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É
estranho quando você começa a ler autores brasileiros constantemente, pois daí
percebe-se que não conhecemos muito da nossa produção, principalmente quando se
fala em Ficção. Ultimamente, por mais que se diga, ainda, que a poesia é pouco
lida, com a inserção forte de editoras independentes, como a Patuá, que visam a
poesia como produção principal da sua linha editorial, esse gênero vem obtendo
um pouco mais de força no mercado editorial.
Eu
preferiria dizer que o conto ainda é muito pouco lido, quiçá as crônicas, pelo
leitor daqui. É sempre preferível ler obras extensas, fantásticas ou
fantasmagóricas – eu que pensei que essa moda iria passar – do que pararmos
para ler uma obra que fica ali, quietinha, na sombra das estantes, esperando o
momento certo de alguém passar e seus olhos encontrarem consigo. Talvez seja
essa a representação que eu tenho do livro de Menalton Braff, “À sombra do
cipreste”, publicado pela Global.
Quando
o livro chegou pelos correios, a primeira pergunta que fiz foi: “Quem diabos é
esse cara?”. Lógico que fui até o Google pesquisar. Poucas eram as informações
que poderia se obter sobre o livro e, até mesmo, sobre o autor. Apesar de na
capa do livro constar que a obra foi premiada pelo Jabuti, no ano 2000, não na
categoria de contos, como eu poderia pensar, não indicava que o livro levou o
prêmio de melhor de Ficção do ano. Como assim, eu questionei. Como poderia ser
possível que um autor que ganhou um Jabuti, sem ser na categoria do gênero em
que escreve, pudesse vir a ser tão desconhecido? Eu saí a perguntar entre
amigos, escritores e editores, e apenas um punhado soube me dizer quem era
Menalton Braff. E só pensei o mais óbvio, como todo e qualquer leitor pensaria,
“Nós não lemos nossos autores mais”.
É
claro que eu posso estar equivocado. Não retiro essa ideia, mas é um pouco
demasiado quando um livro como esse nos chega à mão. Já de início, fiquei a
rir, sozinho, vendo a avó a passar o tempo e se
divertindo com os disparates do
que nos parece ser sua família, seus descendentes e agregados. O conto que leva
o mesmo título do livro, já mostra, de maneira sugestiva, um fio de narrativa
que permeará todo o livro. A questão de estar à sombra, escondido, ou contido
em uma calmaria é algo que é relatado com muita tranquilidade pelo autor e que
merece, realmente, uma atenção em como isso estruturado.
A
própria avó, escondida dentro de casa, que finge não ouvir ou não entender o
que lhe dizem, tem voz rígida quando pensam em derrubar o cipreste que fica em
seu jardim. Nesse momento, ela ressurge e conta que ele ali já estava quando
ela ‘se deu por gente’. O que poderia, talvez, ser relacionado com o próprio
andamento da sombra durante o dia. A avó, que prefere ficar em sua calmaria,
calada, percebendo o que lhe ocorre ao redor, em um súbito momento, como se
estivesse a desaparecer com a chegada da noite, resolve proferir algo para
deixar claro o seu desejo de manterem o cipreste, consequentemente a sombra.
Os
contos são curtos, mas alguns de uma dramaticidade carregada de uma intensidade
que nos faz poder ter aquela sensação de
se arrepiar, que atualmente é tão difícil de encontrar, como no “O voo da
águia”. A frase que é dita no entremeio da narrativa até agora reverbera em
mim, devido ao final do conto: “Então, é isso é que é a vida?”. Se for isso,
preferirá Aquiles voar como uma águia.
O
que fica perceptível em mim é que Braff consegue, de maneira singular, criar
histórias que vão sendo refeitas à medida que lemos. Parece que ele apenas
sugere o que deveria acontecer, deixando, em alguns momentos, por nossa conta
preencher o vazio que ele não nos disse. Mas a criação desse vazio é que o
torno diferente de tantos outros escritores, demonstra a experiência em uma
escrita que não pode ser vista como a de um iniciante, essa é que é a verdade.
O
prêmio concedido a Menalton Braff, aparentemente, não o trouxe à luz da maioria
dos leitores brasileiros. Mas, aos poucos, sua obra sairá das sombras e poderá,
não apenas durante a noite, entremear os nossos quartos, nossos corações, e
poderemos entender que o nosso cotidiano é muito mais profundo do que
percebemos. O melhor deve estar sempre à sombra? Bem, talvez seja isso que
Braff quer nos dizer, ou talvez apenas queira nos sugerir que algumas coisas
nos passam despercebidas e que elas são tão importantes como as obras que,
muitas vezes, não conseguimos conhecer.

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