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sábado, 21 de novembro de 2020

RETALHOS 2020 - COPO VAZIO

RETALHOS 2020 é uma série de vídeos gravados por Menalton Braff para apresentar os seus 26 livros já publicados (existem inúmeros outros ainda inéditos). A obra que Menalton apresenta hoje é "Copo vazio", lançado em 2010, pela FTD.


sábado, 14 de novembro de 2020

RETALHOS 2020 - CASTELOS DE PAPEL

RETALHOS 2020 é uma série de vídeos gravados por Menalton Braff para apresentar os seus 26 livros já publicados (existem inúmeros outros ainda inéditos). A obra que Menalton apresenta hoje é "Castelos de papel", lançado em 2002, pela Nova Fronteira.

quinta-feira, 12 de novembro de 2020

'UM PENSAMENTO' TERÁ ENCADERNAÇÃO MANUAL

O livro conta a história de Duque - um cachorro que ganhou sua casinha e, em suas páginas centrais, essa
casinha será apresentada às crianças de forma tridimensional.

A edição de UM PENSAMENTO está sendo cuidadosamente preparada pela  Editora PinCéu, que caprichou nos detalhes. A capa será de papel reciclado e o livro terá encadernação manual. 

Quem tiver intenção de adquirir o livro, deve ficar de olho porque a edição será de apenas 200 exemplares. O custo de cada exemplar será de R$63.

A PinCéu  nasceu em plena pandemia, e está de vento em popa. A editora  tem direção de dois veteranos no universo editorial: a ilustradora Semíramis Paterno e o poeta Lincoln Campos de Carvalho. 


quarta-feira, 11 de novembro de 2020

CANTIGAS DE AMIGOS

É ASSIM QUE PEGA

(Cláudio Willer)

2*

O poema que deixei de escrever em 1965:

As ruas são de ácido e os túneis estão em chamas
O pé é lisérgico
A mão é um mantra
As Índias Ocidentais ficam logo aí, basta dobrar a esquina
- nós somos as Índias Ocidentais

E eu também já escrevi assim:

sábado do continente imerso

domingo da cidade que respira
segunda-feira da poesia que me toca
terça do mundo que recomeça
quarta para ler um poema com ênfase
quinta do sono azul
sexta da sabedoria
sábado: todas as cores
da rapidez
da vertigem


*  Para ler a parte 1, ma 1, clique aqui

terça-feira, 10 de novembro de 2020

ORELHA

 Esta coluna reúne comentários de Menalton Braff a livros de outros autores.

Palavras coloridas

Jean-Paulo Sartre, na tentativa de dar resposta à pergunta “o que é isso, a literatura?”, acabou criando aquela metáfora simples e esclarecedora das palavras coloridas. Na linguagem informativa, a linguagem de todo dia, não vemos o vidro através do qual nos chega a realidade. Ele, o vidro, é transparente. Não é o que ocorre na literatura, em que o vidro está pintado e suas cores chamam a nossa atenção. Assim é a poesia do prosador e poeta Gilberto Abreu, que neste Lorca balada louca, sétimo livro de sua autoria, consegue, do início ao fim, manter o equilíbrio entre os dois planos de que se compõe a literatura: o plano da expressão e o plano do conteúdo. Já não se fala mais da neutralidade da palavra, e, mesmo quando colorida, ela é suporte de significação.

Desde Feto outonal, de 1975, passando por A minha primeira morte, ambos de poemas, seguidos pelo livro de contos Chão de mundaréu, de 1985, e pelos dois romances, Mande beijos a Gardel e Nossas roupas comuns dependuradas, pode-se entender como o carimba de sua marca o duplo objetivo: a fruição, a emoção estética, sem descurar uma aguda reflexão sobre nossas condições de seres humanos.

Nessa carreira que já lá vai pra mais de trinta anos, Gilberto Abreu foi amadurecendo seu estro, mas sem esquecer alguns princípios que sempre o nortearam.

Ele chega ao Lorca balada louca com muita experiência na bagagem, além de um dos mais importantes prêmios da literatura brasileira, o Prêmio Guimarães Rosa, conquistado com Mande beijos a Gardel. 

Neste livro, alternam-se ruptura e tradição. Há poemas de versos livres e brancos em meio a outros em que há traços de rima e métrica. Traços, porque não existe mais aquele rigor de usar fita métrica para versejar nem os esquemas rímicos seguem a tradição. E isso significa que a espontaneidade do verso substitui a camisa-de-força das técnicas de versificação. Mas não nos enganemos, a ausência de isometria não dispensa a unidade rítmica tensa dos versos, mesmo quando livres.

Considerando outras dimensões de sua poesia, o que se encontra neste Lorca balada louca, são homenagens a seus irmãos poetas, como Lorca, Octávio Paz, Drummond, e muitos outros. Do poema inicial do livro − Ode a Federico – são os versos Federico,/há em tudo, todo um lamento./Gritos ecoam nas sombras,/ vozes de mortos no vento... E é bem clara a alusão às tragédias da Guerra Civil Espanhola.

Há várias cidades citadas, todas elas, ou sua maioria, por terem recentemente testemunhado até que ponto pode chegar a brutalidade humana. O autor de Globalização pra quem? (2006), um livro de ensaios, é cidadão do mundo, tem consciência de que navegamos um barco diminuto, muito diminuto, para que nos preocupemos apenas com o fundo de nosso quintal. Da estirpe de um João Cabral de Mello Neto, por uma parte de seu projeto estético, a certa altura, quando pede à musa sua frauta, doce avena, ele diz:

Um cântico

que soe metálico

que aborreça

que acorde os homens

não que os adormeça.

(...)

E ainda sobra espaço para falar daquela Bárbara, a Heliodora, a quem, da prisão, Alvarenga Peixoto, seu marido e um dos inconfidentes, enviou os versos com que eternizou sua memória.

Este livro do Gilberto Abreu é um passeio pelo mundo contemporâneo, um périplo pela cultura universal, numa carruagem toda colorida que se chama poesia.

domingo, 8 de novembro de 2020

VEM AÍ O NOVO LIVRO INFANTIL DE BRAFF

Dentro de algumas semanas, chega ao mercado editorial o 27° livro de Menalton Braff. 

UM PENSAMENTO é dirigido ao público infantil. O livro conta a história de Duque - um cachorro que ganhou sua casinha - com belas ilustrações de Semíramis Paterno. 

Para embalar esse conteúdo, a Editora PinCéu se esmerou nos detalhes, como capa de papel reciclado, encadernação manual e um pop up nas páginas centrais que mostraremos somente na próxima postagem. 

O livro já está na gráfica e quem tiver interesse em adquirir um exemplar é bom ficar de olho em nossas postagens do blog e das redes sociais, porque são apenas 200 exemplares. 

A PinCéu é uma editora que nasceu em plena pandemia, sob a direção de dois veteranos no universo editorial: a ilustradora Semíramis Paterno e o poeta Lincoln Campos de Carvalho. 



sábado, 7 de novembro de 2020

RETALHOS 2020 - A MURALHA DE ADRIANO

 RETALHOS 2020 é uma série de vídeos gravados por Menalton Braff para apresentar os seus 26 livros já publicados (existem inúmeros outros ainda inéditos). A obra que Menalton apresenta hoje é "A muralha de Adriano", lançado em 2007, pela Bertrand Brasil.



sexta-feira, 6 de novembro de 2020

CONTOS CORRENTES

La última noche que pasé conmigo. 

                                       bolero estrigiforme

(Luiz Duboc)

(…) estas abominareis, serão abominação e o bufo, e a coruja estas devem vê-las, olhá-las como detestáveis entre os pássaros, elas não servem para comida.

Levítico, 11 – 13, 17


‘A noite perdeu as cores, deformou as formas, afoga.

‘Nada me espanta mais que o dia a dia. O cotidiano de todos os dias agora me engana perdida, vôo sobrevivendo, buscando qualquer coisa me espanto.

Reconheceria um sonho meu se o visse? Vislumbrei o sol morrendo sem horizonte. As imagens do hábito largam um sentimento de terror.

‘Acordei respirando mal no galho mais alto da larga e comprida figueira. Não dormi no campanário, a claridade se o sol é muito forte incomoda, volta e meia acordo, não durmo direito, tentar dentro do sino onde tem algum espaço na corrente que segura o pêndulo, nem é pelo sino que está morto desde que descobri o campanário, a igreja também abandonada, ali resolve se chove forte, não é lá muito cômodo. Nem bem no pico da torre onde se juntam os paus da cumeeira, escuro mas o sol se está forte chegam restos de luz, um forno de meio-dia até anoitecer. Melhor no cume pela copa da árvore mais gorda e galhada, no cocar de folhagens arrumo um quarto escuro, fresco e bate vento sem assustar. Esperando serena anoitecer de verdade.

‘Noite é meu dia, amor eterno invencível com todos os sentidos, meus olhos mais que a veem, a sentem, o olfato a escuta, meus ouvidos a respiram, toda a carne do meu corpo se delicia na ânsia gulosa na perdição da volúpia, basta o sol ir morrendo vai crescendo a alegria me invade, me sinto menos velha mais ativa, minha sombra na sombra negra me embriago na imensidade de escuridão, vibro meu grito de prazer, pros outros sinistro, nem conhecem a felicidade da solidão da noite. Amo a noite, nunca foi criança pra mim. Uma dona de meia idade que nunca envelhece desde que o sol morreu no horizonte a primeira vez. Não fosse a noite não sobrevivo sem seu trato gostoso de fiel companheira, é minha, estou, sou casada com noite, não fujo pra noite, a vivo, sou a noite. Quando começa o ar ligeiro anunciando o amanhecer, então, sim, fujo. Não dá, não sei como indicar, explicar, mostrar, me revelar contando pra que compreendam o fato, me entendam, não sei, sei só que é assim a minha noite.

‘Toda vez que acordei hoje da vigília preocupada com o que ainda vou pensar até a outra vigília. A noite tem seus caminhos. Caminhar por eles sozinho já me levou até a repetir ou errar o que sabia, pensava. Percorrê-la, percorrê-los, andar por um sendeiro tão irreal num destino tão real, mas falso, e em sendas tão reais em direções tão irreais, mas verdadeiras. Encontrar-se?, me encontro comigo toda noite em frente da escuridão, meu espelho.

‘Me trate por Suindara, me esqueci que quer dizer, estou faminta pra pensar nisto, têm modos mais rápidos de saber, se lhes interessa, não confundam com a Buraqueira, nada contra ela, não é bom ser confundida como quem não se é, não quero ser confundida com quem não sou. Ela é buraqueira profissional, moradias no chão, eu fico perto do céu, no alto das igrejas, não, não creio, minha fé trago comigo, sou fiel a mim, lá, no campanário onde batem os sinos, tem essa aqui perto, quando mais moça, no primeiro amanhecer que aterrissei no campanário, a música daqueles pianos com tubos, e cantorias, acordei assustada nessa única vez, hoje nem mais cura tem, no fundo, prefiro. Estou faminta, paciência tenho ou morria de fome, pouco mais de sorte ajudava, gambá matou metade da fome, o resto larguei na igreja, duas noites não garreio, três? perdi a noção, nem um rato, me queixar não adianta, vivem atirando na gente pra acabar com a má sorte, sorte a deles exterminar a nossa, estupidez vem com crueldade, se queixar não leva a nada.

‘Faminta e ressabiada, não da fome, mas cada vez que falava comigo vinha um ar feito fumaça feito me cobrindo, coisa de mortos pelos restos das noites. Falar comigo minha maior descoberta, minha mãe me largou sozinha lá em cima eu que aprendesse a nadar ou me emborrachava, pensar alto é boa saúde, vivi, me viciei.

Lógico que tenho ideias mas são pessoais, privadas.

‘Não sou dessas águias, falcões, condores que saem se pavoneando pelos ares, escapo deles, não disputo com urubu não disputo com irmão. Difícil de se ver coruja dando sopa, ainda mais eu nessa cor bege mais de burro quando foge me confundo, mais pra dormir, pra caçar tenho a minha noite que eu amo. 

‘Me conheço, me estabeleço, levo meus 40cm de ser maior e mais encorpada que meus machos, mais agressiva, não me deixo ser tocada, eu que decido na cara chata, parece um coração enfiado, carne dura no corpo me maldisseram no livro dos livros, não sirvo mesa, me matam com fome de matar eu mato pra comer. Só comida viva. Coxas iguais colunas, saem patas sólidas, vigorosos órgãos de pressão na hora de catar a presa, de trepar ou sustentar o sono de um ôlho só. Rematadas em oito dedos, seis servem de leme, feios, curtos, grossos sempre sujos, unhas-gancho sempre afiadas raspando nos galhos duros, telhas, nas argamassas dos campanários, pés de pavão ao lado dos meus são bonitos. Me valem até sei lá pra eu aguentar o impacto da prêsa. Voando três deles apontam pra diante, o quarto na retaguarda em prontidão, empoleirada assim na galhada ou a comida agarrada, o dedinho externo dos pés se vira pra tás complementando o dedo traseiro interno pra segurança mantendo o que for, me garante, equilíbrio urgente de uma perna só enquanto dilacero os pratos do dia.

‘Qual sujeito animal não troca seus olhos pelos olhos de coruja? Vêm de fábrica, dois tubos de imagens alongados direcionados pra frente, rodeados pelo meu disco facial de penas radiantes espalhadas, o ar que desloco não atrapalha ver, todas as horas abertos, mesmo de dia são capazes de tudo. Me  eduquei vendo.

‘Tem coisa se mexendo? O rato só vê, ou sente, ao se ver voando, as garras lhe dilacerando as costas, vai se entregando às garras, primeiro, único e último vôo dele.

‘Estômago sem peso, agradado, corpo quente, à cata da minha música, como quando larguei o tyto alba gordinho, meu quarto coruja. Suidara jovem, claro, alimentar as crias, sou boa, era boa nisso, rapinante de merda ele, eu tomava conta de tudo nem quis mais que ele tomasse mais conta do ninho, pra quê? só pra família até a família virar outra família e me mudar pra alguma torre sem família, bastaram as quatro famílias cumpri a sina, povoei o ar. Adeus mandando o gordinho e crias voarem pra viver.

‘Batendo ar ao léu na noite procurando igreja dei com o telhado do velho. Desci na ripa do pau que 
cerca a varanda ouvindo primeira vez la última noche que pasé contigo, o velho só canta essa. Outra vez de novo feito sempre me acomodo no telhado, o velho só canta a mesma, eu nem estava no ovo, nem tinha ovo pra mim ainda, o velho já no violão chorando voz do seu único amor. Ou de vários, todos são um só.

‘Vento gostoso passando entre as plumas. Ouvir a única música. Capaz de ser coisa de despedida. Feito ele, quem deve ter sido, como deve ter sido esse sujeito animal? nunca vi de pé só na cadeira de vime de balanço, abraçado no violão, os dois chorando. A paixão aí do velho vem com marcas novas dia a dia, o nariz cresceu, virou corcunda na cara num roxo desmaiado, era mais violeta, veias da cara sem ver água cheias dos ramos novos de videira que só dá folhas, tapume de sobrancelhas cobertas de neve igual a coroa cobrindo as orelhas na careca de frade, olhos carregados de cinza diminuíram, aguentando o brilho na bebedeira, a cachaça no chão ao lado do copinho, não bebe do gargalo, educação antiga, só não é monstro porque chora cantando.

‘Por qué te fuiste aquella noche 

Por qué te fuiste sin regresar

Y me dejaste aquella noche

Con el recuerdo de tu traición…’


‘A lua faltava chegar em cima da casa, começara

antes, hoje. Golada, sinal que começa de novo.


‘La última noche que pasé contigo

La llevo guardada como fiel testigo

De aquellos momentos en que fuiste mía

Y hoy quiero borrarla de mi ser


La última noche que pasé contigo

Quisiera olvidarla pero no he podido

La última noche que pasé contigo

Tengo que olvidarla de mi ayer.’


‘Escuto por aí que sou meio nada, nem sirvo pra comida, mas sinto, tenho sei lá o que, um palpite que me surge com frequência, uma inteligência? é uma intuição tão forte que você não tem dúvidas, tem nada de errado. Nunca usei curandeiro pra me dar uma resposta, muda nada, se doente iam me curar do que? se tem algum órgão funcionando mal e se pudesse apontar com uma garra, gozado, os curandeiros e os que não são curandeiros é que querem me usar, pra botar palavras deles na minha boca ou na minha dor? pra que nem ideia, tenho mais que fazer enquanto não desapareço, nem tenho a mínima curiosidade de saber porque, estou mais cansada do que de costume, mais pesada como se um mal crescesse secretamente, passo todas as horas comigo mesma. Acabo é sempre me perguntando se não sai da minha cabeça isso que está acontecendo, doença grave é não poder caçar, mal incurável é não ter o que comer.

‘Essa noite está mais escura que as outras. Desde quando dura a noite?

‘A memória confunde tudo. Fazia calor. O sol na lua. Tantas luzes no céu. As estrêlas pirilampos. O brilho confortando minha cabeça e as asas. Via claro os répteis. A jararaca atenta, petisco atento. O cachorro-do-mato perdido da matilha, um filhote de jacaré a mãe dando sopa. Sapo e sapa gozando a trepada. Garreei, descia e subia, um por vez. Me fartei, coisa de última ceia, vai ver. Fazendo a digestão. Lá pro meu telhado observando o velho coração destruído pela paixão. Tão segura minha vontade, descer na ripa do pau que cerca a varanda.

‘Se houvesse ripa do pau, se houvesse varanda, se houvesse o velho, se houvesse la última noche que pasé contigo.

‘Vou a cata das matas, quê matas? 

‘Onde anda meu cardápio imenso? todos os répteis, cobras se distraídas, jararacas mesmo atentas, marsupiais, galináceos, insetos, roedores, cachorro-do-mato perdido da matilha não a encontra, anfîbios na hora agá da trepada, filhote de jacaré se a mãe marca toca, passarinhos bobeando, basta. Nem me notavam, me aprontava, uma afiada mais na foice, vôo silencioso tiro partido da plumagem macia e felpuda, sei a rota da morte.

‘Ah, o campanário, o campanário.

‘Vôo se fosse pra salvar a vida de alguém, a minha própria vida, levava bem meu abismo do silêncio. Terror ter mais nada, tudo desapareceu no escuro. Ou na noite. Na noite. Ou no escuro. 

‘Cadê o manual do pastor, o cura quando aparecia na igreja, o sujeito alinhado no andar alto? gesticulavam bradando cada um seu manual, treco pra cretino, toda essa merda de sempre haver alguém, coisa superior, confiar no superior poder, bebê chora, taí o poder superior. Tem que não pensar, ou pensar como imbecil pra se entregar e tragar o tal poder superior e se salva. Nenhum poder salva. Deus nunca viu uma coruja. Ciência não alcança mas desconfia, quem sabe há outra realidade? Mas a ciência ainda não se importa de avisar quem sou dentro de outra realidade. Voei por aí, tenho olhos especiais se no escuro enxergo, já lembrei isso, vi bastante coisa na cidade, viu bem uma viu todas, assassinam, se matam, em toda cidade não muda. Tem isso do vício do dinheiro, é o que vale e o que conta.

‘Sem nenhuma intenção misteriosa, tenho minha experiência de me chegar, ficar, mirar atento, mimetizar e ser aliada, se puder, contra a força de algum mal que caia. Agora estou vendo o nada. Só tem eu e você, voando teimoso ou curioso chegou até aqui.

‘Choro pela primeira vez, nem tem nenhuma moral nisso, nem penso na arrogância de haver alguma moral se você, como eu, chegamos até aqui. Se esteja mais ou menos felizes de seguir vivos? pode ser. Ou não. Está escrito no tempo. Vida no mundo segue o acaso, o acaso vai na frente de nós todo dia. A vida no mundo são sacadas de todos animais a qualquer e todo momento, mesmo sem aviso. Infinitas vezes a vida terminar antes do animal envelhecer, coisa abominável. Loteria. O que há é acontecimento e suas consequências, tudo podia ser diferente ou tudo determinado e pré-determinado desde que não dormi no campanário antes de ontem, nunca foi ou é a questão, nem minha história na escuridão, nem a história é quem tem que dizer, minha história não vai dizer nada. Só nós dois, dois fodidos fazendo o que seja pra continuar vivo. Não perdida por causa dessa escuridão aqui fora, perdida dentro da minha escuridão, sei somente fisicamente quem sou, uma Suindara, mais nada. Cansada de voar atrás de comida e tirou a habilidade da obrigação de pensar. Às vezes o vazio interior acaba trazendo alguma paz, e procurar cume de árvore alta ocupa o resto do tempo. Vale o movimento, bater asas. Saber nossa localização, qual é tua longitude e latitude não é a mesma coisa de saber onde você está e o que está fazendo aí. Existem milagres ordinários, fantasmas ordinários, você descobre essas coisas como você envelhece batendo asas. Lá vou eu cansar de vez. Coisa mais pobre morrer de cansaço sem poder trabalhar seu dia de novo meus pratos do dia.’

quarta-feira, 4 de novembro de 2020

ORELHA

Esta coluna reúne apresentações de livros feitas por Menalton Braff. 

Uma família inglesa

Júlio Dinis que me perdoe a utilização de seu título, mas este aqui não é um romance, são apenas comentários mais ou menos descosidos a respeito de um romance, uma obra prima da escritora francana Vanessa Maranha. Escritora premiada que justifica seus prêmios e os ratifica com a qualidade de literatura que nos oferece.

Seu mais recente romance, “A filha de Mrs. Dalloway”, podemos dizer que é a ficção emoldurando a ficção. A Virginia Woolf comparece não mais como autora senão como personagem. É a irmã mais velha da Clarissa Dalloway e tia da protagonista do romance, a Elizabeth, filha de Clarissa. Essa, que comparecera como protagonista do romance “Mrs. Dalloway”, volta rediviva no romance da Vanessa. E dá à luz Elizabeth, quem nos ocupará por mais tempo.

Quando se quer definir um bom romance, entre outras coisas, deve-se destacar que um bom romance é aquele que põe em discussão vários aspectos da vida humana, quase sempre sem necessidade de sugerir soluções acabadas. A lembrança dessa peculiaridade nos veio da leitura deste “A filha de Mrs. Dalloway”.

Começando pelas emoções e sensações causadas por este livro, ocorre-me que durante a leitura me senti na praia, porque as cenas chegam como ondas que vêm, nos empolgam, cobrem-nos, escondendo a paisagem, com força, às vezes furor, para então retornar tranquilamente ao mar por algum tempo. As ondas do discurso da Vanessa, em  que pese a metáfora marítima, são de uma doçura inigualável para quem gosta das palavras.

Outra virtude deste romance é a escolha dos detalhes. São sempre importantes, descritos com extrema competência, o que resulta numa pintura palpável, quase material.

Mas é claro, nada do que se diz acima seria possível sem uma das características desde sempre marcantes da Vanessa: a extensão de seu vocabulário. A extensão e a propriedade. Sua riqueza vocabular é extraordinária sem cair no exibicionismo daqueles que, como contam de Coelho Neto, não podia ouvir uma palavra desconhecida que não a utilizasse em seu próximo texto. No texto da Vanessa Maranha, as palavras surpreendem pela exatidão com que são usadas, e isso nos mais variados campos do conhecimento.

E falando de surpresa, não se pode esquecer o ostraniene dos Formalistas Russos, que introduziram nos estudos literários este conceito do estranhamento. Sem ele, o texto pode tornar-se enfadonho, insosso, apenas informativo, quando informa. Esta é uma das mais altas virtudes da Vanessa, que a cada passo nos assusta ao conceber uma combinação totalmente estranha que tem como objetivo dar maior vigor à sua literatura.

O escritor literário é um inventor de linguagem. Em seu famoso texto “Instinto da Nacionalidade”, o Bruxo do Cosme Velho pontifica que o escritor de literatura tem de ser permeável à língua de seu povo, mas a língua que devolve tem de ser melhor do que a recebida, por isso é escritor. A Vanessa, nesse sentido, é uma autora machadiana.

Se descermos um pouco mais nos códigos usados pela escritora, podemos filiá-la à corrente literária para a qual mais importante do que o visível, são os movimentos de sua alma, seus valores, enfim, sua mais profunda humanidade. E isso, a Vanessa explora com suas personagens, incluindo aí a autora/personagem Virginia Woolf. 

Tendo como base de sua criação o ambiente londrino em que viveu Mrs. Dalloway, festas, saraus, regados a bebidas e discussões, este livro, tanto no ambiente londrino da mãe, Clarissa, quanto de sua irmã, Virgínia Woolf, e também em São Paulo, onde John é feito cônsul da Grã Bretanha, e Elizabeth, sua esposa, acha que vai morrer de tédio.

Nas três personagens femininas que conduzem a história, vamos encontrar conflitos em que se debatem em busca de uma justificação para estarem vivas, tentando dar algum sentido a suas vidas.

Vida e morte estarão sempre presentes, pairando como dúvidas, como tentativas de chegar a um ponto de repouso, uma verdade que lhes permita, enfim, mirar-se no espelho sem detestarem o que veem.

Questões como as levantadas pelas sufragistas acompanham essas mulheres, quando conseguem romper com as banalidades a que estão habituadas.

Enfim, um romance para o qual sua autora demonstrou familiaridade com Londres e São Paulo e que, sem dúvida, demandou muitas horas de pesquisa. Um romance que o leitor de literatura não deve perder.

domingo, 1 de novembro de 2020

FRASE

Esta coluna posta, a cada domingo, uma frase de um personagem da literatura. A que escolhemos para este domingo é do livro  "Que enchente me carrega?"


sábado, 31 de outubro de 2020

RETALHOS 2020 - A ESPERANÇA POR UM FIO

RETALHOS 2020 é uma série de vídeos gravados por Menalton Braff para apresentar os seus 26 livros já publicados (existem inúmeros outros ainda inéditos). A obra que Menalton apresenta hoje é "A esperança por um fio", lançado pela Editora Ática, em 2003.



sexta-feira, 30 de outubro de 2020

CONTOS CORRENTES

 O ATO SEXUAL

(Hersch Basbaum)

Roberto chegara de viagem pela manhã, depois de vinte e três horas dirigindo o seu automóvel. Havia ficado mais de cinco semanas isolado em uma pequena casa, lá no alto da Serra, que um amigo lhe havia cedido. Para lá Roberto fora objetivando terminar seu livro. Livro esse, aliás, que já tinha quase dois anos, mas que nunca parecia terminar.

-Cid, me empresta aquela sua casa, palco de tantas festas inesquecíveis, lembra? É caro que sim, pois que, se não, não seriam inesquecíveis. Pergunta boba, não!? Tenho certeza de que se eu ficar lá sozinho, mas sozinho mesmo, eu terminarei o livro.

Foi dessa firma que Roberto se dirigira ao amigo. Tanto Cid quanto os demais amigos de Roberto, ansiavam para que o livro ficasse pronto. Toda a turma confiava no jovem iminente escritor e torcia pelo término do trabalho “eternamente em preparo”. E havia uma razão para toda essa expectativa. Ocorre que eles, há muito, formavam um grupo que tivera intensa atuação política, nos meios estudantis, em tempos idos. Roberto era líder do grupo – Jovens Intelectuais Ex-Marxistas Insurgentes- alem de mentor intelectual. A vida tentava, de todas as formas, separá-los e isso fatalmente aconteceria se nada surgisse capaz de novamente uni-los em torno de alguma coisa. Era isso que o livro de Roberto representava: uma bandeira, um manifesto, ou algo com condições de permitir formar uma corrente de opinião expressiva. Disso decorreriam novos “papos” até altas horas, discussões, excitantes brigas, etc.

Roberto tinha consciência de tudo isso e, na verdade, se aborrecia. Não lhe interessava ser líder e muito menos transformar-se em mentor intelectual de ninguém. Seus propósitos eram claros e nunca fez questão de escondê-los. Mas, infelizmente, a imagem que ele tinha de si mesmo não coincidia com aquela que seus amigos dele elaboraram.

Mas foi na segunda-feira, cedo, que Roberto retornou ao seu apartamento. Cansadíssimo, mal chegando, atirou-se à cama ao final da tarde.

O banho, a barba, enfim, a higiene pessoal não lhe roubou mais que meia hora. Ainda com uma toalha enrolada ao corpo, foi ao telefone.

-Cid? Oba! Sou eu. O Roberto, pombas! Hein!? É. Cheguei hoje. Cedo. Como? Sei lá a que horas! Hoje cedo! Não sei a que horas, pombas! Não me lembro! Mas por que a insistência, Cid? Ahn? Me procurou? Ela me procurou!? Tem certeza? Bem, assim que cheguei, caí na cama e dormi feito uma pedra. O que quer dizer dormir feito uma pedra!? Não enche! Dormi. Não, não escutei nenhum telefonema. É...azar meu. Quem sabe ela liga de novo. Tá. Se terminei o livro? Não, não term... Péra aí... Eu explico... Vagabundo não, poxa...eu explico. Sei. Sim, a casa era tua. Sei. Tá. Mas deixa eu falar! Deixa-eu-falar! Vá à merda! Ah! Acalmou, né! Cid, eu cheguei lá com a melhor das intenções. Você sabe. No primeiro dia fiquei o tempo todo arrumando a máquina de escrever. É, aquela bosta enguiçou. Bem, não é que tenha enguiçado. Mas o r... a letra r. Erre! Prendia. É! A maquina só falava chinês. Como ? É, chinês, faltava uma letla, estava queblada, não esclevia dileito. Entendeu, seu bulo!? Bem, mas continuando, quando acabei de arrumar a máquina... bem, já era tarde. Ora, tratei de preparar comida. Sabe, li dois livros geniais. Geniais! Sabe quais? Não quer saber? Cretino. Tá bem. Vou explicar. Escute... você não quer vir aqui?

Te conto tudo detalhadamente. Ah! Não pode, né!? Quer me encher o saco no telefone. Não tem problema. Não tem nenhum problema. Fico falando duas horas. Três horas! Cagão! OK. OK. No dia seguinte comecei. Não tava muito inspirado. Durante toda a manhã não saiu nem uma página. A culpa é do livro! Não do meu livro, sua besta! Do primeiro dos que li. Não vou falar dele não, pode ficar sossegado. Mas, à tarde, as coisas já melhoraram. Consegui escrever alguma coisa. Tanto é verdade, que me senti novamente inspirado. Direto, seu! Até altas horas da noite! Nem jantei! No dia seguinte, felizmente, pude continuar bem, durante a manhã. Mas depois do almoço foi fogo. Foi fogo, seu moço! Você sabe como é. Filosofia não é mole não. Se fosse um simples romance. Mas não. Você sabe qual é meu plano de obra. Tá bem, já sei que você sabe, poxa! Tá. Já sei que todo mundo também já sabe! Mas eu não ia falar nele, oras!!! O que ia dizer é que um romance de tese, onde as personagens representam pensadores do passado e do presente, fluindo dentro de uma linha básica, dentro de um contexto –verossimel enquanto proposição, mas absurdo enquanto situação- não é fácil escrever. Não se esqueça que a cada situação, cada personagem, seja Hegel, seja Sartre, Feuerbach, Kant, enfim, tem que ser fiel ao pensamento que construiu em suas obras! É, a idéia é boa. Obrigado. 

Mas exige um esforço intelectual brutal. Sei que já faz dois anos! Eu sei. Mas Cid se na minha história Kant toma o partido do amante, ele tem que dizer coisas que Kant provavelmente diria se realmente vivesse o problema. Não posso trair o pensamento de Kant! Não está em mim uma coisa dessas! Gostou, né!? É, eu sou espirituoso. Quem faz o marido traído? Já esqueceu? Georg Wilhelm Friedrich Hegel! Bem escolhido? Por que Hegel? É esse um problema típico de um idealismo objetivo ou não é? Ah!... não é!? Isso, na sua opinião, meu caro. Além, do mais, quem está escrevendo o livro sou eu. Não, não quero discutir isso agora. Não falo! Escuta Cid, você quer ou não que eu explique porque não terminei o livro? Então cala a boca e escuta! Bem, os dias se foram passando. Eu lia, escrevia, comia, dormia. Vida boa? Oba, se é! Um vidão! Aliás, mais ou menos. Por que? Te explico já. Bem, no meio da segunda semana, acabou a tinta e fiquei sem poder escrever. Tinta da máquina? Não, seu burro! Da caneta, é claro! Cid, se você quer me gozar, tenha mais classe e não faça indagações cretinas! Cretinas, sim! É claro que era da caneta, bolas! Da minha caneta! Mas que caneta!!!??? Então você não sabe como é que eu trabalho? Escrevo à máquina e depois corrijo à mão, cada página. Bem, eu trabalho assim.

Mas a tinta acabou e eu tive que sair para comprar. Fui, de carro, até aquela cidadezinha... como é que se chama?... Não. É, essa. Bem, na loja que eu entrei, tinha uma menina... nossa! Tremenda! Boa pra burro. Não é preciso dizer que fiquei gamado!

O pior é que ela me deu bola! Como é possível? Não enche! Você imagine que situação! Há quase duas semanas, sozinho, dentro daquela merda de cabana... desculpe, dentro daquela confortável casa... não vendo nada de sexo oposto nem mosca, Cid! Só mosquitos!- eu tinha que ficar excitado vendo aquela menina. Bem passei a ir todos os dias à tal cidadezinha –como é mesmo o nome? – isso.

Todos os dias na esperança de poder me aproximar dela e convidá-la para sair. Não conseguia nada. O chato é que a diaba me provocava. Provocava mesmo e na hora H tirava o corpo fora. Você pode pensar que situação terrível a minha: ter que comprar tinta todos os dias, depois canetas – estou com uma dúzia de canetas e outra dúzia de lápis!. – só pra ter uma chance de falar com ela! Mas isso não é nada. O duro é que não consegui mais ficar direito. Só pensava na menina. Tinha sonhos eróticos todos os dias. Eu só queria saber de sacanagem. Me esforçava –te juro que eu me esforçava- em tentar escrever, visando me esquecer de mulher, de cama... Mas não era possível. Lembro até que a minha história, de repente (não sei quando nem como escrevi) se deturpou. Tava todo mundo na sacanagem. Sartre comia Hegel. Hegel cantou a própria mulher, Simone de Beauvoir. Kant ficava se masturbando o tempo todo na busca da razão pura. Masturbação mesmo, não no sentido figurado. É! Fiquei completamente maluco! Veja como inspira sacanagem mulher e cama, o trecho que vou ler, que pus na boca de Hegel – “O bem (o ato sexual, é claro) é uma abstração privada de determinação; e o mesmo diga-se do dever (você está sentindo as insinuações?). Contra essa harmonia, pois, ressurge e é reafirmado o contraste posto como não verdadeiro no conteúdo dela; de modo que a harmonia (!) é determinada como qualquer coisa de meramente subjetivo – como qualquer cousa que deve ser somente, Isto é, que não tem realidade – como alguma coisa de suposto, a qual caiba somente a certeza objetiva e não verdade, isto é, não aquela objetividade que corresponde à idéia”. Que tal, Cid? Você não entendeu? Burro! Ignorante! Bem, Cid, já encheu essa conversa. O fato é que daquele dia em diante não consegui pensar noutra coisa que não fosse mulher. Não consegui pegar aquela pequena da loja, por isso me mandei de volta pra cá. Estou que não me agüento pra pegar a primeira. Como? Por que não fiz como Kant? Bem que me deu vontade! Mas não tive coragem. Além do mais, a cada dia eu tinha a esperança de conquistar a menina. Ora, e é chato paca! Sei que quebra um galho. Mas não dá pé. Bem, Cid, vou desligar. Já cansei. Me dá o telefone da Tereza. Oras, pode ser que ela não ligue de novo! Mas tem certeza de que era ela? Como você sabe? Ah! Puxa vida! Que sorte a minha! Ela é uma das maiores mulheres que vi em toda a minha vida! Não, poxa, não tô falando que é grandalhona, você sabe. Que pernas! Que peitos! Nossa, Cid, já estou ficando louco. Não aguento, Tcháu!

Já sem a toalha, e inteiramente nu, cantarolando alegremente.

-Oba! Tá chamando! Ta-ra-triiimm! Ta-ra-triiimm!Pombas! Ninguém atende! Oi!? Mas que sorte! Tereza!? Não!? Por favor, me chama a Tereza aí! Tá. Espero.

É Dr. Roberto, vai ser hoje o grande dia. Depois de cinco semanas! Cinco semanas a seco! Nossa, como é que estou! Parece que tem Raquel Welch, nua, na minha frente! Ôi! Como!? Quem está nua na minha frente?

Desculpe, Tereza. Tava falando sozinho. Você, como vai? Eu vou mais ou menos. Quer dizer, agora vou bem. È, agora. Ouvindo a sua voz. O que tem a sua voz? Está mais quente do que nunca! Você continua ótima? É claro que sim. Querida, meu amor...Como? O que tenho? Nada meu bem. Você não quer vir aqui agora? É, agora, agorinha? Por que sou louco? Você não pode? Eu te amo. Tereza! Amo, como nunca! Venha correndo, por favor! Morro de saudades! Venha já, venha como você estiver! Já! Não pode? Por que não pode? Saiu do banho? Está nua!? Não me diga que você está nua! Oba! Estou também terrivelmente nu! O que quer dizer isso?Sei lá. Mas você está nua? Nua, nuzinha, mesmo!? Meu Deus! Tereza, venha correndo, pelo amor de seus filhos! Sei que você não tem filhos, poxa! Nua! Encoste o telefone naqueles lindos e imensos seios morenos! Sou grosseiro? Por que? Desculpe... mas encoste. Por favor... Não... Não... Não...Te...re...za... Aiiiii.

Tereza, Kant era uma besta. Um imbecil! Até amanhã.

quarta-feira, 28 de outubro de 2020

CANTIGAS DE AMIGOS

 PERSONAGENS

(Ruth do Carmo)


Por caminhos da memória,

você bate portas, pai.

E eu, criança, procuro-te no escuro

das ruas onde tudo já está fechado.

A mão da mãe põe forças em mim,

enquanto te procuramos e é meia-noite.

Era uma vez noites assim...


Hoje há verdades maiores no músculo vermelho.

E talvez alguma espécie de perdão.

Já passou. Já passou...

E já parecemos personagens.

segunda-feira, 26 de outubro de 2020

CARTAS DO INTERIOR

Esta coluna reúne crônicas de Menalton Braff.

Síndrome da competição

O homem, que sobreviveu a todos os cataclismos que em milênios se abateram sobre nosso pequenino e azul planeta, sobreviveu ao ataque furioso de todas as feras para as quais sua mesquinha carne seria o alimento salvador; o homem superou secas inclementes e dilúvios devastadores; o homem conseguiu tais façanhas porque era um ser social. Do grupo lhe vinham as forças para resistir. E a vida em sociedade, nascida antes de sua fraqueza e da necessidade de sobrevivência do que de uma deliberação, só foi possível graças a um sentimento hoje escasso no mercado: o espírito de solidariedade.

Paul Swezzi, pensador norte-americano, em seu livro Capitalismo monopolista*, no décimo nono capítulo, afirma que o capitalismo, desde seu nascimento, vem-se entranhando na própria carne do ser humano, a ponto de transformar tudo (inclusive sua vida afetiva) em valor de troca. E ao transformar assim o ser humano, incute-lhe uma outra necessidade: a eficiência como condição para a vitória.

Todos os meios de transmissão de conhecimento e valores são mobilizados para a defesa da idéia de que o homem vale na proporção do sucesso que obtenha. Somos medidos invariavelmente pelo número de derrotas que impomos a nossos adversários.

Sim, porque aquela velha expressão “nossos semelhantes” já está há algum tempo fora de moda.

E se o mundo e sua infeliz humanidade são divididos entre vencidos e vencedores, então que vençamos. Esse é o pensamento dominante. E é assim que entramos em estado permanente de campeonato. Minha cidade tem um edifício de dez andares, e a sua não tem. Nós temos três shoppings, e vocês só têm um. Então não se para mais de concorrer. Existem campeonatos de edifícios altos e campeonatos de número de shoppings. Tudo é competição.

Na sociedade da competição, ninguém mais fala em ser bom; é necessário ser o melhor. E isso, mesmo que o melhor seja de baixa, baixíssima qualidade. Estar por cima, ser o primeiro, eis o que interessa.

Nesse tipo de sociedade, a criança ainda tem algum valor, que é o investimento de risco. Ela é vista como o produtor e consumidor do futuro. Para isso é preciso prepará-la, ou seja, para que seja eficiente produtor e ótimo consumidor. Os velhos, bem, que fazer com esses trastes que não produzem mais nada e só consomem remédio?

É com apreensão que se volta nosso olhar para o futuro. Se a sociedade humana sobreviveu graças ao espírito de solidariedade, extinto esse, pode-se ter muita esperança quanto ao futuro? Se vivemos no meio de adversários, que precisamos eliminar para vencer, vamos conquistar um mundo deserto.

*BARAN, Paul. SWEZZI, Paul. Capitalismo Monopolista. 2. ed. Rio de

Janeiro: Zahar, 1964.

domingo, 25 de outubro de 2020

FRASE

Esta coluna posta, a cada domingo, uma frase de um personagem da literatura. A que escolhemos para este domingo é do conto "Abundância de Estrelas no céu".





sábado, 24 de outubro de 2020

RETALHOS 2020 - AMOR PASSAGEIRO

 RETALHOS 2020 é uma série de vídeos gravados por Menalton Braff para apresentar os seus 26 livros já publicados (existem inúmeros outros ainda inéditos). A obra que Menalton apresenta hoje é "Amor Passageiro", lançado pela Editora Reformatório, em 2020.




sexta-feira, 23 de outubro de 2020

CONTOS CORRENTES

Rascunho para a Carochinha

(Luiz Duboc)

Jovem bronco, ignorante, habitante de uma terra fora do mapa que ele
nunca fez caso do que fosse fronteira de sua terra. Mas o por do sol do dia bem longe, ele alucinava que essa aldeia onde vive se estendia, se prolongava até onde o sol se punha. Numa manhã chuvosa, a água do riacho perto da cabana subiu, o riacho passou a correr com mais velocidade a água. Para de chover e lá aparece o sol. 

Segue o riacho que vira um pequeno rio. Segue o rio pequeno que dá num grande rio. Segue o grande rio. Novamente o sol cai no horizonte. Resolve ir atrás do horizonte. Anda e anda. Caça a fome. Vem a noite, na fogueira só pensa no amanhecer para seguir até onde cai o sol. Anda e dá de cara com o mar.

Se espanta que descobrira o fim do mundo. E o desafio: novamente o sol cai no horizonte. De olho no sol constroi um barco. As correntes lhe ensinam a navegar rumando o horizonte. Acaba descobrindo terras povoadas, cidades, umas pequenas e outras grandes, povoadas com todo tipo de gente. Segue atrás do horizonte. Até que volta à praia de onde partira, já homem feito, onde começou a viagem, alucinado, agora, porque descobriu que a Terra é redonda.

Junta a aldeia. Todos espantados que ele sumiu e voltou homem feito, cabelos e barba imensos. Conta, então, para todos que o fim do mundo não existe, e além de não existir o mundo começa e acaba na aldeia porque a Terra é redonda. Fala do riacho ter virado rio e vai dar no mar, “Que é mar?”, todos perguntam. Fala das outras terras onde cada uma fala diferente da outra. Conta toda sua viagem atrás do sol no horizonte que acabou onde ele começou.

Ninguém crê. Torna-se o ‘louco da aldeia’, nem falam mais com ele. Às vezes, de noite, em volta da fogueira, as crianças se juntam e lhe pedem para contar a história que não existe fim do mundo. Riem com ele dizendo que o fim do mundo é logo depois do horizonte. E que o horizonte vem dar na aldeia. Os parentes todas as noites vêm buscar suas crianças.

As crianças tentam resistir mas são arrastadas. Seus parentes gritando, “Vocês querem ficar loucas também?” Ele espera a primeira chuva forte passar. Na manhã seguinte, desta vez, ao ver o sol nascer bem longe num horizonte oposto onde o sol morre bem longe. E vai de novo atrás do sol no horizonte onde morre o sol.

quinta-feira, 22 de outubro de 2020

LIVROS RECEBIDOS

Esta coluna apresenta as obras enviadas a Menalton Braff logo após a publicação.

Título: Leque aberto
Autora: Raquel Naveira
Gênero: Crônicas
Editora: Penalux
Da orelha:
"Reminiscências, lembranças, objetos semióticos - como um espelho, um leque - vão constituindo um inventário simbólico latejante, repleto de fatos reais envoltos na bruma difusa de uma memória afetiva e poética." (Profa. Rita Pacheco Limberti)

quarta-feira, 21 de outubro de 2020

CANTIGAS DE AMIGOS

NOCAUTE*

(Carlos Bueno Guedes)

ali estava meu corpo entre cordas
como se estivesse num chiqueiro do poder,
pago para apanhar
o cinto de ouro de meu rival
tinha o brilho do ódio,
olhava fundo,
sacudia as luvas ,
no primeiro round
um golpe na minha nuca,
os covardes se escondem atrás do poder,
a plateia delira,
me seguro nas cordas,
as pernas bambas,
no segundo round procuro dançar,
prolongar o ritual,
abro as guardas
uma pancada no nariz,
senti que o sangue escorria
a plateia aplaudia
encostei no corner
o batedor escapava escarnio,
senti minha fragilidade
de ser apenas humano,
o corpo ainda suportava,
perdi o equilíbrio
cai e me levantei
no corpo os golpes duros da opressão fotografias de um tempo
vivido sofrido angustiado
no terceiro round
algodão eram como neves de meus sonhos,
a dignidade me mantinha em ser resistência,
meus golpes não atingiam
eram danças no vazio do ringue,
ali estava assombrados dos golpes,
agarrava o adversário, dançava de pernas cansadas,
até o quarto round
quando a plateia urravam
o fim
ainda pude sentir
que toda resistência saia de meu equilíbrio,
ainda pude saber que estava caindo
dentro de um negro abismo
em que o poder me enviou,
para sofrer na carne
uma queda que nunca terminaria !


* (poesia imaginada dentro de um hospital, o poeta tem que estar dentro de seu tempo, poesia a pensar em todos os grandes poetas que convivem comigo e ao grande autor meu irmão do longe Afonso Valente Batista , grande escritor português, brevemente a ser editado no Brasil ! As palavras vieram como golpes e fico desacertado de tombar entre elas ! Escrito em 14/9/2020

terça-feira, 20 de outubro de 2020

LIVROS E LEITURA

Você conhece o IEB?


Ele existe desde 1962, quando foi fundado por Sérgio Buarque de Holanda. Atualmente funciona lá na USP, no prédio conhecido por abrigar a Biblioteca Brasiliana Guita e José Midlin, mas muita gente não sabe de sua existência, ou sabe mas nunca usufruiu do que ele oferece. Embora não se restrinja ao tema Literatura, guarda um enorme acervo de escritores brasileiros que inclui de obras raras a manuscritos. 

Uma visita física ao IEB pode ser surpreendente. Basta dizer que, já em 1995, a instituição ganhou o prêmio Rodrigo de Melo Franco de Andrade na categoria Preservação de Acervos Culturais Móveis e Imóveis, concedido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Mas, em tempos de isolamento social, pode ser suficiente  navegar pelo site da instituição imaginando ou até planejando o que poderá ser visto na visita física em uma época mais favorável. E, de quebra, ler publicações e ouvir alguns dos inúmeros podcasts sobre escritores e suas obras.

Navegue pelo site ou vá direto aos podcasts.