quinta-feira, 26 de abril de 2012

A INVENÇÃO DE MOREL (30)

ONDE ANDARÁ FAUSTINE?

Pág. 118 - "Quero explicar-me o comportamento de Morel.
Faustine evitava a sua companhia; ele, então, tramou, nessa semana, a morte de todos os seus amigos, para conseguir a imortalidade com Faustine. (...) Entendeu que, para os outros, a morte não seria uma evolução prejudicial; em troca de um prazo de vida incerto, lhes daria a imortalidade, com seus amigos prediletos. E também dispôs da vida de Faustine."
Pág. 119 - "(...) Talvez Morel nunca se tenha referido a Faustine em seu discurso; talvez estivesse apaixonado por Irene, por Dora ou pela velha."
"(...) Morel ignora todas elas. Queria a inacessível Faustine. Por isso matou, se matou com todos os seus amigos, inventou a imortalidade!"
"(...) Eu a neguei, por ciúmes ou por autodefesa, para não admitir a paixão.

Agora, vejo o ato de Morel como um justo ditirambo"
"Minha vida não é atroz. Se abandono as intranquilas esperanças de partir em busca de Faustine, posso acomodar-me ao destino seráfico de contemplá-la."
Pág. 120 - "Por alguma dúvida que pudesse sobrevir e arruinar este paraíso..."
(...)
"A verdadeira vantagem da minha solução é que faz da morte o requisito e a garantia da eterna contemplação de Faustine."
"Estou a salvo dos intermináveis minutos necessários para preparar a minha morte num mundo sem Faustine; estou a salvo de uma interminável morte sem Faustine.
Quando me senti disposto, liguei os receptores de atividade simultânea. ficaram gravados sete dias. Representei bem: um espectador desprevenido pode imaginar que não sou um intruso."
Pág. 121 - "A esperança de suprimir a imagem de Morel me perturbou. Sei que é uma ideia inútil. Não obstante, ao escrever estas linhas, sinto o mesmo empenho, a mesma perturbação. (...)... já não se pode suprimir a imagem de Faustine sem que a minha desapareça."
"Substituí os discos; as máquinas projetarão, eternamente, a nova semana.
Uma incômoda consciência de estar represe4ntando tirou-me a naturalidade, nos primeiros dias; venci-a; e, se a imagem tem - como creio - os pensamentos e os estados de espírito dos dias de exposição, o gozo de contemplar Faustine será o meio em que viverei na eternidade."
Pág. 122 - "Quase não senti o processo da minha morte; começou nos tecidos da mão esquerda; não obstante, progrediu muito; o aumento do ardor é tão paulatino, tão contínuo, que não o noto.
Estou perdendo a vista."
(...)
Pág. 124 - "Minha alma ainda não passou para a imagem senão eu teria morrido, teria deixado de ver (talvez) Faustine, para estar com ela numa visão que ninguém recolherá."

Amanhã será publicado um texto crítico sobre o romance de Bioy Casares. Não percam.

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