas, ele sorriu satisfeito, a solução
ali, a poucos passos de distância. Os funcionários da primeira companhia
consultada, pegaram seu bilhete, chamaram outros funcionários, conversaram,
provavelmente falavam pois mexiam os lábios e faziam gestos com as mãos, por
fim devolveram-lhe a passagem dizendo muitas coisas, quase gritando, sacudindo
a cabeça.
Só depois da quinta tentativa,
Airtom desistiu.
Cansado e com fome, a noite
escondia-se por trás da iluminação interna do aeroporto, concluiu que já se tinham
passado muitas horas. O movimento de pessoas com a cabeça erguida e um celular
grudado no ouvido havia diminuído. Só então lembrou-se de que trazia também,
preso à cinta, um aparelho daqueles. Finalmente, pensou.
O celular continuava desligado,
pois Airtom se esquecera completamente dele desde o desembarque. Ligou e
esperou algum tempo. Pequenas luzes e belas palavras familiares foram
aparecendo na pequena tela, para renovação de sua esperança. Sentiu que a testa
estava úmida e procurou o lenço nos bolsos. Por fim, ficou um tempo parado, em
dúvida − não se lembrava de haver trazido algum. Acabou usando a manga da
blusa, julgando-se um boçal pelo comportamento grosseiro, mas perdoando-se ao
refletir que a situação altera os padrões e valores.
As luzes se estabilizaram na tela
do celular: ligado. Airtom discou o número provável de sua casa. O aparelho,
entretanto, não pegava sinal. Andou alguns passos, sempre de olho na tela, e
nada se alterou. Atravessou uma porta de vidro, aberta com sua aproximação, e descobriu
que já era tarde da noite. Seu celular, mesmo debaixo do céu, não encontrava
sinal.
Airtom voltou ao saguão e pôs-se a
gritar, fazendo gestos angulosamente agressivos com os braços. Ninguém pareceu
perceber sua presença, até que um homem se aproximou falando ao telefone. Não
demorou muito para que aparecessem dois supostos guardas, pois estavam
uniformizados e portavam revólveres pendurados da cintura. Cada um dos dois
pegou em um dos braços de Airtom e o levaram embora.

Que desespero... falar e não ser ouvido!! Todas as impossibilidades de comunicação possíveis. hehehe. Pobre Airton!
ResponderExcluirMais ou menos como todos nós, Mari.
ResponderExcluirFalar e não ser ouvido ou compreendido, gritar e ser recolhido - parece um mundo que eu conheço...
ResponderExcluirBela alegoria.