sábado, 19 de novembro de 2016

ESPIANDO POR DENTRO

Esta coluna reúne análises literárias escritas por Menalton Baff
e publicadas originalmente em seu site
www.menalton.com.br

Livro Analisado: Contos Novos
Autor: Mário de Andrade

Contos Novos

- Nove contos de temática diversa
4 narrados em 1a. pessoa (Juca)
5 narrados em 3a. pessoa c/predom. do disc.ind.livre
  • Vestida de Preto
  • O Ladrão
  • Primeiro de Maio
  • Atrás da Catedral de Ruão
  • O Poço
  • O Peru de Natal
  • Frederico Paciência
  • Nelson
  • Tempo da Camisolinha

Vestida de Preto

- Ortografia fonética
- 1a. pessoa (algo de auto-retrato) em tom de confissão - Lirismo cru 
- Conceitos freudianos (Édipo, "me superiorizando em mim só por vingança de desesperado")
- neologismos
- pontuação
- coloquialismo: "...quem disse travesseiro ter piedade de mim."
- a rebeldia do adolescente, o "caso perdido" da família
- a solidão como condensação interior

O Ladrão

- 3a. pessoa
- neologismo: vagarento, escureza
- colocação pronominal: se informando com um retardatário...
- adjetivação inusitada: uma preta satisfeita de gorda, cabelo frio escorrendo
- sintaxe popular: "- Eu nem não sei!..."
- analítico/satírico-penetrante: não dizia nada, ficava se rindo, com sangue até nos olhos, de vergonha gostosa
- noite de arrabalde, o ladrão talvez nem tenha existido, a reunião em torno de fatos banais

Primeiro de Maio

Ironia: No grande dia Primeiro de Maio - os signos mortos das comemorações oficiais
Afinal o 35 saiu, estava lindo. Com discurso do ilustre Secretário do Trabalho (Ditadura de Vargas)

Humor: Primeiro quis tomar um banho pra ficar bem digno de existir.

Personagem alegórico: o trabalhador - identificação p/signo do trabalho - 35.

Utilização de conceitos freudianos: estação/atração, jogo do inconsciente "Insensivelmente o 35 foi se encaminhando de novo para os lados do Jardim da Luz."

- O Primeiro de Maio evolui para tornar-se o símbolo concreto das aspirações de um operário: "Se fosse o Primeiro de Maio, pelo menos ..."

- Espírito generoso de sacrifício
Depois vai-se esvaziando e o narrador passa a usar letras minúsculas: primeiro de maio.

- Largo emprego de fluxo de consciência/discurso indireto livre: "... o relógio da torre indicava nove e dez, mas o trem da Central sempre atrasa, quem sabe? bom: às quatorze horas venho aqui, não perco, mas devo ir, são nossos deputados no tal de congresso, devo ir."

- Psicologia coletiva: "...era impossível assim soltos, desobedecer aos três
homens bem vestidos..."

- A consciência do mundo trazida pela fome, reiteradamente.

- Final com retorno a seu verdadeiro elemento: só então sorriu.

- 35 e 22 como símbolos políticos.

Atrás da Catedral de Ruão

oposição: moralidade x atração sexual intransitiva(?)

- Mademoiselle teria alguma coisa da Freulein: "...naquela aprendizado da malícia..."

- As adolescentes como estímulo e ressurreição de instintos adormecidos

- ironia: "Dona Lúcia é que resolveu ficar eternamente infeliz e ficou."

- Educação: "Tudo não passava duma ceva divertida de quase-imoralidade para as meninas.

- A Mademoiselle propõe assuntos imorais mas não permite seu aprofundamento.

- neologismos: chegava afrosa, gritandinho (diminutivo de verbos, efeito expressivo)

- imagens inusitadas: "Mademoiselle saiu da leitura e se perdeu, seguindo os namorados com os olhos e a vida."

- As imagens de MA são deformações expressionistas.

- Atrás da catedral: simbologia do que está por trás, escondido, o pensamento escuso: o sexo.

- Mademoiselle sente-se atraída, mas desesperançada.

- A falsa perseguição de que se sente vítima é mera projeção de seu desejo - freudianamente.

- ironia: " estava irremediavelmente salva pra toda a vida..." - paradoxo

O Poço

3a. pessoa

Joaquim Prestes - o fazendeiro

A volúpia do autoritarismo

A caneta foi apenas pretexto para o exercício do mando (havia outras)

- Expressionismo - exemplo: "O sarilho gemeu, e à medida que a corda se desenrolava o gemido foi aumentando, aumentando, até que se tornou num uivo lancinante."

- O texto profundo de poço e caneta pode ser: trabalho injusto, sacrifício
inútil

O Peru de Natal

1a. pessoa (autobiográfico?)

- o convencionalismo da educação burguesa

- a rebeldia do filho

- os excessos da autoridade paterna exemplar, mas sufocante, obstruente

- Pai ausente - antagonista

- Luta entre filho "desastre da família" contra o pai "puro sangue dos desmancha-prazeres."

- Peru = felicidade = espaço do imaginário, da aventura, da recusa à mesmice

- Personagem principal (filho), o mesmo de "Vestida de Preto" identificado através da "Tia Velha", que se repete.

- Expressionismo: "Mas os defuntos têm meios visguentos, muito hipócritas de vencer: nem bem gabei o peru que a imagem de papai cresceu vitoriosa, insuportavelmente obstruidora.

- Só falta seu pai...

Frederico Paciência

Narrador Juca, o mesmo de Vestida de Preto, O Peru de Natal, No Tempo da Camisolinha
Conto de adolescentes

Tema central: a descoberta da sexualidade

Violação de padrões de comportamento socialmente aceitos

Frederico - solaridade | antonomínia

Juca - lunaridade | simbologias

- atração por qualidades físicas e morais

- superação da inveja: aperfeiçoamento da amizade/s/necessidade de
imitação

Sintaxe popular. Ex.: Ficava impossível a gente não querer bem ele.

Prosódia popular. Ex.: sinão

- Morte do pai e da mãe: aproximação

Hesitações: aproximações x afastamentos

Juca é o terceiro "caso perdido" - confissão sua

Pais e Mães com maiúsculas - alegorias: "...aliás era natural que não amasse muito um Pai que fora indiferentemente bom..." - Como em Peru de Natal.

Influência do surrealismo: "Andava, olhava sempre o meu amigo, riso no beiço, brincador,
e do cubismo conciliador, absolvido."

Metalinguagem dessacralizante: "...para sutilizar psicologicamente o conto."

Neologismos expressivos: caicaindo, mal-estarentamente.

Discurso Direto Livre pág. 125

Nelson

Caracterização com poucos traços (poder de síntese) competência: "Tinha um ar esquisito, ar antigo, que talvez lhe viesse da roupa mal talhada. Mas que decerto derivava da cara também, encardida,
de uma palidez absurda, quase artificial, como a cara enfarinhada dos palhaços."

Nelson é um neurótico = comportamento enigmático (não resolvido no final).
Ironia: topos reais utilizados (Amar, verbo intransitivo = briga com Monteiro Lobato).

Três narradores. Narrativa desenvolvida em dois planos = presente, passado. Os dois rapazes (narradores) narram o passado. O terceiro narrador (o que narra o presente) é narrador em 3a. pessoa, mas não demiurgo, o que denuncia um narrador em 1a. disfarçado.

Só apresenta aquilo que é visível.

Os rapazes são personagens/narradores

Sintaxe popular: "O corpo era capaz que boiasse...", "Os inimigos já tinham ido-se embora." , "...olhando ele...", "...ele agarrou dando uns gritos...", "...deitou correndo...", "Por que vocês não conversam noutra coisa!"

A garçonete = DIVA - ironia contra o Romantismo.

MA faz referência à história da Guerra do Paraguai. Parece acreditar na história oficial - hoje completamente desmentida.

Ao narrador não interessa o passado, as razões, mas apenas retratar o comportamento neurótico.

Tempo da camisolinha

cabelo quente/frio - positivo, negativo

autobiográfico: mesmo pai, mesma mãe, mesmo irmão

- atitude plástica na caract. person.: "Guardo esta fotografia porque si ela não me perdoa do que tenho sido, ao menos me explica. Dou a impressão de uma monstruosidade insubordinada. Meu irmão, com seus oito anos é uma criança integral, olhar vazio de experiência, rosto rechonchudo e lisinho, sem caráter fixo, sem malícia, a própria imagem da infância. Eu, tão menor, tenho esse quê repulsivo do anão, pareço velho. (...) Meus olhos não olham, espreitam." Juca x seu irmão

Explicações no passado

O físico explicando o psicológico. Traços físicos reveladores do caráter.

Pai: suavemente x irrevogável: "...que só imaginava a existência no trabalho sem recreio..."

Auto-ironia depreciativa - "caso perdido" x sensibilidade (bondade com raiva)

Adjetivos terminados em -nte - apreensão de flagrantes, ação surpreendida no momento em que se realiza. Ex.: "...não-conformismo navalhante..."

Agudeza psicológica: "...e ela sentia um prazer perdoável de representar naquelas férias o papel largado da convalescente."

Expressões populares: "Que goiabada nem mané goiabada!"

Influência surrealista: "Fazia um calor horrível, era preciso tirar as estrelas do sol, sinão elas secavam demais, se acabava a boa sorte delas, o sol me batia no coco, eu estava tonto, operário, má sorte, a estrela, a paralítica , a minha sublime estrelona-do-mar."

O autor

"Mário de Andrade é um grande contista. "Túmulo, túmulo, túmulo", "O Besouro e a Rosa", "Menina de Olho no Fundo", "Piá não sofre? Sofre", "Vestida de Preto", "Primeiro de Maio", "Atrás da Catedral de Ruão", "O Poço", "O peru de Natal", "Frederico Paciência" estão entre os grandes
contos da literatura brasileira." (Dirce Côrtes Riedel, in A Literatura no Brasil)

1893/1945 - Em São Paulo, cidade de que foi um dos maiores cantores e da qual saiu apenas por pouco tempo para lecionar estética e filosofia no Rio de Janeiro e eventualmente para fazer pesquisas de campo, em qualquer região do Brasil.

Características

- atitude analítico-satírica / ironia
- capacidade de síntese na caracterização do personagem
- forte construção de personagens
- plasticidade na caracterização de personagens
- rompimento com tabus temáticos
- emprego inusitado da adjetivação na caracterização de personagens
- emprego do adjetivo "úmido" e seus cognatos/visão da sensualidade

brasileira

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