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quarta-feira, 11 de novembro de 2020

CANTIGAS DE AMIGOS

É ASSIM QUE PEGA

(Cláudio Willer)

2*

O poema que deixei de escrever em 1965:

As ruas são de ácido e os túneis estão em chamas
O pé é lisérgico
A mão é um mantra
As Índias Ocidentais ficam logo aí, basta dobrar a esquina
- nós somos as Índias Ocidentais

E eu também já escrevi assim:

sábado do continente imerso

domingo da cidade que respira
segunda-feira da poesia que me toca
terça do mundo que recomeça
quarta para ler um poema com ênfase
quinta do sono azul
sexta da sabedoria
sábado: todas as cores
da rapidez
da vertigem


*  Para ler a parte 1, ma 1, clique aqui

terça-feira, 10 de novembro de 2020

ORELHA

 Esta coluna reúne comentários de Menalton Braff a livros de outros autores.

Palavras coloridas

Jean-Paulo Sartre, na tentativa de dar resposta à pergunta “o que é isso, a literatura?”, acabou criando aquela metáfora simples e esclarecedora das palavras coloridas. Na linguagem informativa, a linguagem de todo dia, não vemos o vidro através do qual nos chega a realidade. Ele, o vidro, é transparente. Não é o que ocorre na literatura, em que o vidro está pintado e suas cores chamam a nossa atenção. Assim é a poesia do prosador e poeta Gilberto Abreu, que neste Lorca balada louca, sétimo livro de sua autoria, consegue, do início ao fim, manter o equilíbrio entre os dois planos de que se compõe a literatura: o plano da expressão e o plano do conteúdo. Já não se fala mais da neutralidade da palavra, e, mesmo quando colorida, ela é suporte de significação.

Desde Feto outonal, de 1975, passando por A minha primeira morte, ambos de poemas, seguidos pelo livro de contos Chão de mundaréu, de 1985, e pelos dois romances, Mande beijos a Gardel e Nossas roupas comuns dependuradas, pode-se entender como o carimba de sua marca o duplo objetivo: a fruição, a emoção estética, sem descurar uma aguda reflexão sobre nossas condições de seres humanos.

Nessa carreira que já lá vai pra mais de trinta anos, Gilberto Abreu foi amadurecendo seu estro, mas sem esquecer alguns princípios que sempre o nortearam.

Ele chega ao Lorca balada louca com muita experiência na bagagem, além de um dos mais importantes prêmios da literatura brasileira, o Prêmio Guimarães Rosa, conquistado com Mande beijos a Gardel. 

Neste livro, alternam-se ruptura e tradição. Há poemas de versos livres e brancos em meio a outros em que há traços de rima e métrica. Traços, porque não existe mais aquele rigor de usar fita métrica para versejar nem os esquemas rímicos seguem a tradição. E isso significa que a espontaneidade do verso substitui a camisa-de-força das técnicas de versificação. Mas não nos enganemos, a ausência de isometria não dispensa a unidade rítmica tensa dos versos, mesmo quando livres.

Considerando outras dimensões de sua poesia, o que se encontra neste Lorca balada louca, são homenagens a seus irmãos poetas, como Lorca, Octávio Paz, Drummond, e muitos outros. Do poema inicial do livro − Ode a Federico – são os versos Federico,/há em tudo, todo um lamento./Gritos ecoam nas sombras,/ vozes de mortos no vento... E é bem clara a alusão às tragédias da Guerra Civil Espanhola.

Há várias cidades citadas, todas elas, ou sua maioria, por terem recentemente testemunhado até que ponto pode chegar a brutalidade humana. O autor de Globalização pra quem? (2006), um livro de ensaios, é cidadão do mundo, tem consciência de que navegamos um barco diminuto, muito diminuto, para que nos preocupemos apenas com o fundo de nosso quintal. Da estirpe de um João Cabral de Mello Neto, por uma parte de seu projeto estético, a certa altura, quando pede à musa sua frauta, doce avena, ele diz:

Um cântico

que soe metálico

que aborreça

que acorde os homens

não que os adormeça.

(...)

E ainda sobra espaço para falar daquela Bárbara, a Heliodora, a quem, da prisão, Alvarenga Peixoto, seu marido e um dos inconfidentes, enviou os versos com que eternizou sua memória.

Este livro do Gilberto Abreu é um passeio pelo mundo contemporâneo, um périplo pela cultura universal, numa carruagem toda colorida que se chama poesia.

quarta-feira, 28 de outubro de 2020

CANTIGAS DE AMIGOS

 PERSONAGENS

(Ruth do Carmo)


Por caminhos da memória,

você bate portas, pai.

E eu, criança, procuro-te no escuro

das ruas onde tudo já está fechado.

A mão da mãe põe forças em mim,

enquanto te procuramos e é meia-noite.

Era uma vez noites assim...


Hoje há verdades maiores no músculo vermelho.

E talvez alguma espécie de perdão.

Já passou. Já passou...

E já parecemos personagens.

quarta-feira, 21 de outubro de 2020

CANTIGAS DE AMIGOS

NOCAUTE*

(Carlos Bueno Guedes)

ali estava meu corpo entre cordas
como se estivesse num chiqueiro do poder,
pago para apanhar
o cinto de ouro de meu rival
tinha o brilho do ódio,
olhava fundo,
sacudia as luvas ,
no primeiro round
um golpe na minha nuca,
os covardes se escondem atrás do poder,
a plateia delira,
me seguro nas cordas,
as pernas bambas,
no segundo round procuro dançar,
prolongar o ritual,
abro as guardas
uma pancada no nariz,
senti que o sangue escorria
a plateia aplaudia
encostei no corner
o batedor escapava escarnio,
senti minha fragilidade
de ser apenas humano,
o corpo ainda suportava,
perdi o equilíbrio
cai e me levantei
no corpo os golpes duros da opressão fotografias de um tempo
vivido sofrido angustiado
no terceiro round
algodão eram como neves de meus sonhos,
a dignidade me mantinha em ser resistência,
meus golpes não atingiam
eram danças no vazio do ringue,
ali estava assombrados dos golpes,
agarrava o adversário, dançava de pernas cansadas,
até o quarto round
quando a plateia urravam
o fim
ainda pude sentir
que toda resistência saia de meu equilíbrio,
ainda pude saber que estava caindo
dentro de um negro abismo
em que o poder me enviou,
para sofrer na carne
uma queda que nunca terminaria !


* (poesia imaginada dentro de um hospital, o poeta tem que estar dentro de seu tempo, poesia a pensar em todos os grandes poetas que convivem comigo e ao grande autor meu irmão do longe Afonso Valente Batista , grande escritor português, brevemente a ser editado no Brasil ! As palavras vieram como golpes e fico desacertado de tombar entre elas ! Escrito em 14/9/2020

quarta-feira, 14 de outubro de 2020

CANTIGAS DE AMIGOS

 Tocaia ou a cidade e seu nome

(domingos moreira)

Tropeiros e jagunços se foram
coronéis permanecem do poder local ao Palácio do Planalto
Querem ver a cidade crescer e dividir suas desigualdades
Personagens obscuras trancadas em seus mundos
sem nada permitir ou partilhar 
que não seja dor e ódio 
Ficção e realidade 
uma não é a outra
Mulheres fortes e livres
ou melhor mulheres

quarta-feira, 7 de outubro de 2020

CANTIGAS DE AMIGOS

 O voo dentro do ovo  

(Mara Senna*)

Há uma luz no fim do túnel
e não é um trem em direção contrária.
Há uma canção em meio ao caos,
e não é um acaso.
São vozes que entornam suavidade
nesses dias maus.
Encosta teu ouvido no chão e escuta os passos,
cada vez mais próximos.
Há um caminho novo que pulsa,
como se fosse o voo dentro do ovo,
Há um bater de asas, inédito,
como se fosse o céu a ser inaugurado
dentro do pássaro.

* in O quarto da memória, Editora Patuá, 2019

quarta-feira, 30 de setembro de 2020

CANTIGAS DE AMIGOS

X

Gosto das imensidões que brotam das pessoas. Outro dia chovia um verso tímido na boca de uma mulher. Pensei em lhe emprestar um sol que carregava no bolso. Pouco entendo de sol. Mas acendo palavras quando me sinto sozinho. Daí o sol no bolso, o medo de anoitecer como uma ausência.

quarta-feira, 23 de setembro de 2020

CANTIGAS DE AMIGOS

 A CRIAÇÃO DE ADÃO

(a Michelangelo)

Raquel Naveira


Fascinante a imagem

Do primeiro homem,

Pura manifestação,

Sujeito e objeto

Das mãos de Deus.


No afresco da capela,

Do lado direito,

O Velho,

De barba e cabelos brancos,

Peito aberto,

Entronizado ao centro de uma concha,

Um crânio,

Um cérebro perfeito:

Glândula partida ao meio,

Recheada de anjos,

Miolos,

Nervos.


Sobre seu ombro,

Os olhos de uma mulher ruiva

Na expectativa

De vir a ser Eva.


Do lado esquerdo,

Um jovem,

O corpo dobrado,

Mergulhado

No verde de um prado,

Lânguido,

Estendendo a mão fraca.


Entre os dedos indicadores

De Deus

E do moço

Há um espaço,

Um vazio,

Uma trinca,

A falta de um osso.


Um toque

E haverá dom,

Conhecimento,

Linguagem,

Visão,

Energia,

Modelação de argila,

Vísceras,

Espírito,

Lampejos da mente,

Adâmica criação.

quinta-feira, 17 de setembro de 2020

ORELHA

 Esta coluna reúne apresentações de livros escritas por Menalton Braff.

Desproteção

Volto a me encontrar com a poesia do João Augusto, neste Sem a sombra de um guarda-chuva, e é um reencontro prazeroso. O poeta, percebe-se, é o mesmo, mas depois de um ano, pouco mais ou menos, sua poesia me dá a impressão de amadurecimento no melhor sentido do termo.

No plano da forma, encontra-se uma utilização mais rica dos recursos poéticos, dentre os quais se deve destacar a elaboração do verso. Quando se aboliu métrica e rima (Futurismo, Modernismo), muito poeta menor pensou que se abolia o ritmo e passou a cortar aleatoriamente suas frases pensando que fazia poesia com isso. O verso é uma unidade rítmica e não apenas a partição arbitrária da frase prosaica. Sem isometria, mas com ritmo, esse é o verso do João Augusto, que isso sim é poesia moderna.

Suas metáforas continuam insólitas, chegando em muitos poemas a beirar o Surrealismo de forma natural, como uma necessidade de sua poesia. É o caso, por exemplo, do verso abaixo, de seu poema Realinhamento: 

É reduzir o tempo e redobrar as roupas

Não se deve esquecer que literatura não é comunicação, mas expressão. Para aqueles habituados a uma leitura referencial, de primeiro nível, é necessário que se diga que a poesia deve afetar o leitor, não como lição, mensagem ou qualquer outro dos equívocos que correm por aí. Não há uma aparente relação entre as partes do eixo sintagmático, mas a leitura profunda vai revelar que reduzir o tempo implica uma diminuição (da vida?, da viagem?, do trabalho?) parente próximo de redobrar as roupas, ou seja, uma atitude estática e uma ação. Mas a literatura é texto aberto, e outras interpretações não seriam despropositada, como não seria despropositada a ausência de interpretação, que é sempre a paráfrase do poema, é a tentativa de racionalizar o que muitas vezes é irracional (no sentido nitzscheano).

Burlesco

A humanidade é uma graciosa farsa/ Mas os chimpanzés são mais ousados/ Porque troçam e pilham/ Animais enjaulados/ Nem troçamos nem pilhamos/ Repetimos os monos e rimos/ Mais com as sobrancelhas/ Que dão guarda ao coração/ Olhos de anfíbios/ Que expelem veneno/ Tão natural e abundante/ Como a saliva que pulsa/ Em minha sua boca/ Cheia de dentes/ Esperando a cortina/ A encerrar o copo/ De alucinações

Eis um poema, um belo poema em que a “escrita automática” propugnada por Breton é instrumento de beleza.

No lirismo reflexivo de João Augusto, pressente-se a busca desesperada da identidade e dos sentidos da vida. São cinquenta e cinco poemas sem desnível, porque todos da mais alta qualidade poética.

quarta-feira, 16 de setembro de 2020

CANTIGAS DE AMIGOS

IX

(João Augusto)


“Assim como lavamos o corpo deveríamos lavar o destino, mudar de vida como mudamos de roupa — não para salvar a vida, como comemos e dormimos, mas por aquele respeito alheio por nós mesmos, a que propriamente chamamos asseio.”

(Fernando Pessoa, por Bernardo Soares, em O livro do desassossego)


Escutei que alguns lugares se movem
dentro de nós.
Vou me desfazendo de mim,
enquanto escrevo.
Para que o que tenha que passar, passe.
Mas guardo o que se prende em cada instante,
por medo de que me falte a sorte da eternidade.
Sou o mar irrompendo entre as fases da lua:
ao passo que cresço, minguo e recomeço.
O amor suspenso no peito do poeta.
No amor, em qualquer posição,
estamos sempre suspensos.
A vida a lavar o seu destino,
o meu destino, como Pessoa varria
as folhas da calçada,
nas manhãs portuguesas.
Não há nada que dure
nesses tempos estranhos.
Teu nome à sombra da paz e
dos pássaros.
Escrevo o fruto seco da poesia.
Ouve a voz dos sinos antigos.
Sigo, mesmo hoje,
o zepelim que sobrevoou
o meu passado.
Do que me é são,
tenho por certo que
minhas fadas envelheceram.
E estou tão velho
que já me ameninei de novo.
Traducere, do latim: conduzir,
pela mão, a algum lugar.
Onde há o verbo, um poeta é deus,
mesmo em seu ridículo universo.
Onde há gravidade, um aviador é deus,
mesmo que dentro de uma máquina.
Onde há a fantasia de amar,
qualquer um pode ser deus,
e fazer com que novos lugares se encontrem,
ainda que perdidos, no meio de nós.

quarta-feira, 9 de setembro de 2020

CANTIGAS DE AMIGOS

 Soneto da casinha verde

(Lincoln Campos de Carvalho)


Quando estavas aqui, te via de um jeito moleque,

moleca que tu eras, de ar serelepe,

de roupas alegres e meninice escaldante,

bochecha rosada e olhos brilhantes.

 

Levavas no rosto um sorriso estampado,

brincavas de roda de cabelo trançado,

de pernas magras na areia macia

tocavas os que vinham com tua alegria.

 

Choravas baixinho, querias subir no telhado,

parecias mais um menino a correr no cerrado

descalça com tuas sardinhas, a brincar por aí.

 

Eras a mais arteira e a mais bonita,

moravas numa casinha verde, esquisita,

a mais pobre, a mais rica... a mais bela que já vi!

 


quarta-feira, 2 de setembro de 2020

CANTIGAS DE AMIGOS

 MANTEIGA                               

(Jared F. Baungartner)


Temos apenas doze dias,

desgastem suas expectativas.

Não há segredos.

Do outro lado

tudo é igual

As mesmas pandemias (e pendências)

mostrando aos monstros

que conduzem o racional,

quantos fins do mundo

teremos que viver

para compreender

que o homem

é mais a rasura

do que a evolução.

DEVERIA SER?

Sou manteiga derretendo

sem pretensão.

Sou apenas ebulição.

Manteiga derretendo no chão...

quarta-feira, 26 de agosto de 2020

CANTIGAS DE AMIGOS

 NOIVA*


(Raquel Nveira)


Casei-me com um ipê branco,

Suas raízes fincaram-se em meu sexo,

Suas ramagens

Se espalharam pelos meus seios,

Formaram guirlandas

No meu pescoço

E um véu sobre meus ombros.


Penetrei passiva

Num mar de leite

E lavandas.


A noite era de lua,

De bruma

E de glacê.


* Poema do livro ALMA DE IPÊ - Ia PARTE: IPÊS BRANCOS



quarta-feira, 19 de agosto de 2020

CANTIGAS DE AMIGOS

 PREPARO

(Ruth do Carmo)


O vestido de minha mãe

suavemente dança

no varal envelhecido.

Daqui observo as flores amarelas

que vieram ontem

fazer companhia às vermelhas.

Recém-chegadas, prometem vida.


A cada dia, aos poucos,

minha mãe esvai-se de mim,

na lentidão que anuncia partidas.

Sei que me prepara para quando serei,

de mim mesma,

absolutamente,

meu pai e minha mãe.

quarta-feira, 29 de julho de 2020

CANTIGAS DE AMIGOS

dandaras

(Mara Magaña)
negras
nuas em face
e fácil nosso tempo
pelas noites sem lua
negras cheias
em desgraça
nos querem...
negras cheias
de graça
nos pomos
peles de mil tons
almas de mil gênios
espíritos ancestrais
nos movem
ventre boca sexo
expelem
outras negras
áfrica caribe
américa latina
irmãs hermanas
negritas
pretinhas
sarará crioulas
sarará miolas
porque todas somos
uma e unas
firmina conceição
cora carolina
tereza de banguela
malunguinho
dilia fatiman
palacios indriago
solitude bélair
del valle de salas
nas letras
nas terras
nas lutas
nas guerras
gomes garvey
laya moyanos
e elza soares
da forja de
dandaras
marielles
a nosso dispor

quarta-feira, 22 de julho de 2020

CANTIGAS DE AMIGOS

SALDO                          

(Ernane Catroli)

Herdei - intacta - a casa
Um latejar
Mil culpas

Carrego a casa
e o que se equilibra
sob os ecos
de outras distâncias
Toda a tua ausência

quarta-feira, 15 de julho de 2020

CANTIGAS DE AMIGOS

VIII
 (João Augusto)

“A rua em torno era um frenético alarido.
Toda de luto, alta e sutil, dor majestosa,
Uma mulher passou, com sua mão suntuosa
Erguendo e sacudindo a barra do vestido.”
(Charles Baudelaire, em A uma passante)

Marte é menos estranho do que minha pequena biblioteca. O ser humano e todos os seus tormentos realizados. A racionalidade como uma escala da fantasia. Minha psicóloga diz que os submarinos não morrem, apenas se escondem melhor. No fundo, mesmo na engenharia que me funda como poeta, somos o extremo do sonho, o concreto da utopia. (Ao final dos meus anos, espero sair com vida.) Os homens guardados em retratos me pedem conselhos. Observo quadros urbanos, como um flâneur parisiense. A mulher que passa como uma lanterna, na noite acesa por olhos mudos, rouba-me a única palavra possível.


quarta-feira, 8 de julho de 2020

CANTIGAS DE AMIGOS

É ASSIM QUE PEGA

(Cláudio Willer)

1

Um hotel pode ser o navio fantasma.
Uma árvore, xamânica.
O que dizer de corpos estranhos? Estão aí, sempre.
E dos milagres da síntese?
Não, não é viajar no sentido de deslocar-se de um lugar a outro ou de estar em uma
cidade, um lago, enseada, montanha – porém do estado alucinatório que sobrevém e a
mais íntima sensação de não estar aqui e haver ido além.
Eu não morri em uma queda de avião
não me arrebentei na estrada
não me afoguei ao atravessar o rio Paranapanema cheio a nado
e aquele barco no canal de Ilhabela não virou nem foi levado pela correnteza

– acho tudo estranho, como foi possível..?
Sobram uns poemas, uma relatos de alucinações sólidas, mapeadas.
O natural é o verdadeiro sobrenatural.


quarta-feira, 1 de julho de 2020

CANTIGAS DE AMIGOS

A dor da gente 

(Sandra Modesto*)

A dor da gente
Um nó no peito em dó maior.
Depois os exames. Não tem mais jeito.
Cenário inesperado...
O sono profundo que enterra. Encerra.
Não há despedidas. Solidão.
Desnorteada. Sem velórios.
Dor de verdade não cabe num noticiário.
Não cabem nos jornais, os choros, gritos, a soma certa.
A estrada infinita do estranho mundo.
Valas. Não há vagas. Há marcas. Rimas perdidas.
Tudo vai passar? A dor de toda a gente, não.
O governo. O desmazelo com o povo.
Nada. O povo é nada.
A dor do mundo não cabe numa poesia.
E daí?
Daí o espasmo.
No próximo domingo
Quantas mães mortas?
Quantas mães arrumando o quarto...
Do filho que já morreu.
Tudo isso eu rasgo em lágrimas.
Eu vou silenciar o presidente.
Deixar de seguir o presidente.
Bloquear o presidente.
E daí? Eu me entrego ao acalanto de um amor:
_ Mãe, perdão. Ele não sabe nada de dor. A gente sabe.


*Mineira de Ituiutaba, professora aposentada precocemente. Graduada em Letras, pós – graduada em Educação. Dois livros publicados: Acenda a luz (prosa poética, editora Kazuá, 2015) e Tudo em mim é prosa e rima (Autografia, 2019). Cronista do CRÔNICA DO DIA e do JORNAL DE CARUARU. Poemas publicados em duas antologias: Elas e as letras, diversidade e resistência, editora Versejar e Ruínas- editora Patuá. Contato: modestosandralucia@gmail.com

quarta-feira, 24 de junho de 2020

CANTIGAS DE AMIGOS

O bolo de fubá é minha madeleine proustiana, que convoca o passado e me remete à lembrança da minha MÃE e seu inesquecível bolo.

BOLO DE FUBÁ

(Vasco Pereira de Oliveira)

Farelos sobre a mesa.
Gosto de erva-doce
como um fundo musical
fluindo fundo da memória.
No abismo do tempo
o cheiro da canela em pó
levemente espalhada com açúcar.
Nossos mortos nunca morrem completamente,
estão guardados em nossa caixa de sapatos.
Habitam fotografias desbotadas
de onde nos olham com olhos baços pelo tempo.
A ausência é uma cadeira vazia à mesa
onde pardais recolhem migalhas
de um bolo de fubá.