(Roniwalter Jatobá)
Numa fria
tarde de julho, a dona-de-casa Cleonice Menezes buscava o fraco calor de um sol
ameno no quintal todo acimentado de sua casa, na rua Espírito Santo do Dourado,
no Jardim Miragaia, em São Miguel Paulista. Por sobre os muros de blocos nus,
vinha o burburinho das gentes simples das moradias vizinhas, mas ela estava só.
Como quase todos os dias, aguardava o marido que cumpria o turno de guarda numa
metalúrgica em Guarulhos, sem hora de chegada.
Sem filhos,
ia completar 50 anos, mas o rosto triste aumentava a idade. À primeira vista,
qualquer um imaginava ter duas décadas a mais. A pele clara lembrava um
pergaminho antigo, amassado e desbotado pelo tempo. Os cabelos eram brancos
como flocos de algodão. Uma vez contou, começaram a clarear quando, numa noite,
sonhou que nunca mais veria a terra onde nasceu, e acordou pensando na morte.
– Tão nova e tão acabada – dizia uma amiga, Lenita, quando perguntada
sobre a conterrânea que não se adaptara a São Paulo. -- Está um caco, a coitada
da Cléo.
Cléo nunca
pensou em viver numa cidade grande. Morava com a mãe viúva e seus irmãos mais
velhos numa casa espaçosa, bem em frente a única praça de Bananeiras, onde
durante o dia inteiro ciscavam galinhas e pastavam animais.
Cléo tinha
sido bonita na mocidade. Jovens bobões, caras pintadas de espinhas, segundo
ela, davam voltas e voltas para passarem em frente à sua janela, tentando ver
suas mãos brancas e ágeis tecendo
