ÚLTIMA CHAMADA
(Edmar Monteiro Filho)
Letras, números, setas e cores: organizar o
intrincado. Mas essa ordem, seu objetivo de conduzir o passageiro com segura
certeza ao seu destino, oculta uma malha infinita e cruel de luzes, escadas,
ônibus, corredores, esteiras, lojas, guichês, praças de alimentação, tudo
recoberto por ares de higiene, polidez e sofisticação que intimidam e oprimem.
O passageiro prevenido caminha sobre o piso imaculado sem pressa ou se deixa
levar pelas esteiras por puro deleite. Um minuto diante das vitrines, mesmo
revirar as prateleiras com os olhos, perguntar por um ou outro produto para
comparar mentalmente os preços, fazendo as conversões para a moeda de seu país.
Parar diante do painel com a programação de partidas e chegadas, as
bandeirinhas das companhias, descansar a bagagem por um instante e seguir em
frente. Mas o passageiro atrasado, que acompanha os minutos escorrendo,
esvaziando as chances de chegar a tempo à porta de embarque e completando potes
e potes da sua ansiedade, atravessa os corredores martelando o fôlego,
devorando as indicações coloridas que intimam a virar à esquerda, seguir
adiante, subir a escada rolante, mas não, voltar, dobrar à direita, não há
tempo para perguntar e tentar decifrar o idioma indecifrável da pressa.
A pior das aflições estáticas na fila de
controle de passaportes: gota a gota. Exibo o voucher e pergunto ao agente, em
inglês, se acredita que conseguirei chegar a tempo para embarcar.
"Maybe". A tortura progressiva, em cores diversas. Seis minutos para
o portão K26: como terão medido isso, andando ou correndo arrastando mala
correndo na esteira escada rolando a custo ofegante correndo se perco a conexão
desviar-se correndo excuse me palavras
ásperas em holandês. K1 a K20 à direita, K28 a K36 à esquerda, azul para subir,
laranja para seguir em frente perdido. Esbaforido e desesperado, já diante do
portão, descobrir que ainda resta uma hora para embarcar, gentileza do fuso
horário ao qual não atentei.
Daí, a angústia custa a despregar-se da
garganta e do coração acelerado. E, como buscasse objeto, acaba encontrando um
rosto na fila de passageiros que embarcam no portão defronte. A funcionária da
companhia aérea apresenta as prioridades de embarque, tenta organizar aos
gritos o amontoado de gente. Aproximo-me, contornando, essa gente ansiosa por
nada: lá está ela, inconfundível. Não há meios de abordá-la, que já se prepara
para transpor o guichê, passaporte na mão. Então, faço como na adolescência:
chamar-lhe a atenção à distância. Antes, nas tardes solitárias – protegido pela
persiana do escritório, fumando sem gostar os cigarros furtados do pai, acesos
pelos fósforos com propaganda dos charutos Suerdieck, o Transglobe sintonizado
na rádio Mundial –, aguardava suas rápidas aparições no jardim da casa
defronte, para atender o carteiro ou uma visita, ocasiões em que ficava por
alguns instantes observando a rua. Espreitava suas pernas compridas por detrás
da persiana, concentrando-me para que voltasse sua atenção para a persiana
fechada, quando eu abriria como por acaso, para que trocássemos o primeiro de
muitos sorrisos. Arrisquei mais horas tantas, chuva e sol de janelas
escancaradas e pose de fumante, a música mais alta para atravessar fronteiras,
inutilmente. Terminavam as férias escolares e ela partia, toda vez para sempre,
até o ano seguinte, quando eu já me sentava ao portão, arriscava os olhares
diretos para sua figura miúda, ligeira, e depois um aceno, um convite para o
jardim vazio, até me cansar por nada.
Fixo meu olhar que atravessa o mar de gente,
cola-se às suas costas e a retém, insistindo para que se volte e sorria. Quem
sabe, percamos nossos voos e conversemos durante todas as minhas horas
recuperadas. Mas eu já me esquecia de como a odeio, e quando desaparece no
corredor de embarque, distraída na sua indiferença, revivo com toda a força o
desejo de que algo de muito ruim lhe aconteça e a determinação de desprezá-la
com a mesma intensidade com que me ignora, quando vier a mim, fragilizada e
humilde.
Os últimos passageiros transpõem a
fiscalização. Aproximo-me da vidraça, a bordo de minha mágoa perfeita e escolho
a janela da aeronave onde fixarei minha atenção, enquanto ela acomoda sua
bagagem de mão, pede licença ao passageiro da poltrona do corredor, acomoda seu
privilégio de sentar-se à janela, aperta o cinto de segurança, suspira e olha
diretamente para mim, imaginando que eu não seja capaz de vê-la, imaginando que
o meu rancor não seja capaz de atravessar tantas barreiras e aterrissar no seu
colo, tantos anos depois.
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