Esta coluna reúne análises literárias escritas por Menalton Braff e publicadas originalmente em seu site.
Livro
Analisado: Memórias Póstumas de Brás Cubas
Autor:
José Maria Machado de Assis
A
Obra
Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881) é o romance
inaugural do Realismo no Brasil.
- Escolha do foco narrativo, solução técnica dada pelo
autor para o narrador-personagem: escrito póstumo
- Vantagens: isenção
- Dedicatória: "Ao verme que primeiro roeu as frias
carnes do meu cadáver dedico como saudosa lembrança estas Memórias
Póstumas."
- "Neste romance de Machado de Assis - autêntica
obra-prima pela finura psicológica, pela serena inteligência das coisas e pela
justeza da expressão, ora travessa, irônica, maliciosa, ora de concisa
gravidade -, o narrador fictício, Brás Cubas, evoca e repensa de além-túmulo,
sem ilusões nem respeitos terrenos, a vida conclusa - existência oca de celibatário
rico." Jacinto do Prado Coelho
- Romance de análise psicológica: ardis do egoísmo,
pequenas covardias quotidianas
várias formas da dissimulação e duplicidade fabrico
de ilusões para sossego e comprazimento próprios
- Lição amarga: tudo muda e se esvai:
- a paixão juvenil por Marcela;
- os
amores adúlteros com Virgília;
-
projeto de casamento com Eulália;
-
veleidades de glória política;
-
dedicação filantrópica (Ordem Terceira).
Saldo de sua vida: "Não tive filhos, não transmiti a
nenhuma criatura o legado de nossa miséria."
- Pessimismo - temperado com a indulgência que nasce de
uma atitude filosófica e discreta compreensão, misturado a certo epicurismo inteligente
e espirituoso.
- Moralismo pragmático: O Almocreve (Cap. XXI) ; Os
achados (dobra de ouro, depois embrulho com cinco contos) (Caps. LI-LII)
Questões de Estilo: Em detalhe, podem-se propor, como
características do estilo machadiano, os seguintes elementos recorrentes:
- Metalinguagem: "Trata-se de uma obra difusa, na
qual eu, Brás Cubas, se adotei a forma livre de um Sterne ou de um Xavier de
Maistre, não sei se lhe meti algumas rabugens de pessimismo." – Prólogo
"De modo que o livro fica assim com todas as vantagens do méto-do sem a
rigidez do método." - Capítulo X
- Pessimismo:
"... um sentimento amargo e áspero..."
- Prólogo
"Vives: não quero outro flagelo." - Cap. VII
- Ironia:
"Morri de uma pneumonia; mas se lhe disser que foi menos a pneumonia, do
que uma ideia grandiosa e útil ..." - Cap. I "Creio haver provado que
foi a minha invenção que me matou. Há demonstrações menos lúcidas e não menos
triunfantes." Cap. V (litotes)
- Alusões: diálogo com a cultura universal.
"Súbito deu um grande salto,
estendeu os braços e as pernas, até tomar a forma de um X: decifra-me ou
devoro-te." Cap. II "Verdade é que Bismark não morreu..." Cap.
IV
No Cap. VII comparecem: S. Tomás (Summa theologica);
Pandora, cavalo de Aquiles, asna de Balaão, Abraão etc.
- Digressões: O capítulo III
- Interlocução: "Decida o leitor entre o militar e o
cônego; eu volto ao emplasto." Cap. II
"Imagina tu, leitor, uma redução dos
séculos..." Cap. VII
- Capítulos curtos: sátira aos imensos capítulos
românticos, cheios de ações.
Exemplos: IX, XVI, XX etc.
- Amor realista: "Tinha então cinqüenta e quatro
anos, era uma ruína, uma im-ponente ruína. Imagine o leitor que nos amamos, ela
e eu, muitos anos antes, e que um dia, já enfermo, vejo-a assomar à porta da alcova..."
Cap. V
"De dous grandes namorados, de duas paixões sem
freio, nada mais havia ali, vinte anos depois; havia apenas dous corações
murchos, devastados pela vida e saciados dela, não sei se em igual dose, mas
enfim saciados." Cap. VI
"- Não percebeste que era mentira, que eu dizia isso
para te não molestar? Vem cá, chiquito, não sejas assim desconfiado comigo...
Amei a outro; que importa, se acabou? Um dia, quando nos separarmos...
- Não digas isso! bradei eu.
- Tudo cessa! Um dia..." Cap. XV
- Ruptura com a linearidade narrativa - O romance inicia
pela morte da personagem para então voltar a sua juventude. Os quadros que se sucedem
não obedecem a uma ordem cronológica.
O Autor:
Machado de Assis : garoto pobre do morro do Livramento
(RJ) - autodidata - tipógrafo, revisor, jornalista, contista, poeta,
romancista, cronista, crítico literário, dramaturgo, primeiro presidente da
Academia Brasileira de Letras. Adolescente, ainda, publica "Ela", na
Marmota, jornal de que é tipógrafo. Antes de 1881 publica quatro romances
(primeira fase), considerados românticos. Com "Memórias póstumas de Brás
Cubas" (1881) inicia o Realismo no Brasil.
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