sexta-feira, 28 de setembro de 2018

CONTOS CORRENTES

Conto publicado na Antologia Solidária Barretos.


EM PRISCAS ERAS
(Washington Resende)

O Natal está chegando e as pessoas dizem que Papai Noel só traz presentes para as crianças que se comportaram bem durante o ano. Eu não sei bem se isso é verdade, mas das outras vezes eu fui praticamente um anjinho de procissão, daquelas da semana santa, e mesmo assim não ganhei nada, apesar de deixar a meia pendurada na janela. Talvez porque a meia tivesse um furo e o presente tenha
caído; vai que era uma bola, rolou quintal e rua abaixo? Mamãe anda muito atarefada com as costuras para fora e não tem sobrado um espaço no seu dia para coser minhas roupas rasgadas. Mal tem sobrado tempo para ela vir me cobrir e dar o último beijo da noite, antes que eu durma. Nos dias que ela não vem, como hoje, aproveito e fico lendo meus gibis até tarde, mas ela sempre percebe na manhã seguinte, pois ao vir me chamar para ir à padaria repara na luz acesa, que por preguiça deixei de apagar, já que o interruptor fica longe e, quando o sono vai me pegando no colo, deixo-me ser levado por ele. Por isso, não adianta o penico: quando durmo muito tarde acabo fazendo xixi na cama. Só que hoje dispensei meus gibis, preferi ficar relembrando como foi meu ano e se fui um bom menino.

Papai Noel, meu nome é Lucas e o meu apelido é Travado: já digo logo os dois, pois assim não tem como se enganar. Recebi esse apelido porque quando jogo futebol os outros meninos dizem que corro com as pernas duras. Não gostei muito e reclamei com a mamãe, justamente no horário da
macarronada de domingo e os familiares que estavam à mesa começaram a rir de mim. Ela passou um pito em dos eles, dizendo que isso mexe com a minha autoestima e posso ficar com traumas. Memorizei as palavras porque achei bonitas – e para procurar no dicionário depois. Com o tempo, parei de ficar bravo, pois apelido por aqui todos têm, até a mamãe. Como na vizinhança há muitas Marias, para diferenciar elas receberam o nome do marido ou da profissão dele como complemento. Há a Maria do seu Anselmo, a Maria do seu Antonio, a Maria do sapateiro, a Maria do verdureiro... Minha mãe era a Maria do seu Fernando, mas, de um tempo pra cá, mudou para Maria Baixinha, não sei bem o porquê.

Completei sete anos, por isso finalmente pude ir à escola. Não entendi a razão de muitos dos meus colegas de primeiro ano chorarem quando suas mães os deixaram para o primeiro dia de aulas e zombei muito deles, mas não sei se isso conta ponto contra mim. Fomos colocados em carteiras duplas, menino com menino e menina com menina. Meu companheiro de bancada foi o Paulo e fizemos amizade rápido. Ele mora em uma olaria, e caminha não sei quantas léguas até chegar à escola. A cabeça dele é muito grande, por isso, quando a professora nos mostrou alguma coisa no mapa-múndi eu logo fiz uma associação e virou apelido. Isso me rendeu alguns croques na hora do recreio, mas agora já pegou e ele acabou se acostumando. Na escola aprendi que, a partir de agora, terei sempre que tomar uma posição, pois meninos sempre têm que fazer escolhas, seja de lutador de luta livre preferido (o meu é o Ted Boy Marino), time de futebol (Santos), cantor (Jerry
Adriani), mocinho de faroeste (Sartana) e até de partido político (MDB). Na época da eleição, os meninos do quarto ano vieram nos perguntar se éramos lebre ou raposa, e sem fazer a mínima ideia do que era o quê, optei pelo bicho mais mansinho, a lebre. Acho que não gostaram, pois levei um monte de croques de novo. Ao chegar em casa pude saber que mamãe também era raposa (MDB), e passei a ser o que ela é. Aprendi e decorei que no Brasil existem dois partidos, MDB e ARENA e o
nosso presidente se chama Emílio não sei o que, algo parecido com garrafa azul, Médici. Na escola gosto de tudo: das lições, da professora com o rosto de anjinha, branquinho e de bochechas coradas, de jogar bafo no recreio, de pular pauzinho. Passei com nota cem e ganhei de presente da mestra um estojo de madeira com a tampa decorada de carrinhos. Sorri todo orgulhoso ao ver a cara de inveja de muitos dos meus colegas de classe.

Esse ano teve a Copa do Mundo no México e aproveitei para acender muitas velas no altar de casa para que o nosso goleiro, Félix, pegasse todas as bolas chutadas contra a sua meta. Numa dessas vezes uma lufada (segundo mamãe) de vento derrubou umas das velas e quase pegou fogo na casa toda. Mamãe ficou desolada com as imagens de quase todas as suas santas de barro queimadas. Quis
comprar uma caixa de isopor para sair vendendo sorvete na rua e ganhar dinheiro para comprar novas santinhas para ela, mas me lembrei que o meu porquinho de plástico estava vazio desde o carnaval. Gastei tudo comprando a máscara de papel com formato de caveira, o martelo plástico que buzina quando damos uma cacetada na cabeça de alguém e as bisnagas plásticas para esguichar água. Quase não sobrou para o refrigerante e a coxinha no intervalo da matinê de carnaval... Apertei a campainha de muitas casas e saí correndo, mas também: qual criança que não faz isso?

Falei muito palavrão num dia que subi na mangueira perto do campinho de futebol e, depois, feito um gatinho medroso, não conseguia descer; olhava pra baixo e começava a tremer. O Mapa-múndi, o Quaresma, o Pedrão e o Sujismundo estavam comigo e se mandaram, não sem antes zombarem de mim, dizendo que iriam buscar o meu gato para me ensinar a descer. Soltei muitos dio madonna,
porco cani, porca madonna, porco dio e lazarento, em homenagem a todos eles. Nesse dia fiz xixi nas calças lá em cima da mangueira ao ver a Ingilina trazer o seu gado para pastar. Nunca tinha visto de perto a mulher-homem, que nas histórias contadas pelos meus amigos era mulher de dia e, depois da meia-noite, virava homem. Pelas roupas que ela usava, mais parecia um cangaceiro, e que era homem em tempo integral. Ficaram uma semana inteira tirando sarro de mim na escola quando souberam que, para eu descer da mangueira, mamãe teve que levar uma escadinha e ainda me pegar no colo. Aumentaram a história, dizendo que o meu gatinho ficou lá embaixo durante o meu resgate, rolando na grama de tanto dar risada de mim.

Completei uma página do meu álbum de figurinhas, mas não era nem da televisão e nem da bicicleta, mas sim a do dominó; por isso, não considero um presente. Dia desses passou uma menininha que mora lá pelos bairros mais pobres se oferecendo para ir deitar no mato com os meninos que lhe dessem cinco cruzeiros. Disse que precisava do dinheiro para alimentar os irmãos menores em casa. Eu dei o meu pão com ovo da lancheira e o meu ki-suco para ela. Não sei que graça teria em ir deitar no mato, ainda mais dando dinheiro para isso. Dá muita coceira, além de encher de carrapicho. Minha irmã mais velha ficou de mal comigo por muito tempo depois que entrou no meu quarto com uma amiga para fofocar e não reparou que eu estava embaixo da cama procurando o gatinho e a ouvi dizer
que não era mais moça, mas que uma tal de menstruação descera, graças a Deus. Quando tive a oportunidade de perguntar para a mamãe o porquê dela não ser mais moça, “se ela era moça”, e quem era essa amiga dela chamada menstruação, pois eu não conhecia, nem imaginei que essas simples perguntas fizessem a família toda marcar uma reunião da qual somente eu não participei.

Frequentei todas as aulas do catecismo e, agora em dezembro, foi a festa de despedida na igreja. Estenderam um grande tapete vermelho perto do altar, cheio de presentes para as crianças escolherem, com os mais assíduos sendo os primeiros nomes a serem chamados. Meus olhos brilharam e ficaram hipnotizados pelas cores mágicas da caixa do futebol de botão. Seria minha, com certeza. Estranhei quando amigos que eu sabia não terem assistido todas as aulas foram na minha frente. Ao término da lista fui esquecido e só pude sair correndo da igreja para que ninguém me visse chorar. Desde que meu pai abandonou o lar e foi morar com outra mulher, parece que as pessoas quase sempre se esquecem de chamar a gente para tudo. Fui engolindo as lágrimas no caminho para casa: não quero levar problemas para mamãe. De vez em quando, do meu quarto, escuto-a gemendo e
chorando baixinho na hora de dormir.

Tenho sentido muita falta do meu tio Zequinha. Ele me levava sempre para ver os jogos da várzea em todos os campos da cidade. Morreu bem no dia do jogo do Brasil com o Peru, e eu achei estranho sentir tristeza e alegria em um mesmo dia. Não deixaram as crianças irem ao velório e, de noite, tive muito medo na hora de dormir, já que os fantasmas da morte deviam estar nos rondando com seus
enormes lençóis brancos. Ouvimos muito barulho lá pelo quintal e, segurando um na mão do outro, resolvemos fazer uma cruzada para investigar o fato. Vai que era o espírito do tio Zequinha. Para nossa agradável ou frustrante surpresa o barulho só era de goiabas maduras caindo sobre o telhado de zinco da fossa. Voltamos a nos deitar e fiquei imaginando se, no céu, há de existir campos de várzea assim como os nossos, daquela terrona vermelha que até brilha quando bate o sol e se a porta de entrada é por um caminho que tenha que passar por debaixo de traves feitas de madeira. Aí sim acho que mereceria o nome de paraíso. Ouvi dizer que ele morreu de uma doença que chamam de “a mardita” e que tem o mesmo nome do meu signo. Como é que pode isso?

Bem, Papai Noel, o sono já veio me carregar no colo, melhor eu ir me despedindo. Dessa vez vou ter o cuidado de escolher a minha maior e melhor meia para deixar à janela, vou colocar também um saco de estopa, pois assim acho que caberia uma bicicleta. Se não der, pode ser um Kichute (não é desprezo, mas, por favor, Conga não, dá muito chulé) ou uma bola de capotão número cinco, ou bolinhas de gude, uma cueca, o papai de volta...

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