Roniwalter Jatobá nasceu em Campanário, Minas Gerais, em
1949. Vive em São Paulo desde 1970. Entre outros livros, publicou Sabor de
química (Prêmio Escrita de Literatura 1976); Crônicas da vida operária
(finalista do Prêmio Casa das Américas 1978); O pavão misterioso (finalista do
Prêmio Jabuti 2000); Paragens (edidado pela Boitempo, finalista do Prêmio
Jabuti 2005); O jovem Che Guevara (2004), O jovem JK (2005), O jovem Fidel
Castro (2008) e Cheiro de chocolate e outras histórias (vencedor do Prêmio
Jabuti 2013). Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às sextas-feiras.
Numa fria tarde de julho, a dona-de-casa Cleonice Menezes
buscava o fraco calor de um sol ameno no quintal todo acimentado de sua casa,
na rua Espírito Santo do Dourado, no Jardim Miragaia, em São Miguel Paulista.
Por sobre os muros de blocos nus, vinha o burburinho das gentes simples das
moradias vizinhas, mas ela estava só. Como quase todos os dias, aguardava o
marido que cumpria o turno de guarda numa metalúrgica em Guarulhos, sem hora de
chegada.
Sem filhos, ia
completar 50 anos, mas o rosto triste aumentava a idade. À primeira vista,
qualquer um imaginava ter duas décadas a mais. A pele clara lembrava um
pergaminho antigo, amassado e desbotado pelo tempo. Os cabelos eram brancos
como flocos de algodão. Uma vez contou, começaram a clarear quando, numa noite,
sonhou que nunca mais veria a terra onde nasceu, e acordou pensando na morte.
-- Tão nova e tão
acabada -- dizia uma amiga, Lenita, quando perguntada sobre a conterrânea que
não se adaptara a São Paulo. -- Está um caco, a coitada da Cléo.
Cléo nunca pensou
em viver numa cidade grande. Morava com a mãe viúva e seus irmãos mais velhos
numa casa espaçosa, bem em frente a única praça de Bananeiras, onde durante o
dia inteiro ciscavam galinhas e pastavam animais.
Cléo tinha sido
bonita na mocidade. Jovens bobões, caras pintadas de espinhas, segundo ela,
davam voltas e voltas para passarem em frente à sua janela, tentando ver suas
mãos brancas e ágeis tecendo longos bordados num bastidor. -- Não gostava de prosa com aquele grupo de
homens sem futuro além do trabalho na terra -- disse uma vez. -- Sonhava com um
ser diferente, vindo de São Paulo, com emprego bem bom.
A vida de Cléo
mudou numa festa de Santa Efigênia, em setembro. Neste mês, todo ano, Arnaldo
Lopes deixava São Paulo e voltava a Bananeiras. Chegava de ônibus com dinheiro
pagando bebida, bem vestido. Entre um gole e outro de cerveja, dizia, sou
operário numa fábrica de química. Apontava coisas na prateleira dos bares,
dizia, ali tem o suor de minhas mãos. Falava que em São Paulo já arrumava a
vida, aqui nem onde cair morto. Pagava mais uma rodada de conhaque Castelo,
dizia, sou homem de muita sorte.
Um dia, visitou
Cléo, na casa gostavam dele. Trouxe uma lembrancinha. De terno fino chegava
todo educado, ela acompanhando o trejeito cerimonioso. Bebia café preparado por
Cléo em xicrinhas de porcelana, conversava prosa de São Paulo, se ele quisesse
durava noites. Tinha por volta dos trinta anos. Por que não fugir daquele mundo
que não tem nenhum futuro?, perguntava-se Cléo. O casamento foi rápido, as
férias dele estavam no fim.
Muitos anos depois,
as tardes solitárias eram reservadas para lembrar promessas há muito tempo por
ele esquecidas ou para reconstruir seus dias da infância. Às vezes, via-se bem
velhinha na frente de sua antiga casa, fazendo ainda longos e coloridos
bordados. Ou mesmo em demorados banhos no rio, no fim da tarde, no poço das
mulheres. Nua em pêlo, sentava numa pedra grande na beira do Aipim e ficava
balançando os pés na água tépida que descia em corredeiras.
Fogem as
lembranças. Agora, ela entra na casa fria e vazia. Na cozinha, olha as louças
limpas, o piso encerrado de vermelho, panelas sobre o fogão. Volta com um copo
nas mãos, para o quintal. Muitas vezes se embebedou para as tardes passarem com
rapidez. Muitas vezes, ela sabe disso, bebe além da conta.
Uma vez, pediu
para trabalhar fora, dar uma ajuda no sustento da casa.
-- Nem pensar --
indignou-se Arnaldo. -- Nem pensar.
Tenta divisar um
horizonte perdido entre casas e sobrados. Tudo pobre. Estava ali desde 1970 e
nunca se acostumara. Quando chegou naquele lugar as ruas de terra lembravam
Bananeiras. Sem reboco ainda, a casa minava água no quintal e o frio era
cortante nos cômodos miúdos. Foi arrumando as coisas. Mas, de vez quando,
cobrava de Arnaldo uma promessa, sim, uma promessa nunca cumprida.
-- Um dia a gente
vai -- desculpava--se. -- Quando sobrar um dinheirinho.
Nunca sobrava. Já
não acreditava mais na antiga promessa de ir a um restaurante. Por isso, aos
domingos, quando se sentia só, muito só como se sente hoje, arrumava a mesa e
fazia que entrava num lugar fino até onde chegava a imaginação. Sentava-se à
mesa da sala e pedia a uma figura imaginária:
-- Garçom, por
favor, uma caipirinha. Depois, o senhor traga um ensopado de carne com arroz e
salada.
Em seguida, Cléo se
levantava e dirigia-se à cozinha. Preparava tudo com um perfeito apuro
culinário. Aí, com exagerada polidez, servia o apetitoso jantar para ela mesma:
uma Cléo rejuvenescida, que nunca mais, e para todo o sempre, iria acreditar na
promessa de um homem.

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