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sexta-feira, 16 de março de 2018

CONTOS CORRENTES

O sonho de Cléo
(Roniwalter Jatobá)


Numa fria tarde de julho, a dona-de-casa Cleonice Menezes buscava o fraco calor de um sol ameno no quintal todo acimentado de sua casa, na rua Espírito Santo do Dourado, no Jardim Miragaia, em São Miguel Paulista. Por sobre os muros de blocos nus, vinha o burburinho das gentes simples das moradias vizinhas, mas ela estava só. Como quase todos os dias, aguardava o marido que cumpria o turno de guarda numa metalúrgica em Guarulhos, sem hora de chegada.

Sem filhos, ia completar 50 anos, mas o rosto triste aumentava a idade. À primeira vista, qualquer um imaginava ter duas décadas a mais. A pele clara lembrava um pergaminho antigo, amassado e desbotado pelo tempo. Os cabelos eram brancos como flocos de algodão. Uma vez contou, começaram a clarear quando, numa noite, sonhou que nunca mais veria a terra onde nasceu, e acordou pensando na morte.

–  Tão nova e tão acabada –  dizia uma amiga, Lenita, quando perguntada sobre a conterrânea que não se adaptara a São Paulo. -- Está um caco, a coitada da Cléo.

Cléo nunca pensou em viver numa cidade grande. Morava com a mãe viúva e seus irmãos mais velhos numa casa espaçosa, bem em frente a única praça de Bananeiras, onde durante o dia inteiro ciscavam galinhas e pastavam animais.

Cléo tinha sido bonita na mocidade. Jovens bobões, caras pintadas de espinhas, segundo ela, davam voltas e voltas para passarem em frente à sua janela, tentando ver suas mãos brancas e ágeis tecendo

sexta-feira, 10 de julho de 2015

CONTOS CORRENTES


Roniwalter Jatobá nasceu em Campanário, Minas Gerais, em 1949. Vive em São Paulo desde 1970. Entre outros livros, publicou Sabor de química (Prêmio Escrita de Literatura 1976); Crônicas da vida operária (finalista do Prêmio Casa das Américas 1978); O pavão misterioso (finalista do Prêmio Jabuti 2000); Paragens (edidado pela Boitempo, finalista do Prêmio Jabuti 2005); O jovem Che Guevara (2004), O jovem JK (2005), O jovem Fidel Castro (2008) e Cheiro de chocolate e outras histórias (vencedor do Prêmio Jabuti 2013). Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às sextas-feiras.

O conto escolhido para o CONTOS CORRENTES de hoje foi: 
 O sonho de Cléo
    Roniwalter Jatobá

Numa fria tarde de julho, a dona-de-casa Cleonice Menezes buscava o fraco calor de um sol ameno no quintal todo acimentado de sua casa, na rua Espírito Santo do Dourado, no Jardim Miragaia, em São Miguel Paulista. Por sobre os muros de blocos nus, vinha o burburinho das gentes simples das moradias vizinhas, mas ela estava só. Como quase todos os dias, aguardava o marido que cumpria o turno de guarda numa metalúrgica em Guarulhos, sem hora de chegada.

   Sem filhos, ia completar 50 anos, mas o rosto triste aumentava a idade. À primeira vista, qualquer um imaginava ter duas décadas a mais. A pele clara lembrava um pergaminho antigo, amassado e desbotado pelo tempo. Os cabelos eram brancos como flocos de algodão. Uma vez contou, começaram a clarear quando, numa noite, sonhou que nunca mais veria a terra onde nasceu, e acordou pensando na morte.

   -- Tão nova e tão acabada -- dizia uma amiga, Lenita, quando perguntada sobre a conterrânea que não se adaptara a São Paulo. -- Está um caco, a coitada da Cléo.