O conto a seguir integra
À sombra do cipreste, Livro do Ano do
Prêmio Jabuti 2.000. Editado inicialmente pela Palavra Mágica, tem edição atual da
Global Editora.
Guirlandas e
grinaldas: a brisa
Tinham acabado de finalmente sair, bando barulhento, os últimos moradores
da pensão. Sozinho à mesa, olhar morto, cansado, Rogério remexeu-se na cadeira
desconfortável, incomodado subitamente com o silêncio que, ainda há pouco,
enquanto espocavam alegremente gargalhadas e garrafas de champanha em sua
volta, tinha desejado com sofrida e feroz irritação. Saíram em grupos animados,
muito cristãos, para a missa do galo da
catedral, ali perto, pouco além das janelas altas da frente. De mãos dadas,
alguns, outros abraçados. Felizes: para bem longe rixas e antigas desavenças,
tomados, de repente, pela crença de que o milagre estava prestes a consumar-se.
Insistiram muito, os coitados, para que ele fosse também, demonstração de que
os perdoava. Mais que todos, insistiu Henrique, o pai das duas menininhas
loiras. Porque um dia, na porta de seu quarto: sua bichana balofa. Razão
qualquer, a da ofensa, provavelmente coisa à toa, de que nem se lembrava mais.
Claro que os perdoava, pois enfim, era aquele o dia. Depois da meia-noite o
mundo seria outro: fazia algum tempo que vinha notando os preparativos.
Vestígio nenhum, portanto, de vindita em
sua decisão de ficar: precisão inadiável, apenas, de observar sozinho o escoar
do tempo, de sozinho respirar a aragem daquela bondade prometida e tão
ansiosamente esperada nos últimos dias. À meia-noite ela desceria sobre a
cidade.