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segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

CARTAS DO INTERIOR

Esta coluna reúne crônicas de Menalton Braff .

Ambição excessiva

Toda vez que alguém cai no conto do vigário (e como tem ainda gente caindo!) me lembro de Pedro Malasartes. A ideia de que é possível um ganho fácil e fabuloso, faz crescerem os olhos da futura vítima

Nossos valores, geralmente sedimentados na infância, eram transmitidos pela família, pelas histórias que se ouviam ao redor da mesa depois do jantar. Isso num tempo em que ainda não se jantava na frente da televisão, o prato no regaço. Meu velho gostava de nos contar história e mantinha na memória um belo estoque destas narrativas. Entre aquelas de que mais gostava, estavam as histórias de Pedro Malasartes, tradição que nos veio da Idade Média europeia.

Não me lembro agora o tipo de maldade ou travessura praticada pelo Pedro Malasartes contra a filha do rei, mas o fato é que foi suficiente para que o monarca se enfurecesse e o condenasse à morte por afogamento. Enfim, vivia-se um sistema político e social em que o rei era dono de todas as propriedades assim como também dos proprietários. Executivo, legislativo e judiciário tudo concentrado em uma só pessoa. E há quem defenda algo semelhante nos dias atuais.

Preso no interior de uma barrica, lá foi o Pedro, de carroça, na direção do lago real, local muito apropriado para execuções do gênero. Nas vizinhanças do lago havia uma taverna, claro, e os dois funcionários encarregados da execução da sentença real resolveram que a hora era boa para uns copos de vinho.

Espiando pelas frestas da barrica, Pedro Malasartes tudo viu. Neste momento aproximava-se uma carruagem ricamente ornamentada. Em sua boleia, ao lado do condutor, vinha um jovem que, por suas vestes e pela altura do nariz, era de alta estirpe. Algo logo abaixo da condição principesca. Pedro então começou a gritar:

− Não sei ler, não sei escrever, e querem me fazer rei. Não sei ler, não sei escrever, e querem me fazer rei.

O jovem ordenou que a carruagem parasse e foi informar-se do que acontecia. Não precisou de muitas palavras, o rico jovem, para descobrir a injustiça que se ia cometendo. Em pouco tempo, alguns arranjos rápidos para que o jovem de alta estirpe estivesse encolhido no interior da barrica, enquanto Pedro aboletava-se rapidamente na carruagem.

O final da história, isso aprendi com meu pai, não era contado. Nós, seus atentos ouvintes, éramos estimulados a inventá-lo, o final, e o fazíamos de acordo com as inclinações individuais.  Os finais variavam, mas todos eles davam o jovem de alta estirpe como justamente afogado no lago real. O destino do Pedro Malasartes é que mantinha nossas diferenças de índole.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

CONTOS CORRENTES

Pulso Instantâneo
(Anderson Braga Horta*)

(começa a criação:) o ponto indimensional explode do seu nada e cria-se um espaço. organizam-se as partículas e, comendo o inexistido, rarefazem-se, crescem, bolhas inflando-se, reexplodindo-se em bolhas bolhas que recrescem, rerrarefeitas, em torno ao eixo inicial. rerrecresce cada esfera, soprada-se, milparte-se. leucócitos vertiginosos, recriam-se de si. milhões, bilhões, grilhões —cadeia dinâmica— se grupam em redor de novos centros subaxiais. percorre-se o eterno processo as inumeráveis fases eternas. subsubeixos. galáxias de galáxias. no fim de cada eternidade, esférulas resfriam. o incidente das nuvens e das águas. e nas águas um ponto protoplásmico refaz o cósmico no orgânico. a criação pensa-se. e o ponto continua inflando-se- partindo, até o termo do infinito. o amor, depois de percorridas as infinitas etapas, atinge a máxima força de expansão. o universo lateja entre o nada e o tudo, pulso: à rarefação do nada inicial sucede a contração da matéria infinita. repercorre-se deus e a um gesto de si mesmo se concentra em (começa a criação:) o ponto indimensional implode do seu nada e cria-se um antiespaço. organizam-se as antipartículas e, comendo o existido, concentram-se, descrescem, bolhas desinflando-se, reimplodindo-se em bolhas bolhas que redescrescem, reconcentradas, em torno ao eixo inicial. rerredescresce cada esfera, sugada-se, milunem-se. antileucócitos vertiginosos, descriam-se de si. grilhões, milhões, nilhões —cadeia dinâmica— regrupam-se anulando centros subaxiais. percorre-se o eterno processo as inumeráveis fases eternas. subsubeixos. antigaláxias de antigaláxias. no fim de cada eternidade, esférulas resfriam. o incidente das nuvens e das águas. e nas águas um antiponto plásmico refaz o cósmico no orgânico. a criação pensa-se. e o ponto continua desinflando-se- unindo, até o termo do infinito. o amor, depois de percorridas as infinitas etapas, atinge a máxima força de coesão. o antiuniverso lateja entre o tudo e o nada, pulso: à concentração do todo inicial sucede a rarefação da antimatéria infinita. repercorre-se deus e a um gesto de si mesmo expande-se em (começa a criação:) o ponto indimensional




*Anderson Braga Horta, nascido em Carangola, MG, a 17.11.1934, fez o Ginásio em Goiânia e Manhumirim, o Clássico em Leopoldina e a Faculdade Nacional de Direito no Rio de Janeiro. Está em Brasília desde 1960. Publicou ensaios e contos, além de poesia, seu gênero de eleição. Este conto é extraído do livro homônimo, editado pela Thesaurus, em Brasília, 2008.

sexta-feira, 5 de abril de 2019

CONTOS CORRENTES

... E nem sequer me viste
(Joaquim Maria Botelho inspirado em um poema de Olavo Bilac)

Viu-a só uma vez. De relance. Loura, luminosa, clara. Cabelos cacheados emoldurando o rosto de menina, um olhar perdido, que num primeiro momento parecia estar focado sobre ele. Mas foram segundos. Passou pela frente da casa, retardando um tanto a caminhada – quem sabe ela voltava para mais um ligeiro estar abandonada sobre os cotovelos, na janela da casa bonita, bangalô florido, da Rua dos Ingleses. Não veio. E ele não teve mais como se demorar pela vizinhança. Podia ser tido como um malfeitor que espreita as casas para de noite roubar. Preferiu ir embora.

No dia seguinte não pôde passar pela frente do bangalô. Urgências profissionais o chamaram para outros bairros, outras cidades. Era um técnico prestigiado, tinha muitos e muitos chamados que atender, e atendia-os todos, sim senhor, pois não. Simpático e eficiente, era um gosto ser servido por ele. E o trabalho se avolumava. Mesmo entretido,
porém, sempre encontrava tempo de pensar na linda e sedutora imagem da moça, na janela.

Foram-se três semanas, quando soube que teria um domingo de folga. Sentiu aquecer-se-lhe o coração, na expectativa de passear pelo bairro da Bela Vista. Quem sabe conseguiria seguir pela calçada, mãos nos bolsos, assobiando calmamente como quem não tivesse mínima preocupação nesse