(Vasco Pereira de Oliveira)Malditos, me tiravam a roupa. Melhor se me deixassem amarrado num tronco, batessem com chicote, vara de marmelo, ou usassem outros objetos de tortura. Mas não, me tiravam a roupa. Escondido atrás das portas, me esgueirando por beiradas, apreciava o movimento do dia. Tia Josefa puxando o
saco da minha mãe, fazendo aqueles bolinhos, ajudando daqui e dali. Fazia doces no tacho de cobre que depois lavava com limão cravo e mostrava para a mãe, veja, como limpa, que beleza. A mãe parecia ignorá-la, mas ela puxando o saco. Fresca. Benfeito que as circunstâncias me levaram a urinar na bacia com água em que ela lavava o rosto de manhã. Acordei com a bexiga estourando, o banheiro distante, lá no quintal, onde pai negociava porcos com uns estranhos. Fiquei com vergonha de sair correndo para o banheiro e foi ali mesmo, no quartinho, descarreguei gostoso, sensação de alívio.
Depois foi esperar o castigo anunciado. Tia Josefa lavando o rosto, só pode ser esse menino, tirem a roupa dele, o dia inteiro pelado, e eu a ver o mundo pelas frestas, escondido atrás das portas, pelos cantos, dentro de mim.
Mas que urinei, urinei.
A mãe era dura. Esse tipo de castigo de me tirar a roupa veio da sua mente de pedra. Tia Josefa puxando o saco e ela fazendo que nem notava, fingindo. No fundo, embora não expressasse, ela gostava de ser paparicada.
Devia se sentir mais importante. Aí mandava e desmandava e eu sempre me ferrando. Montaram na cabrita, amarraram o gato, destruíram o canteiro: pelado. Tinha um jeito de dizer com o olhar, nós nos habituamos a entendê-lo.
Sem dizer uma palavra, mandava com o olhar: pelado. Como sair pelado?
Jogar bola, brincar? Tenho que reconhecer, era um castigo bem bolado, deixava o condenado sem ação, tendo que se esconder, com vergonha do pelo peito pinto. E o réu sempre era eu. Nu, despojado de enfeites e possibilidades, porém consciente, o que aumenta o sofrimento. Pena que tal castigo era
aplicado em mim. Aí sossegavam, não era preciso tomar conta, decidir pode ou não pode.
Comodistas, melhor se me amarrassem vestido, moralmente vestido. Mas não, me desnudavam a alma. Do meu canto imaginava o pior, talvez para me consolar e amenizar a situação de estar nu: e se me vestissem de mulher? A maldade tem seus limites, até o diabo tem sua parcela de juízo.
O pai se deixava dominar por aquele gênio da mãe. Ele bonachão, talvez tenha me amado, mas não entendi sua linguagem. Ela durona, mandando com o olhar; creio que me amou por detrás dos seus olhos de pedra. Há formas de amar que a linguagem não explica.
E eu: pelado. Cresci naquele meio e esse que hoje arde sou eu. Na solidão aprendi a degustar a dor, mastigá-la até que ela, liquefeita, escorresse da boca, fazendo mares no chão. Pelas frestas aprendi a observar como são diferentes as coisas e as pessoas, com suas matizes de sombras.
Tia Josefa era solteira. Usava o cabelo preso na nuca onde formava uma bola chamada coque. Inseparáveis (ela e o coque). Acho que tia Josefa era o coque, a pessoa que o carregava era suplemento. Bom dia coque, boa tarde coque, e a cara da tia Josefa na frente do coque. Coque para cá, coque para lá, o dia inteiro andando, mexendo, lavando, fazendo doce. Coadjuvante naquelas cenas domésticas, a mãe atriz principal. Tia Josefa às vezes falava de um tal de tenente Castrinho. Quando isso acontecia, seus olhos brilhavam enxergando alguma coisa que só ela via: parecia que aquele olhar vazava o tempo e alcançava outra dimensão do espaço. Uma vez, dos seus olhos minaram água, formaram um mar onde naufragamos, eu e ela, abraçados. Na hora não entendi bem o que se passava, alguns anos depois é que imaginei o que ela devia estar sentindo. Sentia falta do que não foi, do que poderia ter sido. Imaginei como ela deveria se sentir só. Talvez por isso ela não parasse de se mexer, fazer, cozer, coser, andar, arrumar, limpar. Era para espantar sua solidão, que habitava sua sombra. Mas, coitada, à noite ela ficaria sozinha em seu quartinho e certamente seus fantasmas brincariam de roda à sua volta.
Cantariam tristes canções de ninar que a fariam chorar. Compreendi que somos apenas pedaços de um todo e sentimos falta das outras partes, e é isso que confere à vida esse meio-tom cinzento que a torna maravilhosamente incerta. Meses antes de morrer - em meio à bruma que lhe atacara o espírito - ela vivia momentos de lucidez em que desatava a falar. Então jogava para o ar toda sua vida de recatos, autocensuras e privações. Mandava à merda, falava mal de todos, atacava Deus e o diabo. A loucura mostrando seu lado bom.
Assim tia Josefa vingava-se do comedimento que cultivou a vida inteira.
Hoje, por entre portas, janelas e grades, também vejo o mundo pelas frestas, nuanças de sombras, como quando me deixavam de castigo. As coisas vistas de frente me ofuscam. Rumino a lucidez que entra pelas frestas. Pelas frestas penetro seu âmago, até a alma das pedras. Construo pontes até o sol,
mas muita luz me ofusca. Tenho medo da lucidez.
De quem senão da mãe herdei as pedras da alma? E do pai esse jeito de desprezar a vida e ao mesmo tempo amá-la a meu modo? E da tia Josefa essa arte de fingir, dissimular? De que mais precisa um homem, tendo à mão esses temperos da vida? Fundiram-se em mim universos dissonantes, urdidos por todas as mazelas, contaminados em suas reentrâncias por réstias de lucidez, meios-tons de bondades.
Sou de pedra, mas tenho alma. O que me comove mais são as coisas inanimadas. Essas pedras que calçam as ruas, enfileiradas, disciplinadas, inteiramente sós, levemente úmidas de orvalho, nessas madrugadas frias, sob luzes de postes completamente solitários. Por isso entendo a alma das sombras. Amo e entendo a beleza dos crepúsculos e dos outonos, e suas nuanças de incertezas.
Hoje não existem mais o pai, a mãe, nem tia Josefa. Minha mãe era dura, de pedra, mas eu aprendi a olhar pelas frestas e entender a alma das coisas.
Interpretei o vento e fabriquei minhas asas durante o voo. Perdoo a todos, Deus no meio.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
http://twitter.com/Menalton_Braff
http://menalton.com.br
http://www.facebook.com/menalton.braff
http://www.facebook.com/menalton.braff.escritor
http://www.facebook.com/menalton.para.crianças