Não sou canibal
Quando eu chamei, ela não veio, como costumava na
hora da ração. Esperei até o sol desaparecer, escondido nas trevas da noite. Os
demais foram chegando, passo lento, mugindo uns para os outros, sua vizinhança,
mas minha vaquinha, aquela de estimação, aquela não veio. Ainda pensei em sair
à procura dela pelo campo, mesmo na escuridão, ideia que minha mulher, esta aí,
me tirou da cabeça com palavras de ferir meus sentimentos. Foi difícil embarcar
na canoa do sono: ela balançava muito. Decerto cochilei alguma coisa, mas tão
pouco que de manhã eu saí da cama dizendo ter passado a noite em claro.
