
Não sou canibal
O café me queimou a língua apressada, e saí para o campo
mastigando ainda um pedaço de pão. Na mangueira, a Mimosa, com suas malhas
pretas e marrons não estava. A trote
atropelado atravessamos o campo até o capão sem nada ver. As moitas sem
estatura para esconder um animal, mesmo que fosse minha vaquinha, não
atrapalhavam nossa busca. Beiramos a cerca, no seu correr, e fomos sair do
outro lado, o resto de pasto mais verde, de terra úmida. Então já podíamos
pensar que nos encontrávamos nas lonjuras, lugar pouco frequentado por estes
meus semoventes, que por aqui ficaram. Eu gritava o nome da Mimosa e ficava de
ouvido esperto esperando resposta. Mugido nenhum.
E eu, que não sou de acreditar em pressentimento, comecei a
palpitar algum dano, pois não faz muitos anos que andou aqui pelo distrito um
caminhão que deixou rombos em muita cerca. Reses e cavalos andaram sumindo.
Contornamos o capão e enveredamos pelo carreiro que vai dar
no alto da colina, um lugar de capim ralo, que não podia contar com a
preferência destes seres pasteiros, mas de onde nossa visão abrangia os
recônditos do espaço. A passo pausado, no aclive, o peso do corpo, chegamos ao
alto, de onde. De pé no estribo, mirei com meus olhos toda extensão. E vi.
No início, o que divisei, foi apenas a mancha diferente no
fosso. E uma vaga de suor me inundou quando me pareceu ter notado algum
movimento. A mancha que eu via misturava preto e marrom. Da distância.
A descida, apesar da pressa, foi ainda mais lenta, o cavalo
quase sentado no chão. O sol já estava no ponto de quente, mas não me
incomodava o sol. Eu só olhava querendo duvidar.
Chegamos, finalmente, ao início da várzea, e o rebenque fez
o cavalo galopar. Não era muito grande a distância a percorrer aquela malha de
campo seu capim verde mas lagoas e valetas um tanto delas havia lagoas e
valetas das quais era preciso que a gente se desviasse por isso mantive os
calcanhares cutucando as ilhargas do animal cutucando rápido até ele demonstrar
muito boa vontade para com minha urgência.
Antes que o atropelo do galope terminasse, solavanco brusco,
eu já estava no chão correndo. Era mesmo a Mimosa, de pernas para cima,umas
pernas, sem poder se aprumar. Pulei dentro do valo e corri até sua cabeça, onde
uns olhos grandes, lacrimejantes, me pediam socorro. Há quanto tempo ali presa,
entalada nos barrancos? Três corvos com suas roupas de luto circulavam no azul,
à espera, espertos, contando as horas.
E aquela posição?, uma coisa errada seu corpo dobrado como
estava: paleta e anca perto demais, em proximidade. Suei novamente, o suor do
medo. Foi quando voltei para o cavalo e galopamos endoidecidos, a Mimosa nos
meus olhos, grudada. O vento vindo veloz penetrava nas minhas ideias, e aquela
mais renitia era Quem me ajuda?, porque em casa, o que eu tinha, e tenho, é uma
mulher e as duas crianças, sem traquejo de lidar com animal. Passei pelo
terreiro no mesmo galope que vinha e me atirei pra casa do vizinho, que decerto
àquela hora ainda não tinha saído de casa.
O Juvenal, que encontrei na porta da cozinha lá dele,
entendeu minha história assim como minha pressa e não levou mais do que meio
minuto para estar montado no seu baio a meu lado, correndo de volta.
Na beira do fosso, pulamos de cima dos cavalos, e o Juvenal
gritava Ehê! Ehê! como se quisesse dizer tudo que passava por seu pensamento.
Chegamos juntos ao lado da Mimosa, que pareceu espantada, por isso ela
esperneou um pouco e me pareceu que por fim se acalmava. Meu vizinho levou a
mão por baixo, apalpando em investigação. Depois me olhou triste. E sacudiu a
cabeça.
O espinhaço, ele disse, jeito nenhum que se dê.
Pulei pra cima do barranco e me virei de costas, mas os
ouvidos perceberam o mugido rouco, vindo do peito, baixo e grave, e o ar puxado
pelas ventas fez ruído que até os cavalos se excitaram, com nervos. Eles sabem
de tudo.
Os olhos vidrados da Mimosa, posso esquecer? Com os dois
cavalos e as cordas conseguimos puxar minha vaquinha para cima do barranco. Ela
quis pular, dizia o Juvenal, uma coisa que eu já tinha percebido. O pasto mais
viçoso do outro lado. Mas não alcançou o barranco do lado de lá. Ainda tivemos
de ajudar empurrando por trás.
Ele, meu vizinho, desabalou com seu baio, para as vasilhas e
ferramentas, enquanto fiquei ali sozinho, tirando o couro sem segurar o choro.
Ela ainda quente perdendo sua cobertura preta e marrom. Como um cobertor.
Quando ele voltou com mais gente e vasilhame, a Mimosa já estava
fora de seu couro.
E eu que tinha botado toda minha esperança nesta vaquinha,
boa parideira, bezerros que ia criando, nos tempos, me arrumando com a família,
os rendimentos crescentes. E ela parecia entender meu pensamento, amiga do
jeito que se pôs. Agora, o que é que eu tinha? Bastante carne, e outros
apetrechos necessários a um vivente: os de dentro.
O Sol já estava a ponto de sumir quando veio a carroça e
carregou com tudo para cima, aqui em casa. Tudo salgado, retalhado, repartido
nas caixas, bacias e gamelas. Era muita carne, além dos miúdos e outras partes.
Quem inventou o churrasco, como se vê, foi minha mulher,
esta daí, achando difícil guardar sozinha tantos quilos: os espaços.
Alguns devem estar estranhando as lágrimas, que eu não posso
esconder. Eles comem com bom apetite, mas pra mim isso é impossível. Seria como
me botar a mastigar alguém da família: não sou canibal.
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