domingo, 10 de junho de 2012

PARÁBOLA DO CÁGADO VELHO (5)

TEMPOS DE PAZ E FARTURA

Pág. 16 - "Ulume aproveitou bem aquele tempo de paz. Com Muari, a primeira mulher, e mais os dois filhos, alargou as plantações. A lavra da mandioca foi limpa, a naka recebeu milho e batata e legumes, o gado se multiplicou."
"Ulume ia a meio da tarde para o cimo do morro contemplar o seu mundo e pensar, enquanto se não dava o instante da paragem súbita do tempo. Pensava no que fora e no agora, nas coisas que tinham mudado. Não havia mais sobas, os brancos tinham acabado com eles. E, sem os brancos, ninguém que mandava agora naqueles kimbos."


Depois de se lembrar que os jovens procuravam Calpe para viver, com seus costumes novos, sem respeito pelas tradições, Ulume pensou nos filhos e "nisso pressentia um perigo escondido. Também seus filhos?"

"Vinha a angústia da espera e tudo parava. Mais angustiado ficava, temor indefinido. O seu filho Luzolo não ia casar no kimbo por preferir Calpe?"
Pág. 17 - "Ulume só falava o que era preciso. Por isso, mesmo no njango, ao fim da tarde, onde os homens maduros se reuniam para fumar e conversar, ouvia os mais velhos, mas raramente dizia uma palavra. Um dia a angústia era grande demais e não se conteve, mas que vêm esses estranhos falar com os jovens?
O sekulo Mona respondeu, cuspindo os restos de tabaco:
- Segredo deles. Bem guardado. Mas coisa boa não deve ser. Esta calma é falsa, o perigo está no ar."
"(...) Alguns tinham andado na escola dos brancos, mas que soubesse, não era o estudo que lhes dava juízo. Decidiu falar com o filho mais velho. (...) Fez a pergunta.
- Não é nada, pai, são as nossas conversar.
- Mas conversas sobre quê? - perguntou Muari.
- Só conversas, mãe."
(...)
Pág. 18 - "O filho mais velho voltou a sorrir aquele sorriso calmo dele, voltou a encolher os ombros. O segundo filho era muito diferente, mais magro, impaciente, sempre pronto para lutar."
"- Conversas sobre política, pai.
- Cala a boca - ordenou o irmão mais velho."
(...)
Havia mais festas nas diferentes aldeias, pois o milho em fartura dava para fazer muita quissangua, bebida de que se alimentam os dançarinos. (...) Numa dessas noites reparou em Munakazi. Ou antes, nos pés dela que se olhavam, os dedos grandes para cima. E na sua ligeira melancolia."

Glossário:
naka - horta
njango - construção circular, aberta, onde se realizam as reuniões
sekulo - velho sábio

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