*Este conto nunca foi publicado em livros
Com passo escuro e lento, pesado como a tristeza, por estar debaixo de um sol de verão para cumprir o ritual da despedida, o cortejo movimenta-se já perto do cemitério. Sua a idéia de um cortejo a pé: três quarteirões apenas, pois desde sempre moraram naquela casa à beira do cemitério. O que não contava era com o sol do meio da rua e perto do meio-dia, porque nas calçadas, de ambos os lados, havia árvores que protegiam os transeuntes da aspereza do sol. Mas eles não eram transeuntes e cortejo não se faz na calçada.Letícia olha para um lado e outro, olha para trás, impaciente, olha sem parar. Seu olhar apojado de ansiedade corre na frente, vai até a porta do cemitério e volta rastejante, queimando-se nos paralelepípedos escaldantes.
No bar, à direita, alguns fregueses amontoam-se e espremem-se na porta, querendo ver. O cortejo pelo meio da rua, cada um sobre seus próprios pés, o cortejo é um fato inusitado, que vale a pena ser visto. E lá dentro, entre os fregueses, corre a pergunta, Mas quem é ele?, e apenas o dono, por trás do balcão, responde com sua voz gorda e estragada que é um vizinho ali de baixo, um velho doente.