Esta coluna reúne análises literárias elaboradas por Menalton Braff e publicadas originalmente em seu site.
Livro Analisado: A Ilustre Casa de Ramires
Autor: Eça de Queirós (José Maria Eça de Queirós)
A Obra
A Ilustre Casa de Ramires é um romance da última fase de Eça
de Queirós. Publicado inicialmente entre 1897 e 1899 na Revista Moderna, de Paris
(de forma incompleta) só veio à luz como livro no ano da morte do autor, 1900.
Como em outros romances de Eça de Queirós, está vazado
segundo a fórmula de confronto entre realidade e fantasia, além de ser antiteticamente
composto. Em confronto "...o mundo épico, belamente bárbaro, da Idade
Média - e o mundo prosaicamente contemporâneo, do Constitucionalismo, visto
através das pequenas intrigas da vida provinciana."
Personagens - As personagens que interessam mais de perto
para a compreensão da obra e que mais ativamente participam de suas intrigas são:
Gonçalo Mendes Ramires - Herdeiro de nome dos mais antigos
de Portugal - sua família antecede na
Península mesmo o Conde D. Henrique de Borgonha - faz Direito em Coimbra e é dele que o autor se utiliza para caricaturizar o presente: Gonçalo é vítima de uma covardia que o avilta.
Península mesmo o Conde D. Henrique de Borgonha - faz Direito em Coimbra e é dele que o autor se utiliza para caricaturizar o presente: Gonçalo é vítima de uma covardia que o avilta.
Ao menor sinal de perigo está sempre fugindo, descrente da
própria força.
Mas é Gonçalo, finalmente, quem encarna , em um momento de inexplicável
heroísmo, o amor do narrador por sua terra e suas tradições.
Gracinha - irmã de Gonçalo, preterida por um quase-noivo,
André, casase com Barrolo, rico proprietário com vocação para corno. Representa
mais um índice da decadência e do desfibramento contemporâneos, uma vez que,
assediada mais tarde por aquele que a havia preterido, acaba cedendo à sedução
do mesmo.
Barrolo - o marido de Gracinha. Subserviente, gordo, rico e
corno.
André Cavaleiro - antigo companheiro de faculdade de
Gonçalo, torna-se líder político da província, onde tem propriedades vizinhas
às de Gonçalo.
Corrupto, pública e particularmente. Abandona Gracinha
quando o casamento já é esperado, sedu-la mais tarde, quando está casada.
Político de tricas e futricas, mas poderoso. Odiado
inicialmente por Gonçalo, para atingir o coração de Gracinha, serve de alavanca
para o início da carreira política daquele.
(André e Barrolo podem ser consideradas personagens planas,
enquanto Gonçalo e Gracinha são personagens esféricas).
Espaço - Interior de Portugal. O sítio de Santa Irenéia,
herdade de Gonçalo, com sua Torre (mais antiga que Portugal). Ambiente de província.
Oliveira, a cidade vizinha, onde mora Gracinha, sede da administração
provincial. Santa-Clara, vila vizinha a Santa Irenéia. O espaço interno
predominante é o castelo onde se localiza a Torre de D. Ramires.
Tempo - Externo: Final do século XIX. Período da monarquia constitucionalista
de Portugal.
Narrativo: narrativa lenta, analítica, mas viva, com
diálogos ágeis e realistas. A "fatia" de vida abrange por volta de
pouco mais de meio ano (não se levando em conta o capítulo final: a viagem de
Gonçalo para África, sua experiência colonial).
Estrutura - São doze capítulos numerados, com a linha do
presente baseada em fragmento da vida de Gonçalo. Este plano narrativo, entretanto,
é cruzado constantemente com o passado (Idade Média), na forma de um romance
que está sendo escrito por Gonçalo sobre Tructesindo Ramires, antepassado
heróico, um dos formadores da "dinastia".
Síntese da significação - Depois de passar a maior parte de
sua vida (Eça de Queirós), fazendo a apologia da civilização e do progresso, o
autor parece, em seus últimos anos de vida, arrependido.
Desse arrependimento é
fruto A ilustre casa de Ramires. Amor à pátria, aos valores da província, ao
passado de seu país. A despeito das ironias contra Walter Scott, das denúncias
sobre a corrupção na política provinciana e dos aspectos ridículos de Gonçalo,
Eça de Queirós aceita (ou defende) a política colonial (África), exalta os
valores antigos (nos antepassados de Gonçalo), tenta resgatar a consciência
heróica de seu país, ao transformar, no final do romance, Gonçalo em Portugal.
Não um Gonçalo covarde e frouxo, como aparece no início do livro. Agora é o homem
inteligente, que descobriu em si mesmo reservas de coragem e bravura. É o líder
político, é o desbravador.
O autor
Nasceu em Póvoa de Varzim em 1845 e morreu em Paris em 1900.
Filho bastardo, situação depois regularizada, viveu até a
adolescência afastado dos pais.
Fez o curso de Direito em Coimbra, onde tornou-se amigo dos
estudantes que lideravam a Questão Coimbrã (1865). Não participou, todavia, do movimento.
Já em Lisboa, formado, participou do desdobramento da
Questão, proferindo algumas das palestras das Conferências Democráticas do Casino
de Lisboa.
Pouco praticou das leis para as quais se havia formado. Logo
abraçou o jornalismo. Nesta qualidade assiste à inauguração do Canal de Suez.
Quando regressou decidiu-se pela diplomacia. Como condição
para a carreira, teve de passar seis meses em Leiria, como administrador do Concelho.
Serviu em Cuba, Inglaterra e finalmente em Paris.
De sua primeira fase literária, ficaram as Prosas Bárbaras e
o Mistério da Estrada de Sintra.
Da segunda fase, a fase realista, são: O Crime do Padre
Amaro, romance com que inaugurou o Realismo em prosa, em 1875, em Portugal.
Seguem-lhe O Primo Basílio, Os Maias, O Mandarim, A Relíquia
e Contos.
Na terceira fase, o autor abandona os pressupostos realistas
e as idéias de progresso e modernidade. São dessa última fase A Ilustre Casa de
Ramires e A Cidade e as Serras.
Caracteriza-se pela habilidade efabulativa, certo tom
irônico, satírico, análises psicológicas profundas e detalhadas. Foi muitas
vezes acusado de estrangeirista, pelo vezo de empregar palavras estrangeiras, principalmente
da língua francesa, costume que lhe veio do próprio modo de vida como
diplomata. A denúncia social não lhe é estranha.
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