E para encerrar a utilização do livro Literatura e resistência, do professor Alfredo Bosi, fragmentos do tópico Resistir é preciso, do capítulo Os estudos literários na era dos extremos.
"Nesse quadro de polaridades, preenchido, de um lado, pelo hiperrealismo brutalista (aparentemente sem véus nem máscaras) e, de outro, pela hipermediação literária e retórica, parece restar pouca margem para a consciência mediadora. Esta, de fato, se acantona em uma faixa estreita e incômoda de resistência, que ora parece saudosista , ora utópica, nunca perfeita e cabalmente contemporânea do seu próprio tempo.
Ora, o estilo de crítica que reconhecemos, aqui e agora, como digno de nosso estudo e de nossa homenagem é, precisamente, aquele modo de ler em que sempre se consideraram as mediações e os processos de intersecção de criação individual e tradição cultural. Fomos instruídos na percepção de uma dialética forte, e, ao mesmo tempo, delicada, de indivíduo e sociedade, escrita e cultura, imaginação e memória social, invenção e convenção. "
(...)
"Mas hoje quem dá as cartas e conta os pontos do jogo é o vale-tudo do mercado ou, à sua margem, mas bem protegido pela Academia, o discurso sofisticado da desfiagem retórica."
(...)
O perfeito conhecimento, diz platonicamente Schopenhauer, começa pela perfeita reminiscência. Lembrar não só tudo quanto a humanidade vem pesando e sentindo e escrevendo desde Homero; mas reviver as formas libertadoras e contraditórias da modernidade, de que ainda somos feitos e sem as quais este nosso discurso seria oco ou mesmo inviável."
(...)
"Para terminar, lembro que o pressentimento de mudanças radicais na relação entre escritor e público, escritor e sociedade, já inquietava um crítico anônimo e obscuro dos anos 50. E só agora cito o texto que, a rigor, deveria servir de epígrafe a esta intervenção:
'Formaram-se então (a partir de 30) novos laços entre escritor e público, com uma tendência crescente para a redução dos laços que antes o prendiam aos grupos restritos de diletantes e 'conhecedores'. Mas esse novo público, à medida que crescia, ia sendo rapidamente conquistado pelo grande desenvolvimento dos novos meios de comunicação. Viu-se então que no momento em que a literatura brasileira conseguia forjar uma certa tradição literária, criar um certo sistema expressivo que a ligava ao passado e abria caminhos para o futuro - nesse momento as tradições literárias começavam a não mais funcionar como estimulante. As formas escritas de expressão entravam em relativa crise, ante a concorrência dos meios expressivos novos, ou novamente reequipados, para nós - como o rádio, o cinema, o teatro atual, as histórias em quadrinhos. Antes que a consolidação da instrução permitisse consolidar a difusão da literatura literária (por assim dizer), estes veículos possibilitaram, graças à palavra oral, à imagem, ao som (que superam aquilo que no texto escrito são limitações para quem não se enquadrou numa certa tradição), que um número sempre maior de pessoas participassem de maneira mais fácil dessa quota de sonhos e de emoção que garantia o prestígio tradicional do livro.'
Os bons críticos também são profetas. "
(CONTINUA)
Blog de Literatura do escritor Menalton Braff, autor de 26 livros e vencedor do Prêmio Jabuti 2000.
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