Que importa a paisagem, a Glória, a
baía, a linha do horizonte?
- O que eu vejo é o beco.
(Manuel Bandeira)
A chuva diminuía, e fazia frio. Deitado na
areia gelada, o corpo apoiado de lado, a cabeça pendendo para baixo, eu via as
ondas ressacadas rebentarem à minha frente com sombria e fingida ansiedade.
Desilusão. Nem as ondas, nem os ventos daquele final de outono frustrado poderiam
me salvar: Era minha vida que rebentava! Luíza, tão fria, certamente me diria: você tem
propensão para o drama. E para a angustia desmedida. (Além de fazer versos
horríveis, como este: Luiza, tão fria, certamente me diria.) Também foi Luíza quem
disse: todo mundo tem algum talento na vida. Basta você descobrir no que é bom de
verdade e investir todo o seu coração. Jamais pude me esquecer. Luíza, para mim, não dizia: decretava! Só agora descobri no que eu sou bom de fato,
Luíza: Eu sou bom para o fracasso.
Tristeza
não tem cor de nada. Solidão também não. E as nuvens carregadas, o silêncio parado
e pesado, mesmo o vento desta tarde incerta, anunciam apenas a próxima
tempestade. Verei? Quem poderá saber o
desfecho desta hora definitiva e trágica se não eu? Que trago na boca este
gosto ácido do grito sufocado? Talvez, é claro, aquela criança ali. Com seus
trapinhos imundos, sua cara miserável, desbotada pela fome e, provavelmente,
pelo desânimo de quem, ainda menina, já sente a vida longa demais. É inútil este
tempo. Para que prolongar tanto este tormento? Esta menina, esta criancinha, tem
motivos para a amargura. Eu não. Eu sei.
Luíza, mesmo fria, certamente me diria: olha esta menina, ela pode sofrer. Você
não. E quem saberá o que já passou esta criança para trazer os olhos assim
neste transe? Olhando o mar como se visse o deserto. Olhando para mim como se
não me enxergasse. Talvez ela esteja apenas vendo o urubu. Este que pousou
agora à minha frente. E posou, parece, para me confrontar. Afirmar de vez a
minha ruína. Fosse eu realmente poeta, e ele agora me diria: “Never more”. Mas
não diz, pois é urubu, não corvo. Simplesmente me olha com este olhar de indiferença.
De fingido desinteresse. Já, já, vai, urubu. Antes, eu quero ver de novo esta
menina. Uma vez mais encarar nossa cumplicidade miserável. Esta criança que tem
motivos para a amargura. Não eu. Ela olha a água como se visse o deserto. Por
que será? Talvez o deserto a liberte. Talvez o inferno, para ela, realmente sejam
os outros. Provavelmente o urubu está certo em ficar calado. Já me é difícil
dizer o que julgo saber. Desisto de uma vez. Cheguei até ela e apontei para o
mar. Era um espelho cinza, lento e profundo, refletindo seu olhar vazado. Eu
lhe falei de um lugar onde nos sentiríamos bem. Ela me sorriu, agradecida. Partimos
em silêncio. Ao passarmos, o urubu baixou a cabeça. Ainda pude adivinhar o seu
cantar funesto: “Never more, never more”. Já, já, vai, urubu.
A literatura, sempre a literatura!
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