e publicadas originalmente em seu sitewww.menalton.com.br
Livro Analisado: Contos Novos
Autor: Mário de Andrade
Contos Novos
- Nove contos de temática diversa
4 narrados em 1a. pessoa (Juca)
5 narrados em 3a. pessoa c/predom. do disc.ind.livre
- Vestida de Preto
- O Ladrão
- Primeiro de Maio
- Atrás da Catedral de Ruão
- O Poço
- O Peru de Natal
- Frederico Paciência
- Nelson
- Tempo da Camisolinha
Vestida de Preto
- Ortografia fonética
- 1a. pessoa (algo de auto-retrato) em tom de confissão -
Lirismo cru
- Conceitos freudianos (Édipo, "me superiorizando em
mim só por vingança de desesperado")
- neologismos
- pontuação
- coloquialismo: "...quem disse travesseiro ter piedade
de mim."
- a rebeldia do adolescente, o "caso perdido" da
família
- a solidão como condensação interior
O Ladrão
- 3a. pessoa
- neologismo: vagarento, escureza
- colocação pronominal: se informando com um retardatário...
- adjetivação inusitada: uma preta satisfeita de gorda,
cabelo frio escorrendo
- sintaxe popular: "- Eu nem não sei!..."
- analítico/satírico-penetrante: não dizia nada, ficava se
rindo, com sangue até nos olhos, de vergonha gostosa
- noite de arrabalde, o ladrão talvez nem tenha existido, a
reunião em torno de fatos banais
Primeiro de Maio
Ironia: No grande dia Primeiro de Maio - os signos mortos
das comemorações oficiais
Afinal o 35 saiu, estava lindo. Com discurso do ilustre Secretário do Trabalho (Ditadura de
Vargas)
Humor: Primeiro quis tomar um banho pra ficar bem digno de
existir.
Personagem alegórico: o trabalhador - identificação p/signo
do trabalho - 35.
Utilização de conceitos freudianos: estação/atração, jogo do
inconsciente "Insensivelmente o 35 foi se encaminhando de novo para
os lados do Jardim da Luz."
- O Primeiro de Maio evolui para tornar-se o símbolo
concreto das aspirações de um operário: "Se fosse o Primeiro de
Maio, pelo menos ..."
- Espírito generoso de sacrifício
Depois vai-se esvaziando e o narrador passa a usar letras
minúsculas: primeiro de maio.
- Largo emprego de fluxo de consciência/discurso indireto
livre: "... o relógio da torre indicava nove e dez, mas o trem da Central
sempre atrasa, quem sabe? bom: às quatorze horas venho aqui, não
perco, mas devo ir, são nossos deputados no tal de congresso, devo
ir."
- Psicologia coletiva: "...era impossível assim soltos,
desobedecer aos três
homens bem vestidos..."
- A consciência do mundo trazida pela fome,
reiteradamente.
- Final com retorno a seu verdadeiro elemento: só então
sorriu.
- 35 e 22 como símbolos políticos.
Atrás da Catedral de Ruão
oposição: moralidade x atração sexual intransitiva(?)
- Mademoiselle teria alguma coisa da Freulein:
"...naquela aprendizado da malícia..."
- As adolescentes como estímulo e ressurreição de instintos
adormecidos
- ironia: "Dona Lúcia é que resolveu ficar eternamente
infeliz e ficou."
- Educação: "Tudo não passava duma ceva divertida de
quase-imoralidade para as meninas.
- A Mademoiselle propõe assuntos imorais mas não permite seu aprofundamento.
- neologismos: chegava afrosa, gritandinho (diminutivo de
verbos, efeito expressivo)
- imagens inusitadas: "Mademoiselle saiu da leitura e
se perdeu, seguindo os namorados com os olhos e a vida."
- As imagens de MA são deformações expressionistas.
- Atrás da catedral: simbologia do que está por trás,
escondido, o pensamento escuso: o sexo.
- Mademoiselle sente-se atraída, mas desesperançada.
- A falsa perseguição de que se sente vítima é mera projeção
de seu desejo - freudianamente.
- ironia: " estava irremediavelmente salva pra toda a
vida..." - paradoxo
O Poço
Joaquim Prestes - o fazendeiro
A volúpia do autoritarismo
A caneta foi apenas pretexto para o exercício do mando
(havia outras)
- Expressionismo - exemplo: "O sarilho gemeu, e à
medida que a corda se desenrolava o gemido foi aumentando, aumentando, até que se
tornou num uivo lancinante."
- O texto profundo de poço e caneta pode ser: trabalho
injusto, sacrifício
inútil
O Peru de Natal
1a. pessoa (autobiográfico?)
- o convencionalismo da educação burguesa
- a rebeldia do filho
- os excessos da autoridade paterna exemplar, mas sufocante,
obstruente
- Pai ausente - antagonista
- Luta entre filho "desastre da família" contra o
pai "puro sangue dos desmancha-prazeres."
- Peru = felicidade = espaço do imaginário, da aventura, da
recusa à mesmice
- Personagem principal (filho), o mesmo de "Vestida de
Preto" identificado através da "Tia Velha", que se repete.
- Expressionismo: "Mas os defuntos têm meios
visguentos, muito hipócritas de vencer: nem bem gabei o peru que a imagem de
papai cresceu vitoriosa, insuportavelmente obstruidora.
- Só falta seu pai...
Frederico Paciência
Narrador Juca, o mesmo de Vestida de Preto, O Peru de Natal,
No Tempo da Camisolinha
Conto de adolescentes
Tema central: a descoberta da sexualidade
Violação de padrões de comportamento socialmente aceitos
Frederico - solaridade | antonomínia
Juca - lunaridade | simbologias
- atração por qualidades físicas e morais
- superação da inveja: aperfeiçoamento da
amizade/s/necessidade de
imitação
Sintaxe popular. Ex.: Ficava impossível a gente não querer
bem ele.
Prosódia popular. Ex.: sinão
- Morte do pai e da mãe: aproximação
Hesitações: aproximações x afastamentos
Juca é o terceiro "caso perdido" - confissão sua
Pais e Mães com maiúsculas - alegorias: "...aliás era
natural que não amasse muito um Pai que fora indiferentemente bom..." -
Como em Peru de Natal.
Influência do surrealismo: "Andava, olhava sempre o meu
amigo, riso no beiço, brincador,
e do cubismo conciliador, absolvido."
Metalinguagem dessacralizante: "...para sutilizar
psicologicamente o conto."
Neologismos expressivos: caicaindo, mal-estarentamente.
Discurso Direto Livre pág. 125
Nelson
Caracterização com poucos traços (poder de síntese) competência: "Tinha um ar esquisito, ar antigo, que
talvez lhe viesse da roupa mal talhada. Mas que decerto derivava da cara também,
encardida,
de uma palidez absurda, quase artificial, como a cara
enfarinhada dos palhaços."
Nelson é um neurótico = comportamento enigmático (não
resolvido no final).
Ironia: topos reais utilizados (Amar, verbo intransitivo =
briga com Monteiro Lobato).
Três narradores. Narrativa desenvolvida em dois planos =
presente, passado. Os dois rapazes (narradores) narram o passado. O
terceiro narrador (o que narra o presente) é narrador em 3a. pessoa,
mas não demiurgo, o que denuncia um narrador em 1a. disfarçado.
Só apresenta aquilo que é visível.
Os rapazes são personagens/narradores
Sintaxe popular: "O corpo era capaz que
boiasse...", "Os inimigos já tinham ido-se embora." , "...olhando ele...",
"...ele agarrou dando uns gritos...", "...deitou correndo...",
"Por que vocês não conversam noutra coisa!"
A garçonete = DIVA - ironia contra o Romantismo.
MA faz referência à história da Guerra do Paraguai. Parece
acreditar na história oficial - hoje completamente desmentida.
Ao narrador não interessa o passado, as razões, mas apenas
retratar o comportamento neurótico.
Tempo da camisolinha
cabelo quente/frio - positivo, negativo
autobiográfico: mesmo pai, mesma mãe, mesmo irmão
- atitude plástica na caract. person.: "Guardo esta
fotografia porque si ela não me perdoa do que tenho sido, ao menos me explica. Dou a
impressão de uma monstruosidade insubordinada. Meu irmão, com seus
oito anos é uma criança integral, olhar vazio de experiência, rosto
rechonchudo e lisinho, sem caráter fixo, sem malícia, a própria imagem da
infância. Eu, tão menor, tenho esse quê repulsivo do anão, pareço velho.
(...) Meus olhos não olham, espreitam." Juca x seu irmão
Explicações no passado
O físico explicando o psicológico. Traços físicos
reveladores do caráter.
Pai: suavemente x irrevogável: "...que só imaginava a
existência no trabalho sem recreio..."
Auto-ironia depreciativa - "caso perdido" x
sensibilidade (bondade com raiva)
Adjetivos terminados em -nte - apreensão de flagrantes, ação surpreendida no momento em que se realiza. Ex.:
"...não-conformismo navalhante..."
Agudeza psicológica: "...e ela sentia um prazer
perdoável de representar naquelas férias o papel largado da convalescente."
Expressões populares: "Que goiabada nem mané
goiabada!"
Influência surrealista: "Fazia um calor horrível, era
preciso tirar as estrelas do sol, sinão elas secavam demais, se acabava a boa
sorte delas, o sol me batia no coco, eu estava tonto, operário, má sorte,
a estrela, a paralítica , a minha sublime estrelona-do-mar."
"Mário de Andrade é um grande contista. "Túmulo,
túmulo, túmulo", "O Besouro e a Rosa", "Menina de Olho no Fundo",
"Piá não sofre? Sofre", "Vestida de Preto", "Primeiro de Maio",
"Atrás da Catedral de Ruão", "O Poço", "O peru de Natal", "Frederico
Paciência" estão entre os grandes
contos da literatura brasileira." (Dirce Côrtes Riedel, in A Literatura no Brasil)
1893/1945 - Em São Paulo, cidade de que foi um dos maiores
cantores e da qual saiu apenas por pouco tempo para lecionar estética e
filosofia no Rio de Janeiro e eventualmente para fazer pesquisas de
campo, em qualquer região do Brasil.
Características
- atitude analítico-satírica / ironia
- capacidade de síntese na caracterização do personagem
- forte construção de personagens
- plasticidade na caracterização de personagens
- rompimento com tabus temáticos
- emprego inusitado da adjetivação na caracterização de
personagens
- emprego do adjetivo "úmido" e seus
cognatos/visão da sensualidade
brasileira
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