segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

ESPIANDO POR DENTRO

Esta coluna reúne análises literárias escritas por Menalton Braff e publicadas originalmente em seu site.

Livro Analisado: Memórias Póstumas de Brás Cubas
Autor: José Maria Machado de Assis

A Obra

Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881) é o romance inaugural do Realismo no Brasil.

- Escolha do foco narrativo, solução técnica dada pelo autor para o narrador-personagem: escrito póstumo

- Vantagens: isenção

- Dedicatória: "Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico como saudosa lembrança estas Memórias Póstumas."

- "Neste romance de Machado de Assis - autêntica obra-prima pela finura psicológica, pela serena inteligência das coisas e pela justeza da expressão, ora travessa, irônica, maliciosa, ora de concisa gravidade -, o narrador fictício, Brás Cubas, evoca e repensa de além-túmulo, sem ilusões nem respeitos terrenos, a vida conclusa - existência oca de celibatário rico." Jacinto do Prado Coelho

- Romance de análise psicológica: ardis do egoísmo, pequenas covardias quotidianas
várias formas da dissimulação e duplicidade fabrico de ilusões para sossego e comprazimento próprios

- Lição amarga: tudo muda e se esvai:

     - a paixão juvenil por Marcela;
     - os amores adúlteros com Virgília;
     - projeto de casamento com Eulália;
     - veleidades de glória política;
     - dedicação filantrópica (Ordem Terceira).

Saldo de sua vida: "Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria."

- Pessimismo - temperado com a indulgência que nasce de uma atitude filosófica e discreta compreensão, misturado a certo epicurismo inteligente e espirituoso.

- Moralismo pragmático: O Almocreve (Cap. XXI) ; Os achados (dobra de ouro, depois embrulho com cinco contos) (Caps. LI-LII)

Questões de Estilo: Em detalhe, podem-se propor, como características do estilo machadiano, os seguintes elementos recorrentes:
      
       - Metalinguagem: "Trata-se de uma obra difusa, na qual eu, Brás Cubas, se adotei a forma livre de um Sterne ou de um Xavier de Maistre, não sei se lhe meti algumas rabugens de pessimismo." – Prólogo "De modo que o livro fica assim com todas as vantagens do méto-do sem a rigidez do método." - Capítulo X
      - Pessimismo: "... um sentimento amargo e áspero..."
      - Prólogo "Vives: não quero outro flagelo." - Cap. VII
      - Ironia: "Morri de uma pneumonia; mas se lhe disser que foi menos a pneumonia, do que uma ideia grandiosa e útil ..." - Cap. I "Creio haver provado que foi a minha invenção que me matou. Há demonstrações menos lúcidas e não menos triunfantes." Cap. V (litotes)
      - Alusões: diálogo com a cultura universal.

"Súbito deu um grande salto, estendeu os braços e as pernas, até tomar a forma de um X: decifra-me ou devoro-te." Cap. II "Verdade é que Bismark não morreu..." Cap. IV

No Cap. VII comparecem: S. Tomás (Summa theologica); Pandora, cavalo de Aquiles, asna de Balaão, Abraão etc.

      - Digressões: O capítulo III
      - Interlocução: "Decida o leitor entre o militar e o cônego; eu volto ao emplasto." Cap. II
"Imagina tu, leitor, uma redução dos séculos..." Cap. VII
      - Capítulos curtos: sátira aos imensos capítulos românticos, cheios de ações.

Exemplos: IX, XVI, XX etc.

- Amor realista: "Tinha então cinqüenta e quatro anos, era uma ruína, uma im-ponente ruína. Imagine o leitor que nos amamos, ela e eu, muitos anos antes, e que um dia, já enfermo, vejo-a assomar à porta da alcova..." Cap. V

"De dous grandes namorados, de duas paixões sem freio, nada mais havia ali, vinte anos depois; havia apenas dous corações murchos, devastados pela vida e saciados dela, não sei se em igual dose, mas enfim saciados." Cap. VI

"- Não percebeste que era mentira, que eu dizia isso para te não molestar? Vem cá, chiquito, não sejas assim desconfiado comigo... Amei a outro; que importa, se acabou? Um dia, quando nos separarmos...

- Não digas isso! bradei eu.

- Tudo cessa! Um dia..." Cap. XV

- Ruptura com a linearidade narrativa - O romance inicia pela morte da personagem para então voltar a sua juventude. Os quadros que se sucedem não obedecem a uma ordem cronológica.

O Autor:


Machado de Assis : garoto pobre do morro do Livramento (RJ) - autodidata - tipógrafo, revisor, jornalista, contista, poeta, romancista, cronista, crítico literário, dramaturgo, primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras. Adolescente, ainda, publica "Ela", na Marmota, jornal de que é tipógrafo. Antes de 1881 publica quatro romances (primeira fase), considerados românticos. Com "Memórias póstumas de Brás Cubas" (1881) inicia o Realismo no Brasil.

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