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sábado, 1 de abril de 2017

CONTOS CORRENTES


Josés
         (Tiago Feijó)
Para Leonardo Zanella e José Saramago

Voltava sempre assim, lerdo, lento, conjurando a demora dos passos, após o seu habitual passeio noturno. Vinha sempre pelas mesmas ruas, optando ordinariamente pelas mesmas calçadas, pisando quase invariavelmente os mesmos ladrilhos daquele obstinado caminho, como se desconhecesse a óbvia possibilidade de outro percurso, de novas rotas. Retornava ao seu apartamento com a pontualidade e o método costumeiros. Pouco antes, havia caminhado até a orla da praia, afundara na areia o seu tênis branco, andara estranhamente sobre aquele chão movediço e se colocara, com calculada cautela, a uma segura distância da franja da água, queia e vinha como uma lenta respiração. Como o céu estivesse muito escuro e sem estrelas e não houvesse luz de barcas no horizonte, parecia que a noite se derramava sobre o mar, confundindo-se numa só coisa, para vir se dissipar na areia em efêmeras espumas. Sem dar por isso, ele apenas olhara, os olhos metidos na escuridão, pensando no que sempre pensava quando ali se deixava ficar: