quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

ESPIANDO POR DENTRO

Esta coluna reúne análises literárias elaboradas por Menalton Braff e publicadas originalmente em seu site.

Livro Analisado: A Ilustre Casa de Ramires

Autor: Eça de Queirós (José Maria Eça de Queirós)

A Obra

A Ilustre Casa de Ramires é um romance da última fase de Eça de Queirós. Publicado inicialmente entre 1897 e 1899 na Revista Moderna, de Paris (de forma incompleta) só veio à luz como livro no ano da morte do autor, 1900.

Como em outros romances de Eça de Queirós, está vazado segundo a fórmula de confronto entre realidade e fantasia, além de ser antiteticamente composto. Em confronto "...o mundo épico, belamente bárbaro, da Idade Média - e o mundo prosaicamente contemporâneo, do Constitucionalismo, visto através das pequenas intrigas da vida provinciana."

Personagens - As personagens que interessam mais de perto para a compreensão da obra e que mais ativamente participam de suas intrigas são:

Gonçalo Mendes Ramires - Herdeiro de nome dos mais antigos de Portugal - sua família antecede na
Península mesmo o Conde D. Henrique de Borgonha - faz Direito em Coimbra e é dele que o autor se utiliza para caricaturizar o presente: Gonçalo é vítima de uma covardia que o avilta.
Ao menor sinal de perigo está sempre fugindo, descrente da própria força.

Mas é Gonçalo, finalmente, quem encarna , em um momento de inexplicável heroísmo, o amor do narrador por sua terra e suas tradições.

Gracinha - irmã de Gonçalo, preterida por um quase-noivo, André, casase com Barrolo, rico proprietário com vocação para corno. Representa mais um índice da decadência e do desfibramento contemporâneos, uma vez que, assediada mais tarde por aquele que a havia preterido, acaba cedendo à sedução do mesmo.

Barrolo - o marido de Gracinha. Subserviente, gordo, rico e corno.

André Cavaleiro - antigo companheiro de faculdade de Gonçalo, torna-se líder político da província, onde tem propriedades vizinhas às de Gonçalo.

Corrupto, pública e particularmente. Abandona Gracinha quando o casamento já é esperado, sedu-la mais tarde, quando está casada.

Político de tricas e futricas, mas poderoso. Odiado inicialmente por Gonçalo, para atingir o coração de Gracinha, serve de alavanca para o início da carreira política daquele.
(André e Barrolo podem ser consideradas personagens planas, enquanto Gonçalo e Gracinha são personagens esféricas).

Espaço - Interior de Portugal. O sítio de Santa Irenéia, herdade de Gonçalo, com sua Torre (mais antiga que Portugal). Ambiente de província. Oliveira, a cidade vizinha, onde mora Gracinha, sede da administração provincial. Santa-Clara, vila vizinha a Santa Irenéia. O espaço interno predominante é o castelo onde se localiza a Torre de D. Ramires.

Tempo - Externo: Final do século XIX. Período da monarquia constitucionalista de Portugal.
Narrativo: narrativa lenta, analítica, mas viva, com diálogos ágeis e realistas. A "fatia" de vida abrange por volta de pouco mais de meio ano (não se levando em conta o capítulo final: a viagem de Gonçalo para África, sua experiência colonial).

Estrutura - São doze capítulos numerados, com a linha do presente baseada em fragmento da vida de Gonçalo. Este plano narrativo, entretanto, é cruzado constantemente com o passado (Idade Média), na forma de um romance que está sendo escrito por Gonçalo sobre Tructesindo Ramires, antepassado heróico, um dos formadores da "dinastia".


Síntese da significação - Depois de passar a maior parte de sua vida (Eça de Queirós), fazendo a apologia da civilização e do progresso, o autor parece, em seus últimos anos de vida, arrependido. 

Desse arrependimento é fruto A ilustre casa de Ramires. Amor à pátria, aos valores da província, ao passado de seu país. A despeito das ironias contra Walter Scott, das denúncias sobre a corrupção na política provinciana e dos aspectos ridículos de Gonçalo, Eça de Queirós aceita (ou defende) a política colonial (África), exalta os valores antigos (nos antepassados de Gonçalo), tenta resgatar a consciência heróica de seu país, ao transformar, no final do romance, Gonçalo em Portugal. Não um Gonçalo covarde e frouxo, como aparece no início do livro. Agora é o homem inteligente, que descobriu em si mesmo reservas de coragem e bravura. É o líder político, é o desbravador.

O autor

Nasceu em Póvoa de Varzim em 1845 e morreu em Paris em 1900.

Filho bastardo, situação depois regularizada, viveu até a adolescência afastado dos pais.

Fez o curso de Direito em Coimbra, onde tornou-se amigo dos estudantes que lideravam a Questão Coimbrã (1865). Não participou, todavia, do movimento.

Já em Lisboa, formado, participou do desdobramento da Questão, proferindo algumas das palestras das Conferências Democráticas do Casino de Lisboa.

Pouco praticou das leis para as quais se havia formado. Logo abraçou o jornalismo. Nesta qualidade assiste à inauguração do Canal de Suez.

Quando regressou decidiu-se pela diplomacia. Como condição para a carreira, teve de passar seis meses em Leiria, como administrador do Concelho. Serviu em Cuba, Inglaterra e finalmente em Paris.

De sua primeira fase literária, ficaram as Prosas Bárbaras e o Mistério da Estrada de Sintra.
Da segunda fase, a fase realista, são: O Crime do Padre Amaro, romance com que inaugurou o Realismo em prosa, em 1875, em Portugal.

Seguem-lhe O Primo Basílio, Os Maias, O Mandarim, A Relíquia e Contos.

Na terceira fase, o autor abandona os pressupostos realistas e as idéias de progresso e modernidade. São dessa última fase A Ilustre Casa de Ramires e A Cidade e as Serras.

Caracteriza-se pela habilidade efabulativa, certo tom irônico, satírico, análises psicológicas profundas e detalhadas. Foi muitas vezes acusado de estrangeirista, pelo vezo de empregar palavras estrangeiras, principalmente da língua francesa, costume que lhe veio do próprio modo de vida como diplomata. A denúncia social não lhe é estranha.

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