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sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

CONTOS CORRENTES

A Praia
(Alexandre Nobre)

Que importa a paisagem, a Glória, a baía, a linha do horizonte?
- O que eu vejo é o beco.
                                                                          (Manuel Bandeira)
                                                                                                                                               
    A chuva diminuía, e fazia frio. Deitado na areia gelada, o corpo apoiado de lado, a cabeça pendendo para baixo, eu via as ondas ressacadas rebentarem à minha frente com sombria e fingida ansiedade. Desilusão. Nem as ondas, nem os ventos daquele final de outono frustrado poderiam me salvar: Era minha vida que rebentava!  Luíza, tão fria, certamente me diria: você tem propensão para o drama. E para a angustia desmedida. (Além de fazer versos horríveis, como este: Luiza, tão fria, certamente me diria.) Também foi Luíza quem disse: todo mundo tem algum talento na vida. Basta você descobrir no que é bom de verdade e investir todo o seu coração. Jamais pude me esquecer.  Luíza, para mim, não dizia: decretava!  Só agora descobri no que eu sou bom de fato, Luíza: Eu sou bom para o fracasso.