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Em sua famosa Carta às icamiabas, um dos capítulos de seu
romance (ou rapsódia) Macunaíma, o autor da carta, o próprio Macunaíma, critica
o fato de se falar uma língua e se escrever em outra. A aproximação entre a
arte literária e a língua das ruas era uma das bandeiras do pessoal da Semana
de Arte Moderna, em 1922. Hoje, depois dos estudos linguísticos e semióticos,
depois de Saussure e os outros todos que se aventuraram a falar da língua
cientificamente, tenho certeza de que o autor da carta teria outra visão dos
fatos.
A presença física dos falantes tem um grau de riqueza na
comunicação que jamais será alcançado pela escrita, por mais que se usem
recursos como os sinais diacríticos, os recursos gráficos. A voz, suas
intenções, os gestos (quem disse que mão não fala?), as expressões faciais, o
mover dos olhos, enfim, uma infinidade de detalhes que enriquecem o ato da
comunicação oral e que não são encontrados na língua escrita representam a
comunicação direta, a mais antiga e a mais rica.
Li algures que um ator russo conseguiu dar quarenta e duas intenções diferentes a uma pequena frase. A escrita era uma só.
Além disso, sabemos
que qualquer comunicação, escrita ou oral, assume formas diferentes para
diferentes circunstâncias. Mas não só a linguagem sofre transformações. Todo o
nosso comportamento. Ninguém vai ao casamento de um amigo vestido de bermuda e
calçado de chinelinho-de-dedo. Não conheço ninguém que vá curtir um sol na
praia vestido de fraque e calçado de sapatos de cromo alemão. O comportamento
(e a linguagem) está certo quando adequado ao momento e ao lugar.
Já contei, mas não
sei se foi aqui (por isso corro o risco da repetição), a história daquele
motorista de táxi que, intuitivamente, sabia disso tudo. Quando Manuel
Bandeira, trajando seu fardão para tomar posse de sua cadeira na Academia
Brasileira de Letras, tomou um táxi, o motorista não parava de observá-lo pelo
retrovisor. Na primeira oportunidade, ante um semáforo vermelho, virou-se para
trás e, muito sério, talvez até majestoso, perguntou ao poeta:‒ Sois rei?
Ah, meu caro
motorista, com sua simplicidade você criou uma anedota, mas também nos passou
uma lição que jamais esqueceremos.
Muito bom! Nós bem sabemos dos enganos que este meio de comunicação, o computador, não presencial e imediato, pode provocar.
ResponderExcluirMenalton, parabens pelo belo texto. Mas parece que o academico foi outro.
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