terça-feira, 17 de julho de 2012

QUESTÕES DE ESTÉTICA DA LITERATURA (19)

Mallarmé
Págs. 46 e 47 - "Todavia, se em alguns autores medievais, maneiristas e barrocos, se encontra expressa a ideia de que o 'estranhamento' da linguagem comum é conatural à literatura - e, mais particularmente, à poesia -, pois que o texto literário só se constitui mediante esse processo de revitalização, potenciação e transformação semântico-formais imposto à linguagem usual, noutros autores, sobretudo renascentistas e neoclássicos, aquele 'estranhamento' da locução é concebido e avaliado como um conjunto de elementos exornativos que torna mais belo e mais aprazível para os leitores o pensamento do autor, instituindo-se assim uma fissura irremediável entre o significado e a forma do texto literário e relegando-se para um plano de complementaridade e de superveniência o trabalho do escritor na linguagem e com a linguagem. Nessa perspectiva, a linguagem literária é portanto um sermo pulchrior  que se constitui, mediante os processos retórico-estilísticos da amplificatio e da exornatio, a partir de uma base linguística mais reduzida e mais simples utilizada na chamada linguagem da comunicação normal.

Foi sobretudo, porém, com escritores simbolistas e pós-simbolistas - e mencionem-se, por mais relevantes, autores como Mallarmé, Valéry, Eliot e Joyce - e com movimentos de teoria e crítica literárias como o formalismo russo e o new criticism anglo-norte-americano - ambos propugnadores da substituição de uma estética essencialista por uma estética técnico-semântica -, que se difundiu e foi ganhando consistente fundamentação teorética, durante a primeira metado do século XX, a ideia de que a literatura se pode e se deve definir como modalidade específica da linguagem verbal, tendo-se desenvolvido a partir de então, em estreito relacionamento com a linguística, estudos sobre os caracteres peculiares e diferenciais da linguagem literária, numa procura persistente e rigorosa da literariedade, ou seja, dos elementos e valores que configurarão singularmente aquela linguagem."

(CONTINUA)

2 comentários:

  1. Embora um ou outro autor não explore o chamado "estranhamento" na linguagem quando se propõe a fazer literatura, ao longo da história e da produção literária, foi confirmado, em várias produções, que se não houver uma preocupação estética com a linguagem, o texto está praticamente fadado a não ser literário.
    Menalton, obrigado por postar aqui estes ricos textos teóricos sobre a nossa amada literatura.

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  2. É isso, Vitor. Acho que conhecer mais não faz mal a ninguém. E ouço muitas vezes a pergunta: mas enfim, o que é e o que não é literatura? Você também deve ouvir isso. Tenho muito ainda que postar, mas as pessoas acham que com duas palavras a gente resolve o problema.

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