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quarta-feira, 14 de novembro de 2018

CANTIGAS DE AMIGOS

Poema publicado origialmente na Antologia Solidária Barretos.

Carpe Diem

(Luciano Adrade)

Quem vive a falar do amor, sofre por não tê-lo.
Assim como quem vive a orar para Deus, sofre por não conhecê-lo.
Não sofro mais por amor, o guardo com zelo,
E não me demoro com Deus, para não comprometê-lo.

Joguei meus sofrimentos na correnteza do desfiladeiro,
E nos dias presentes dei-me ao amor ambíguo,
Que de hora é amigo, hora amante ferrenho.
Amor é assim, não se abstém.
É complexo de sentimentos, que unidos lhe convém.

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

CONTOS CORRENTES


Conto publicado originalente na Antologia Solidária Barretos.

ONOFRE


(Uilian Gonzales)


Era um conjunto residencial, daqueles muito em moda na primeira metade da década de 90.
Classe média baixa, renda pouca, taxistas, contadores, pequenos empresários.

Prédios de três andares, sem elevador, carros no sol, campo de peteca e uma mal mantida piscina.

Meio velho, decadente, sujo; parecia que os moradores tinham exaurido toda a sua renda no pagamento das prestações do BNH e que nenhuma reforma era acolhida pelos condôminos. É o que se via na pintura descascada e no lamentável estado dos jardins.

Mas, se o dinheiro escasseava, a disposição não; a quantidade de meninos que circulavam pelas partes comuns dava ideia de que todos os maridos estavam funcionando regularmente; também o alarido, o comportamento indicava que se tratava de meninos com uma educação básica, sem finura, sem requintes; eram filhos de pais mais preocupados com outros problemas do dia a dia. Com pouco tempo e dedicação para com os filhos; de famílias sem conversa, cada um na sua.

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

CONTOS CORRENTES


Conto publicado originalmente na Antologia Solidária Barretos.

BARRETOS, EU ESTAVA LÁ   


(Fatima Simamura)

Sempre brinquei com Carol, minha filha caçula, que gostaria de escrever uma carta para ela ler quando estivesse bem velhinha. Em envelope lacrado, a missiva ficaria guardada e ela só poderia abrir quando eu estivesse “quase” caducando, mas não a ponto de não saber mais quem eu fui.

Entretanto, ocorreu-me ideia melhor: por que não escrever sobre minhas melhores lembranças, numa espécie de evolução da vida?

De lá pra cá, venho registrando tudo que me brota de lembrança. Claro, começando pela minha infância em Barretos. A continuar assim, acho que a carta poderia virar um livro. Mas, como aqui só há espaço para contar pequenas aventuras e traquinagens, então vamos aos antecedentes.

Posso me considerar uma pessoa de sorte, pois nasci numa família linda, rica de caráter e bastante numerosa. Nada a ver com as famílias reduzidas de hoje em dia.

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

CONTOS CORRENTES

Conto publicado na Antologia Solidária Barretos

Sidcley e o Futebol

Raquel Milagres de Mattos 
I

A final do campeonato estadual estava acirrada e não havia chance das equipes atacarem com possibilidade real de gol. O técnico saca do time dois figurões – que não estavam fazendo nada, só se arrastando e perdendo a bola – e coloca dois novatos. Se era pra perder, que fosse arriscando e não sendo chamado de atrasado. Há 10 anos o time não era campeão e a cobrança de todo mundo era muito grande e, com a chegada à final, a pressão aumentara.

Um dos meninos que era a opção do técnico – Sidcley – era o mais tímido deles e mal podia acreditar na sua sorte. Ia jogar! Iria realizar o sonho de menino! Na concentração e nos treinos, era deixado de lados por seus companheiros e até mesmo seu técnico não lhe dava as devidas oportunidades. Os demais se reuniam e grupos de orações, Glória a Deus – eles gritavam, mas o deixavam de fora. No fundo ele achava melhor, mesmo. Sua mãe sempre dizia pra se afastar daqueles que falam uma coisa e fazem o contrário. Mas, às vezes, ele se questionava: O que eu fiz para eles? Por que eles me odeiam se nem me conhecem? Queria mesmo deixar pra lá, mas ainda não conseguia de fato.

Com um misto de curiosidade, perplexidade e euforia, parou à beirada do campo e recebeu tapinhas nas costas do treinador, do preparador físico – que até lhe ofereceu um copo d’água – do jogador que havia saído para ele entrar. Surpreso pela recepção, Sidcley se sentia entorpecido. Entrou em campo com o pé direito, se benzeu – como sua mãe havia lhe ensinado – e correu para o meio, onde era seu

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

CONTOS CORRENTES

Conto publicado na Antologia Solidária Barretos

“Nas rédeas do tempo”

(Adalgisa Borsato)

Nasci em uma região onde “...o boi pasta tranquilo nas invernadas do amor”. Tudo era bom quando ainda era uma menina. Mas, como sabemos, existem as “Etapas”, passar por elas é “Inevitável” e aprender “É Preciso”.

A primeira coisa que mamãe me ensinou foram “Boas maneiras”. Quando entrei na escolinha rural aprendi “No reino da alegria”.

“A Caminhada” até chegar à escola eu passava por muitas “Emoções”, pois apreciava “Cenas” e “Contrastes” da vida rural, com “Momentos” Inesquecíveis”.

A distância até a escola era longa. Em minha imaginação infantil; ela parecia estar “Um pouco além do mundo”. Eu ia contando “Um, dois, três ... nada”, só restava “Sangue, suor, sono”.

sexta-feira, 28 de setembro de 2018

CONTOS CORRENTES

Conto publicado na Antologia Solidária Barretos.


EM PRISCAS ERAS
(Washington Resende)

O Natal está chegando e as pessoas dizem que Papai Noel só traz presentes para as crianças que se comportaram bem durante o ano. Eu não sei bem se isso é verdade, mas das outras vezes eu fui praticamente um anjinho de procissão, daquelas da semana santa, e mesmo assim não ganhei nada, apesar de deixar a meia pendurada na janela. Talvez porque a meia tivesse um furo e o presente tenha
caído; vai que era uma bola, rolou quintal e rua abaixo? Mamãe anda muito atarefada com as costuras para fora e não tem sobrado um espaço no seu dia para coser minhas roupas rasgadas. Mal tem sobrado tempo para ela vir me cobrir e dar o último beijo da noite, antes que eu durma. Nos dias que ela não vem, como hoje, aproveito e fico lendo meus gibis até tarde, mas ela sempre percebe na manhã seguinte, pois ao vir me chamar para ir à padaria repara na luz acesa, que por preguiça deixei de apagar, já que o interruptor fica longe e, quando o sono vai me pegando no colo, deixo-me ser levado por ele. Por isso, não adianta o penico: quando durmo muito tarde acabo fazendo xixi na cama. Só que hoje dispensei meus gibis, preferi ficar relembrando como foi meu ano e se fui um bom menino.

Papai Noel, meu nome é Lucas e o meu apelido é Travado: já digo logo os dois, pois assim não tem como se enganar. Recebi esse apelido porque quando jogo futebol os outros meninos dizem que corro com as pernas duras. Não gostei muito e reclamei com a mamãe, justamente no horário da

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

CONTOS CORRENTES

Este conto integra a coletânea Antologia Solidária Barretos.

Vida: amores, encontros e desencontros

(Roseli Tineli)

Desencontros


Ana tinha os cabelos longos e escuros como os seus olhos. A primeira vez que a vi foi na casa de um conhecido. A camiseta dela logo me chamou atenção, tinha uma referência da minha banda favorita, e que achei ninguém que gostasse. Ela tocava baixo na banda dos meus amigos e de lá fomos para onde eles se apresentariam naquela noite.

Era mais maravilhosa do que eu pensava. Em menos de uma noite, conseguiu me conquistar mais do que qualquer outra pessoa já tenha. Perguntou se eu gostaria que me apresentasse a cidade da sua maneira, de um jeito que eu não conhecia. Respondi que sim. Então, ela me puxou e saímos para a rua. Fomos para o seu bar predileto, depois ela tentou me ensinar a cantar no karaokê do centro; claro que só passei vergonha. Ainda conseguimos passar em uma balada. Quando amanheceu, decidimos tomar café na padaria da rua dela.

Aliás, descobri que a rua em questão cruzava com a minha. Como eu não conheci aquela menina antes? Comentou comigo o quanto amava aquele endereço e que seria difícil achar um tão bem localizado novamente. Eu fiquei meio sem entender até ela contar que estava de partida para a França na próxima manhã. Não teve como disfarçar a minha cara de surpresa. Mais uma vez, eu te pergunto: Como eu não a conheci antes?

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

CONTOS CORRENTES

Este conto foi publicado originalmente na Antologia Solidária Barretos.


Um Mensageiro Contou

(Glaucia Chiarelli)

A fantasia não pode ir embora do universo infinito de cada ser como se fosse moda, tendência praticada em uma fase da vida, e que, depois, com o tempo, se esvai. Como se fosse mais um costume de estação.

Naqueles tempos, já meio distantes do agora, em que eu praticava uma feitiçaria chamada brincadeira, me lembro que o mundo era vasto e habitado pelos mais diferentes seres. Tinha monstros e amigos e rotinas que precisavam de mais horas do que tem um dia inteiro. Os meses eram infinitos e os anos lembravam uma era. Todos os seres eram deuses e tinham o poder de criar terras, moradas e esconderijos. Os cantos eram entoados em conjunto e transformavam o mundo, o povo e os próprios cantadores.

Eu ainda me recordo.

Certo dia, naquelas horas de fazer nada, naqueles momentos em que mente e coração se abrem num lampejo e se ajuntam em mente e espírito, recebi a visita dos mensageiros. Vindos do Leste, queriam água e pão, e ouvidos e alma leve.

sexta-feira, 31 de agosto de 2018

CONTOS CORRENTES

Este conto foi publicado originalmente na Antologia Solidária Barretos.

A Princesa e o Super-Herói                               

(Renata Romami)


Em um momento de coração partido, sonhos perdidos e desesperança, ela chegou; no mesmo instante, tornou então a pulsar aquele coração com vigor e o encheu de esperança, planos e sonhos. Aconteceu em um reino tão, tão distante (até torcíamos pela criação de um trem-bala nas próximas eleições): rompemos todas as fronteiras, estradas e postos de gasolina, (já que não usamos a carruagem tradicional, devido aos buracos na pista), para acalentar nos braços aquela que nos foi enviada pelos anjos da guarda. Uma linda Princesa, delicada, serena e com a pele tão clara que, em alguns momentos, confundíamos com a Branca de Neve. A nossa Bela já nasceu com uma Fera ao seu lado, um fiel escudeiro que, mesmo com um comportamento bruto, rústico e sistemático, não podia ouvir qualquer chorinho da pequenina que corria com as suas quatro patas e colocava seu focinho vermelho na janela com olhar de bronca contra todos os cuidadores que a cercavam.

Parceria implacável: imagine só um ogro canino com tiara de princesa?
Vai entender aquela amizade tão forte e parceira, de cumplicidade tamanha que as casas de aposta afirmam que, no futuro, a princesa se tornará doutora dos bichos. Esta menininha cresceu com toda graça e beleza. Por vezes, conseguimos enxergar ao redor dela aquelas estrelas brilhantes que rodeiam a Cinderela quando a Fada Madrinha lhe concede um lindo vestido para o baile.

E, nas férias de verão, esta miúda se encantou com as águas claras; como Pequena Sereia, cantarolava o dia todo: quem me ensinou a nadar... foi foi foi minha pimáaaaa! Foi foi minha pimáaaaa. Tanto o encanto quanto a meiguice cresciam da mesma forma que os cabelos da Rapunzel. Ah! Não existiam melhores tempos para aquele coração que contei no início do que estar bem pertinho daquela Princesa, que adorava estar em volta de papéis e tinta, desenhando para todos do seu reino encantado (mesmo estes ainda sendo devidamente acompanhados de tradução, já que eram extremamente
abstratos, necessitando de legendas) e descobrir onde encontrar pombos-correios para as entregas.

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

CONTOS CORRENTES

Conto publicado na Antologia Solidária Barretos.  


Tudo pode acontecer

(Rosa Carneiro)

Sempre fora a maior fazenda da redondeza.

Muitas gerações da família Souza Oliveira haviam passado por ela e habitado aquelas cercanias.

A casa grande guardava muitos detalhes de épocas remotas: quadros, móveis, janelas altas, lustres de cristais, que reportavam quem a visitava para tempos antigos e histórias das grandes fazendas da região.

A silenciosa mansão era rodeada por um muro que mais parecia uma muralha, pela sua altura e fechamento. O portão da entrada era de madeira de lei, talvez jacarandá, cujo ferrolho datava de longínquos tempos medievais.

Grandes palmeiras imperiais, deveras milenares, formavam duas bonitas alamedas na entrada principal. Tudo era imponente! Dependências como haras, galpões que, em épocas antigas, serviam de senzala para os escravos, hoje já desgastava pelo tempo, ficaram ao lado sul da referida mansão.

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

CONTOS CORRENTES


Conto publicado na Antologia Solidária Barretos.  

ANJO OU DEMÔNIO
                 (Julia Britto)

Ana nasceu quase morta. E rejeitada. Os pais queriam um menino. Sobreviveu graças à piedade de uma vizinha, que tinha criança pequena e a amamentou. Cresceu quieta, sem incomodar. Adolescente, o pai levou um servente de pedreiro, bem mais velho, para conhecê-la. Procurava alguém para se casar, que cuidasse da casa, das roupas e da comida. E lá se foi Ana. Mudou de senhor. Continuou a servir.   

O marido não queria filhos. Sempre que o corpo apresentava mudanças, ela tomava chá de capim espinhoso, que causava hemorragia. Mesmo sem saber ler e escrever, conhecia as propriedades das plantas. Aprendera com a mãe de leite. Certa vez, demorou a perceber as mudanças e, quando tomou o chá, já era tarde. A criança veio ao mundo e o marido ficou ainda mais zangado porque era uma menina. Nunca mais se deitou com Ana.

Uma vez por semana chegava do serviço com uma mulher e ia direto para o quarto. Ana ia para a casa da mãe de leite, com a filha. Voltava para servir o jantar. Pior era quando o marido chegava bêbado. Apanhava em silêncio. Um dia, Ana foi à mercearia e um homem que jogava bilhar sorriu-lhe. O sorriso não saiu mais de sua cabeça. Alguém a notara. E algo mudou profundamente dentro dela. Já não saía mais quando o marido chegava com alguma mulher. Ficava na cozinha e deixava que a filha chorasse. Para incomodar mesmo. Sabia que depois apanhava, mas já estava acostumada.

quinta-feira, 12 de julho de 2018

ANTOLOGIA SOLIDÁRIA

Barretos não tem só “peão de boiadeiro”, Barretos tem cultura. Já passei por lá diversas vezes em missões literárias. Me lembro do Matinas Suzuki, intelectual e agitador cultural cujas marcas persistem na cidade. Matinas nos deixou e o bastão de estafeta foi assumido pela escritora Sada Ali.

Com o secretário da Cultura de Barretos, João Batista Chicalé
A Sada, uma pessoa mergulhada em sua realidade social e na vida da cidade, criou (não sem a participação do Depto. de Cultura do município e outras pessoas da área) um projeto em que literatura e ação social se conjugam. A Antologia Solidária reuniu (através de concurso) vinte autores da cidade dos mais variados gêneros para que se integrassem ao livro editado pela Editora Pirapora. Foi também participante da organização o Luiz Felipe Nunes, dono da
editora.

Na noite do lançamento, os livros foram vendidos ao público em geral e a verba arrecadada
será entregue ao Fundo Social da Prefeitura local.

Como tive a honra de prefaciar a coletânea, fui também convidado a autografar os livros na
noite de seu lançamento. Foi uma festa e tanto à frente da Livraria Nobel, no North Shopping
de Barretos, uma cidade que está de parabéns.

Vejam a cobertura fotográfica do evento:

Com a organizadora da Antologia Solidária Sada Ali


Entrevistas para a Rede Vida e o jornal O Diário


Entrevista para a TVB












sexta-feira, 6 de julho de 2018

PÉ NA ESTRADA

Lançamento e autógrafos em Barretos

Na próxima quarta-feira,  dia 11/08/18, devo estar em Barretos, cumprindo a sina de quem deve estar "onde o povo está."


Devo chegar por volta das 10h para uma série de encontros e entrevistas. O convite foi da escritora Sada Ali, que idealizou a coletânea Antologia Solidária  reunindo textos de autores da cidade.

Tive a honra de prefaciar a Antologia, razão por que fui convidado para seu lançamento às 20h da data acima.

Os participantes do livro não tiveram ônus algum, de vez que a Secretaria da Cultura do município apoiou o lançamento e arcou com as despesas. Logo após, devo autografar meu romance mais recente: Noite adentro