quinta-feira, 26 de junho de 2014

CANTIGAS DE AMIGOS


O poema que segue está no livro Ensaios da Tarde, da minha amiga Mara Senna.

O que não pode ser

O que não pode ser
não se contenta em ficar guardado
nos porões
ou escondido nos desvãos.
Traz no peito convicções anêmicas,
na boca uma recusa fajuta
e tanta ternura entranhada
no corpo
que chega a sentir uma coisa
que fere por entre as costelas.
Por vezes, veste-se de coragem
e despe-se dos seus pudores.

Mostra os seus humores,
prepara a mesa
e faz um alvoroço
que se faz ouvir até a esquina.
Mas, ao menor sinal de encontro,
treme
e recolhe-se mais uma vez à sua sina
de não ser.
E volta a latejar lá no fundo,
tentando derrubar paredes.

Um comentário:

  1. A poeta (poetiza) equilibra com mestria a complexidade dos extremos poetizados. Os seus poemas parecem conversar com o leitor (como ensinava Wolcott Gibbs, do The New Yorker).
    Excelente publicação; excelente poema. Augusto Aguiar.


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